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Argélia: partido de Bouteflika apoia... manifestantes contra Bouteflika

As manifestações massivas contra a recandidatura do presidente argelino começam a causar fissuras na estrutura do poder instituído. O líder interino da FLN, partido de Bouteflika, declarou que o partido apoia o movimento popular. E até o exército emite sinais favoráveis aos manifestantes.
Foto de Omar Malo/Flickr

O partido histórico da Argélia, a Frente de Libertação Nacional, no poder desde 1962, é o partido do atual presidente que tem sido contestado por uma vaga de manifestações bastante expressivas de vários setores da sociedade. Esta quarta-feira o líder interino do partido, Moab Bouchareb, surpreendeu com uma declaração pública, numa reunião de quadros do partido, em que afirmou que a FLN “apoia o movimento popular”.

Bouchareb, também ele criticado nas ruas por ser parte da elite política do país, tentou assim distanciar-se de Bouteflika assegurando ainda que “o governo não está nas mãos do partido”. Outro parceiro menor da coligação governamental, a União Nacional Democrática (RND), tinha-se já antecipado por pouco no mesmo caminho. Seddik Chihab, o seu presidente, caracterizou a candidatura de Bouteflika como “um erro enorme”.

Sinais políticos evidentes que a tentativa de Bouteflika de responder à contestação popular causada pela sua declaração de recandidatura à Presidência da República através do adiamento das eleições e da convocatória de uma Assembleia para mudar o sistema político fracassou. As manifestações não desmobilizaram, antes pelo contrário. E é o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros, Ramtane Lamamra, que o reconhece. Em Berlim, numa conferência de imprensa, também esta quarta-feira, declarou que “as manifestações apenas se tornaram mais numerosas e não haverá solução exceto através do diálogo”. E, garante, o poder político está “pronto para o diálogo” com os manifestantes. E até que este está “preparado para dar as boas-vindas a representantes da oposição e da sociedade civil no novo governo que está correntemente a ser formado.”

Mas a formação desse governo tarda. O primeiro-Ministro Noureddine Bedoui foi convidado a semana passada para formar um novo governo e tinha prometido tê-lo pronto em poucos dias. Continua até ao momento sem conseguir apresentar um governo, o que tem sido visto como mais um sinal de deterioração do regime.

A força das manifestações arrastou a Igreja Protestante da Argélia, que emitiu um comunicado de apoio à contestação uma vez que “partilha totalmente as aspirações e exigências legítimas do povo argelino”. E já tinha levado a união dos imãs e o Alto Conselho Islâmico a tomar uma posição idêntica.

E até um dos pilares centrais do regime, as forças armadas, parece ter debaixo cair Bouteflika. O chefe do exército e vice-ministro da Defesa, o general Ahmed Gaïd Salah, na passada segunda-feira afirmou ter “absoluta confiança na sabedoria do povo” e saudou os “nobres objetivos” dos manifestantes.

Perante esta aparente debandada, o site de informação Algériepart alega ter “fontes seguras” de que irá ser emitida uma “mensagem presidencial” na qual Abdelaziz Bouteflika poderá anunciar que o seu mandato terminará no prazo que estava previsto antes do adiamento das eleições, 28 de abril.

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