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Argélia: mobilizações gigantes contestam quinto mandato de Bouteflika

Manifestantes rejeitam o anúncio de uma quinta candidatura à Presidência de Abdelaziz Bouteflika. Entrevista a LT, do Partido Socialista dos Trabalhadores, feita por Antoine Larrache, do site do NPA.
Mobilizações crescem na Argélia. Foto de Abde Slam Maouche
Mobilizações crescem na Argélia. Foto de Abde Slam Maouche

Na sexta-feira dia 15 de fevereiro, dia das orações e dos jogos de futebol (correspondente ao nosso domingo), as claques das duas equipas que jogavam no Estádio 20 de Agosto de Argel, capital da Argélia, fizeram uma trégua na sua disputa e uniram-se para gritar: “Não ao quinto mandato! Não a Bouteflika e ao seu irmão Said!”. Uma semana depois, no dia 22, houve manifestações em mais de 40 cidades convocadas por mensagens anónimas nas redes sociais da Internet. Na terça 26, centenas de milhares de estudantes mobilizaram-se nas 48 universidades ou nos seus arredores.

É uma mobilização, que cresce continuamente, em rejeição à candidatura a um quinto mandato na Presidência da República de Abdelaziz Bouteflika, 82 anos. O atual presidente está internado num hospital de Genebra, Suíça, e praticamente não é visto desde 2013, quando sofreu um acidente vascular-cerebral. O seu irmão, conselheiro presidencial e considerado uma espécie de presidente interino, também está doente.

Nesta entrevista, LT, do Partido Socialista dos Trabalhadores da Argélia, explica que o movimento contra o quinto mandato exprime também a rejeição “de todo um sistema oligárquico e corrupto submisso às forças imperialistas”.

Pode explicar como o movimento arrancou entre os jovens?

Foram lançados nas redes sociais apelos a tomar as ruas no dia seguinte ao anúncio, feito pela aliança presidencial, da candidatura de Bouteflika a um quinto mandato. Ocorreram mobilizações espontâneas em algumas cidades do país (Khenchla, Kherata, Jijel…). No dia 22 de fevereiro, na sequência de apelos anónimos, centenas de milhares de jovens manifestaram-se nos quatro cantos do país vencendo o medo e desafiando a proibição, nomeadamente na capital, para manifestar a sua rejeição do quinto mandato e do sistema. A mobilização não deixa de crescer e de chegar a setores como os advogados, os jornalistas, os estudantes, as mulheres, etc.

Quais são os objetivos dos jovens mobilizados?

É evidente que a mobilização se opõe à imposição de um 5º mandato de um Bouteflika diminuído que perdeu todas as suas capacidades desde 20131. Mas a população exprime também a sua rejeição de todo um sistema oligárquico e corrupto submisso às forças imperialistas. Vimos centenas de milhares de jovens, de menos jovens, de velhos, de mulheres, gritando as palavras de ordem de liberdade, de democracia, de igualdade e de justiça social.

Que forças militantes estão no terreno?

Por enquanto, o movimento é heterogéneo e sem representação política, todas as franjas da sociedade e todas as sensibilidades são parte integrante deste movimento.

A UGTA2, dirigida por Sidi Saïd, mantém uma posição de apoio a Bouteflika no seu programa. Ela reiterou a sua posição mesmo depois do início dos acontecimentos atuais. Mas certos setores combativos são suscetíveis de desobedecer e de levar um movimento mais combativo.

A FFS3 e o PT4 exprimiram um apoio ao movimento através dos seus comunicados, afirmam querer uma “mudança de sistema”. Estas duas forças defendem o princípio da eleição de uma Assembleia Constituinte.

Existe auto-organização?

A maioria das mobilizações são espontâneas ou têm como base convocatórias feitas nas redes sociais. Aparecem novas formas de protesto, à imagem dos coletes amarelos de França, como as braçadeiras vermelhas, que nasceram em Bejaia. No curso da mobilização, vemos que se mobilizam certos setores historicamente pouco combativos, como os advogados, os jornalistas dos meios de comunicação públicos (órgãos de propaganda do poder), manifestando-se hoje para exigir a objetividade na difusão da informação, os estudantes que saem às centenas de milhar em todas as universidades do país, as mulheres que se preparam para ganhar as ruas nos dias 8 e 9 de março, esperando outros setores (operário, saúde, educação, etc.).

A presença das mulheres é bastante importante nas manifestações. Há convocatórias para comemorar o 8 de março em manifestações que façam convergir as reivindicações do movimento com as do movimento feminista e da jornada internacional da luta das mulheres pela sua emancipação.

Existe o risco de se impor uma trajetória semelhante à iraniana? Ou isso é absurdo?

Este cenário está longe de ser realizável, porque as realidades são totalmente diferentes, apesar da islamização da sociedade. Penso que o islamismo político está derrotado na Argélia e isto por muitas razões: a década negra, o fracasso relativo dos partidos islamistas que num determinado momento fizeram parte da aliança presidencial, mas também da sua gestão catastrófica nas instâncias eleitas, etc.. Na sequência das diretrizes do ministério dos Assuntos Religiosos, os fiéis insurgem-se contra os imãs que apelam a que não haja manifestações depois das orações de sexta-feira. As tentativas de recuperação de certos grupos islamistas foram totalmente desfeitas pelos manifestantes.

Que propõem para o movimento?

O nosso objetivo é impor pela mobilização a eleição de uma Assembleia Constituinte representativa das aspirações democráticas e sociais dos trabalhadores e das massas populares, e isto só pode sair da convergência das lutas de todas as forças progressistas, democráticas e sociais. Mas, de momento, a prioridade é acompanhar estas lutas e dar uma clarificação e uma explicação política a esta mobilização que exprime antes de tudo a rejeição das políticas liberais, antissociais e antidemocráticas de um governo submisso ao imperialismo. Políticas que nos privam das nossas liberdades, que nos empobrecem e reduzem o nosso poder de compra.

Publicado no site do NPA

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

1Bouteflika sofreu um acidente vascular cerebral em abril de 2013, mas manteve-se no cargo. Há anos que não fala em público, diz-se que se comunica com os ministros apenas por escrito. Segundo a revista The Economist, é um “morto-vivo”. No dia 24 de fevereiro do mês passado, foi internado no Hospital Universitário de Genebra.

2UGTA: União Geral dos Trabalhadores Argelinos, principal central sindical da Argélia.

3FFS: Frente das Forças Socialistas, partido ligado à Internacional Social-Democrata.

4PT: Partido dos Trabalhadores, fundado em 1990 num congresso público da Organização Socialista dos Trabalhadores.

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