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Ângela Mendes: "Depois do Bruno e do Dom, outros ativistas já foram assassinados"

A coordenadora do Comité Chico Mendes interveio no encerramento do Fórum Socialismo 2022 e deixou o alerta sobre o papel da Europa, por via das suas empresas e dos acordos comerciais que promove, na violência e contaminação ambiental que afetará várias gerações na Amazónia.
Ângela Mendes no Fórum Socialismo 2022. Foto de Ana Mendes.

Convidada para intervir no encerramento do Fórum Socialismo 2022, a ativista ambiental Ângela Mendes, coordenadora do Comitê Chico Mendes, saudou a ação dos eurodeputados do Bloco nas iniciativas a favor da proteção da Amazónia e falou da realidade que se vive naqueles territórios. "Os conflitos e a violência contra as populações do campo e das florestas nunca cessaram, mas aumentaram de forma significativa com o governo atual", salientou a ativista. Ao longo do mandato, Bolsonaro "desvirtuou todas as nossas políticas públicas", seja de educação, cultura, inclusão ou meio ambiente, além da perseguição que moveu aos funcionários que fazem a fiscalização e gestão dos territórios, "criando um sentimento de impunidade que promove a violência". "Depois do Bruno [Pereira] e do Dom [Phillips], outros ativistas que não têm tanta projeção já foram assassinados", denunciou Ângela Mendes.

Mas em breve o país terá uma "oportunidade crucial de votar pelo fortalecimento da democracia e o resgate da dignidade da população brasileira", acrescentou a ativista, provocando fortes aplausos na sala. Ângela Mendes falou da história do comité criado em 1988 após o assassinato do seu pai, o histórico ativista em defesa da floresta e das populações da Amazónia, Chico Mendes. E também do seu legado, ao ter formado "uma aliança dos povos da floresta, com indígenas, seringueiros, castanheiros, que foi importantíssima como frente de resistência pacífica à violência do latifúndio e dos madeireiros, mas também por impulsionar a luta pelo direito aos territórios".

"Essa aliança foi responsável pela criação das reservas extrativistas, unidades de conservação com pessoas fazendo o uso sustentável da floresta e que são a fronteira contra o desmatamento e a depredação da Amazónia", prosseguiu, explicando que existem atualmente 90 reservas extrativistas florestais que protegem 25 milhões de hectares da Amazónia. Somando às outras unidades de conservação que que entretanto nasceram, ao todo protegem cerca de 60 milhões de hectares, ou seja, 12% do território.

Nesta sua passagem pela Europa, Ângela Mendes procura sublinhar que a ameaça que paira sobre a Amazónia "é um projeto tanto do Bolsonaro como do sistema capitalista de hoje, que atende ao chamado mercado das commodities" e onde as indústrias da mineração, carne, soja e madeira desempenham um papel fundamental. Mercados que "têm procura crescente na Europa", lembrou. E "a cada acordo - Mercosul e outros acordos comerciais - que envolva o Brasil, a violência contra os povos originais está na base deles, pois a floresta é queimada, as lideranças dos povos são assassinadas". Por isso, conclui, "a Europa desempenha um papel importante e está a impulsionar essa violência", que também marca as "gerações contaminadas pela poluição gerada nos rios" pelas empresas que têm sede aqui na Europa. "Além da punição dessas empresas, é necessária a proteção dessas populações e a sua valorização, que elas sejam respeitadas e ouvida nesses acordos", defendeu Ângela Mendes, sublinhando que "até agora esse modelo de desenvolvimento só tem mostrado que está a ir pelo caminho errado".

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