Awdah Hathaleen era professor de inglês e ativista dos direitos humanos e da causa palestiniana. Tinha-se tornado conhecido mundialmente pela sua contribuição para o documentário vencedor de um Óscar No Other Land. Foi morto a 28 de julho na sequência de um disparo de um colonos na sua aldeia, Umm al-Khair, em Masafer Yatta, a sul dos montes Hebron na Cisjordânia.
O assassino foi imediatamente identificado como sendo Yinon Levi, um colono extremista e empresário do setor da construção que estava já sobre sanções no Reino Unido e na União Europeia por atos violentos contra palestinianos.
Levi acabou por ser detido por uma noite, esteve três dias em prisão domiciliária mas foi rapidamente ilibado com um tribunal israelita a dizer que as provas de que ele tinha disparado contra Hathaleen tinham “enfraquecido”.
Sabe-se agora que Awdah gravou o momento em que foi morto. As imagens foram divulgadas pelo grupo israelita de defesa dos direitos humanos B’Tselem. E nelas se vê claramente Levi a apontar a arma na sua direção, a disparar, ouve-se o impacto, a sua reação e queda.
O ativista encontrava-se à distância a filmar a situação. Os colonos tinham trazido uma escavadora para os terrenos próximos da aldeia e com ela tentavam avançar para deitar abaixo uma vedação de um olival pertencente a uma família palestiniana. Os habitantes tentaram opor-se e bloquear o movimento da máquina. O condutor da escavadora tinha já atingido um dos jovens palestinianos com um martelo, deixando-o inconsciente.
Levi está na primeira linha do confronto direto com eles e ostenta a arma com que acabaria por cometer o assassinato. Depois de preso, negou o assassinato e o seu advogado, Avichai Hajbi, contou a história de que este tinha sido “forçado a disparar a sua arma para o ar” por sentir que a sua vida estava em perigo.
Palestina
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Os testemunhos recolhidos pela B’Tselem, entre os quais o do seu primo, presente no momento são também consensuais sobre o que se passou.
Sabe-se entretanto que quando a mãe de Awdah lhe perguntou porque matou o seu filho a agrediu à estalada, tendo-a feito cair.
A B’Tselem denuncia ainda o assédio que envolveu as cerimónias fúnebres. A polícia começou por exigir um funeral noturno, só com 15 pessoas a assistir numa das cidades longe da aldeia, depois acabou por aceitar um funeral de dia, sem limite de assistentes mas também numa localidade afastada da aldeia. No próprio dia, deu o dito por não dito e declarou a zona área militar fechada, com bloqueios de estradas, impedindo a participação de pessoas de fora.
No dia do crime, cinco jovens palestinianos e dois ativistas internacionais foram presos. Nessa noite, mais sete habitantes foram presos. Ao longo dessa semana a polícia e os militares passaram a entrar quase todas as noites na aldeia, prendendo seis pessoas.
Já Levi estava de volta na semana passada, a 4 de agosto, a Um al-Kheir com as suas máquinas a terraplanar zonas contíguas às casas da aldeia.
O povoado de Um al-Kheir foi criado nos anos 1960 por beduínos que Israel tinha expulso de Negev. Para o criar, compraram terras aos residentes de Yatta ainda antes de Israel ocupar a Cisjordânia. Os problemas acentuaram-se quando, nos anos 1980, foi criado o colonato de Carmel bem próximo da aldeia e declarada a terra adjacente como “terra estatal” com vista a acabar por anexá-la ao colonato. Desde então, os colonos têm feito tudo ao seu alcance na tentativa de expulsar os habitantes da aldeia com um assédio constante.