O projeto da nova central solar fotovoltaica em Ferreira do Alentejo incide numa zona de afloramentos rochosos dos Gabros de Beja, conhecida como serra do Paço, (também por serra do Mira), um conjunto de colinas numa área limítrofe dos concelhos de Beja e Ferreira do Alentejo e onde se atinge os 280 m de altitude. Trata-se de "uma área ímpar no Baixo Alentejo", diz a associação ambientalista Zero no comunicado em que exprime a sua oposição a este projeto previsto para uma região "que pouco a pouco vê a sua envolvente completamente transformada pela atividade agrícola mais intensiva".
A Zero elenca alguns dos atributos que destacam esta zona tanto do ponto de vista geológico, com uma formação rara no contexto ibérico, como na diversidade pedológica e orográfica que "determinaram a notável heterogeneidade das suas comunidades biológicas". E acrescenta que nos últimos 20 anos, apesar desta área estar parcialmente fora do perímetro de rega de Alqueva, tem vindo pouco a pouco a ser ocupada por olivais e pomares e por uma primeira central solar fotovoltaica aí instalada recentemente.
Entre as razões da sua oposição ao projeto está a sua dimensão, que vai ocupar os 750 hectares que equivalem a "toda a área remanescente do espaço da serra do Paço no concelho de Ferreira do Alentejo ainda não ocupado por agricultura intensiva e painéis solares". A instalação dos painéis e da vedação, os caminhos novos e faixa de gestão de combustível irão por sua vez afetar a riqueza florística da região, na qual se incluem espécies consideradas vulneráveis, quase ameaçadas ou criticamente em perigo. Para mais, "dado o elevado desconhecimento que ainda existe sobre a área e a dinâmica das suas espécies, existe um elevado risco de afetação de valores atualmente não identificados", aponta a Zero.
Como se trata de uma das zonas mais elevadas da região, está também em causa a "artificialização da paisagem", como o projeto localizado fora das áreas preferenciais recomendadas pelo estudo do Laboratório Nacional de Energia e Geologia para a instalação de unidades de produção de energia solar e eólica. E "como tem sido comum neste tipo de projetos, não foi apresentada alternativa", refere ainda a Zero, retirando assim a possibilidade de comparar soluções possíveis e "enviesando o procedimento de avaliação".
Para os ambientalistas, esta área deveria ser protegida, pois "a dependência biológica de muitas das espécies aqui existentes relativamente ao substrato geológico subjacente não permite a sua existência noutros locais e não se compadece com a manutenção de pequenas bolsas e outras medidas que são propostas" no Estudo de Impacto Ambiental.
A preservação da área remanescente da serra do Paço pode contribuir para o cumprimento da meta de proteção de 30% das áreas terrestres da União Europeia até 2030, definida na Estratégia para a Biodiversidade, quando o país atualmente está nos 22,4%, ou seja, "ainda com um longo caminho para atingir uma ambição nacional também compatível e em linha com uma futura Lei do Restauro da Natureza", acrescenta a Zero, concluindo que "a aprovação deste projeto representaria um claro revés para a política de conservação da natureza em Portugal".