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Autores de impeachment de Dilma pedem saída de Bolsonaro

Miguel Reale Júnior defende que se faça um exame de sanidade ao presidente, Janaina Paschoal diz que ida de presidente a manifestação quando deveria estar de quarentena é inadmissível e um crime contra a saúde pública. Por Luis Leiria.
Janaína Paschoal: “Como um homem que está possivelmente infetado vai para o meio da multidão?”
Janaína Paschoal: “Como um homem que está possivelmente infetado vai para o meio da multidão?”

Foram três os juristas autores do pedido de impeachment da então presidente Dilma Rousseff: Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal. O processo foi parte decisiva do golpe parlamentar que afastou o Partido dos Trabalhadores do governo do Brasil em 31 de agosto de 2016.

Desses três juristas, Hélio Bicudo faleceu em julho de 2018, aos 96 anos; os dois restantes pediram agora o afastamento do presidente Jair Bolsonaro.

Ambos se mostraram indignados por Bolsonaro ter violado as regras ditadas pelo seu próprio ministro da Saúde e participado numa manifestação, no domingo, a favor do seu governo, cumprimentando e tirando selfies com os seus adeptos mais fervorosos. Isto apesar de haver suspeita de o próprio presidente estar contaminado pelo covid-19 e, portanto, haver a possibilidade de, com esta confraternização, ter contaminado uma grande quantidade de pessoas.

É inadmissível, é injustificável, é indefensável

Ao jornal O Estado de S. Paulo, Reale Júnior disse:

Reale Júnior: Bolsonaro precisa de teste de insanidade. Por Senado Federal - CEI2016 - Comissão Especial do Impeachment 2016, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=48434929
Reale Júnior: teste de insanidade para Bolsonaro. Por Senado Federal - CEI2016 - Comissão Especial do Impeachment 2016, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=48434929

“Seria o caso de submetê-lo a uma junta médica para saber onde o está o juízo dele. O Ministério Público pode requerer um exame de sanidade mental para o exercício da profissão. Bolsonaro também está sujeito a medidas administrativas e eventualmente criminais. Assumir o risco de expor pessoas a contágio é crime”.

Por sua vez, Janaína Paschoal, que depois do impeachment entrou no então partido de Bolsonaro, o PSL, e foi eleita deputada estadual de S. Paulo com dois milhões de votos, pediu a saída de Bolsonaro.

“O que ele fez ontem é inadmissível, é injustificável, é indefensável!”, afirmou a jurista e deputada no legislativo paulista. “Crime contra a saúde pública. Desrespeitou a ordem do seu ministro da Saúde”, completou. “Esse senhor tem que sair da Presidência da República. Deixa o Mourão!”, defendeu, referindo-se ao vice-presidente general Hamilton Mourão.

“Como um homem que está possivelmente infetado vai para o meio da multidão?”, questionou. “Que país é esse? Como é que esse homem vai lá, potencialmente contaminando as pessoas, pegando nas mãos, beijando? Ele está brincando? Ele acha que pode tudo?”, criticou, afirmando ter se arrependido do seu voto. “As autoridades têm que se unir e pedir para ele se afastar, não temos tempo para um processo de impeachment”, concluiu, afirmando que o Brasil está a ser invadido “por um inimigo invisível.”

Ataque misógino

A reação das hostes bolsonaristas, que têm predileção especial por atacar todos os seus “renegados”, foi comandada pelo guru do presidente, Olavo de Carvalho, que deu mais uma demonstração da sua misoginia: “Tudo pela saúde. Evitem o contágio: não comam a Janaina Paschoal”, escreveu nas redes sociais. Carvalho vive nos Estados Unidos.

Nesta terça-feira, Jair Bolsonaro voltou a afirmar que existe muita histeria em torno da pandemia do coronavírus e ainda anunciou que neste sábado fará uma “festinha tradicional” de aniversário.

"Eu faço 65 [anos] daqui a quatro dias. Vai ter uma festinha tradicional aqui. Até porque eu faço aniversário dia 21 e minha esposa dia 22. São dois dias de festa aqui”. Na entrevista à rádio Super Tupi, ainda criticou as medidas adotadas por governadores para conter o Covid-19, afirmando que estas vão prejudicar a economia.

“Esse vírus trouxe uma certa histeria. Tem alguns governadores, no meu entender, posso até estar errado, que estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia”, disse.

“A vida continua, não tem que ter histeria. Não é porque tem uma aglomeração de pessoas aqui e acolá esporadicamente [que] tem que ser atacado exatamente isso. [É] tirar a histeria. Agora, o que acontece? Prejudica”.

Primeira morte

De acordo com o último boletim do Ministério da Saúde, de segunda-feira, 16, o Brasil tem 234 casos confirmados da doença. Destes, 152 estão no Estado de São Paulo, que tem mais de 1.700l casos suspeitos.

Nesta terça, ocorreu a primeira morte provocada pelo vírus. Outras quatro mortes estão a ser investigadas por suspeita de terem sido igualmente provocadas pelo covid-19.

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Jornalista do Esquerda.net
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