Os argumentistas dos maiores estúdios de Hollywood começaram esta terça-feira uma greve. O anterior contrato coletivo de trabalho expirou o seu prazo de validade de três anos à meia-noite de segunda-feira e não foi alcançado nenhum acordo entre sindicato e entidades patronais.
O Writers Guild of America diz que “as respostas dos estúdios foram totalmente insuficientes face à crise existencial que os argumentistas enfrentam”, tendo a sua direção decidido unanimemente entrar em greve a partir das 12 horas, porque “a sobrevivência da escrita como profissão está em causa nesta negociação”.
O sindicato dos argumentistas denuncia uma postura “inamovível” por parte da Alliance of Motion Picture and Television Producers, que representa estúdios e empresas como a Netflix, Amazon, Apple, Disney, Discovery-Warner, NBC Universal, Paramount e Sony. Estes apostarão numa economia uberizada que “desvaloriza ainda mais a profissão da escrita”, que “abre a porta a tornar a escrita uma profissão inteiramente de freelancers”, defende-se no comunicado que explica as razões do protesto.
Os 11.500 argumentistas representados pelo sindicato querem que sejam estabelecidos mínimos de profissionais a ser contratados durante um período estabelecido de tempo, por exemplo por série, enquanto que o patronato não se quer comprometer com nada disto, preferindo o trabalho à peça. Entre as reivindicações estão também melhoria salarial, benefícios de saúde e de pensões e melhores compensações quando o seu trabalho passa para as grandes plataformas como a Netflix ou Amazon Prime. O streaming significou para as empresas que “os seus lucros continuaram altos” e enquanto os gastos nos conteúdos “cresceram”, os argumentistas “ficaram para trás”, reclamam.
Parte do rendimento destes trabalhadores eram os chamados pagamentos residuais pelos direitos de autor. Sempre, por exemplo, que uma série que tivessem escrito voltasse a ser exibida ou através das vendas de DVD tinham direito a um pagamento. Na era do streaming esse pagamento é fixo e feito apenas de uma vez.
As plataformas online implicaram ainda o encurtar do número de episódios produzidos. De acordo com o sindicato, a média de episódios entre os programas feitos para a televisão e os feitos para o streaming desceu: antes eram mais de 20, providenciando um salário que podia durar o ano inteiro, agora são entre 8 a 12 e menos bem pagos.
O último grande processo de luta dos argumentistas norte-americanos tinha sido em 2007, com uma greve de 100 dias com forte impacto, nomeadamente na produção televisiva. Desta feita, conta a NPR, estúdios e plataformas prepararam-se antes, encomendando um grande número de argumentos. Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, disse numa reunião com investidores da empresa que esta tem “uma grande base de futuros programas e filmes de todo o mundo” e “uma lista bastante robusta de lançamentos que nos durará muito tempo”. Para além disso, o processo de produção deste tipo de conteúdos já dura normalmente largos meses pelo que os efeitos da greve não serão imediatamente visíveis. Mas programas que vivem da atualidade, como os talk shows, não conseguem fazer esta gestão. Por isso, espera-se que a muito curto prazo a greve comece a ser sentida em programas como o “Saturday Night Live”, “The Tonight Show Starring Jimmy Fallon” ou o “The Late Show With Stephen Colbert”.
E algumas das estrelas destes programas reagiram desde logo solidariamente. Jimmy Fallon, na Met Gala desta segunda-feira, disse que “apoio os meus argumentistas” e “farei o que poder para os ajudar”. Stephen Colbert mostrou-se no seu programa em foto ao lado dos argumentistas e declarou-se membro deste sindicato, acrescentando que apoia a negociação coletiva e que o país “deve tanto aos sindicatos, são a razão pela qual temos fins de semanas”, exemplificou.