A ministra do Ambiente e Energia anunciou que irá lançar até ao final de março o concurso para a construção da barragem de Girabolhos. Uma intenção que a associação Zero considera “precipitada, inadequada ao contexto atual e desprovida de uma avaliação técnica integrada que sustente a sua urgência ou eficácia”.
Ao usar as cheias da bacia do Mondego como justificação para avançar com um projeto desta dimensão, o executivo “revela uma abordagem reativa e não estratégica para a gestão dos riscos e até algum aproveitamento político da situação para convencer a opinião pública da necessidade de fazer avançar a agenda “barragista””, considera a Zero no comunicado divulgado este sábado.
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A associação entende que o investimento em infraestruturas hidráulicas desta escala exigem uma análise séria, com processos de decisão sustentados em estudos atualizados que abranjam vertentes como a hidrologia, o ordenamento do território, análises de custo-benefício e impactes ambientais, “não podendo nunca ser substituídos por anúncios políticos enganadores em contexto de crise”.
A construção da barragem de Girabolhos esteve prevista no programa aprovado em 2007 durante o governo Sócrates, com a finalidade única de produção energética, mas o projeto foi abandonado em 2016 devido à falta de rentabilidade económica.
Agora, o Governo diz que ela terá “fins múltiplos”, mas a Zero argumenta que “a narrativa de que a barragem resolveria os episódios de cheia ignora fatores hidrológicos fundamentais, dado que mesmo “num cenário idealizado de retenção total, que na realidade nunca ocorreria, a barragem poderia teoricamente encher em cerca de sete dias num cenário de precipitação semelhante” ao das últimas semanas.
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A Zero considera também “inaceitável que, em pleno contexto de crise, esteja a ocorrer um aproveitamento político através da utilização da emergência atual para promover uma falsa solução e influenciar a opinião pública a favor de uma obra cuja utilidade e eficácia global são, no mínimo, discutíveis”. E conclui que “insistir na barragem de Girabolhos representa um erro estratégico e desvia recursos e atenção de soluções verdadeiramente eficazes”, como seriam o recurso a soluções baseadas na natureza como a criação de bacias de retenção, recuperação do coberto florestal com espécies autóctones e o restauro ecológico dos cursos de água.