A Liga Alemã de Futebol, DFL, anunciou que a proposta de acordo com um fundo de investimento, o CVC, no valor de mil milhões de euros não se concretizará. Em causa estava uma “parceria estratégica” para a empresa investir em “medidas de marketing digital", de forma a aumentar o preço dos direitos de transmissão internacionais dos jogos, ficando com 8% dos lucros durante 20 anos. O mandato para negociar este acordo tinha sido votado por 24 dos 36 clubes por voto secreto em dezembro e a decisão de o anular chegou depois de semanas de protestos dos adeptos em jogos das duas principais competições de futebol do país.
O presidente da direção da organização, e CEO do Borussia Dortmund, Hans-Joachim Watzke, justificou que “dados os desenvolvimentos correntes, uma continuação bem sucedida do processo já não se apresenta como possível”. Para além do CVC, outro fundo mais conhecido, o norte-americano Blackstone, tinha estado na corrida para o negócio.
Em vários jogos, para além das faixas e dos cânticos de protesto, foram lançadas bolas de ténis, assim como outros objetos como moedas de chocolate, houve carrinhos controlados com controlo remoto dentro do campo, o que chegou a atrasar o início das partidas. O grupo de adeptos Unsere Kurve congratulou-se que os protestos “muito criativos, a alargados e completamente pacíficos tenham sido a chave para este sucesso”.
Em comunicado conjunto com outras organizações de adeptos, como a baff, Aliança de adeptos de futebol ativos, a F_in, Mulheres no futebol, o FC PlayFair!, e o clube de fãs queer de futebol, este grupo de adeptos tinha criticado a direção da DFL por ignorar as suas tomadas de posição, exigindo uma nova votação “aberta e transparente” sobre este acordo. Congratulava-se ainda que vários representantes de clubes tivessem ficado do lado dos adeptos.
Um deles era o VfB Stuttgart, cujo presidente Claus Vogt também manifestou satisfação com o fim do acordo que voltaria a unir “todos os que amamos o futebol”.
Em causa estava sobretudo o que se considerava ser a comercialização do jogo para além dos meandros pouco conhecidos do acordo. Temia-se que, por exemplo, os horários dos jogos pudessem passar a ser ajustados de acordo com as conveniências da audiências internacionais e não dos adeptos que estão presentes nos estádios.
Para além disso, suspeita-se que o voto que decidiu a maioria de dois terços necessária, tivesse vindo de Martin Kind, diretor executivo do Hannover 96 que tinha um mandato explícito para votar em sentido contrário. Daí as exigências de transparência na votação que os adeptos vincavam. Por causa disto, o FC Colónia tinha proposto uma nova votação sem ser secreta, ideia a que se iam juntando cada vez mais clubes.
Outro problema em questão é que tudo isto “abalava o 50+1 até aos seus alicerces”, nas palavras dos adeptos. Referência à regra da DFL que estipula que nos clubes o controlo maioritário tem de ser dos sócios. Há anos, interesses económicos tentam minar o princípio e os adeptos lutam por mantê-lo.
Já o CVC também está muito interessado no futebol mas de outra maneira. De acordo com a Deutsche Welle, conseguiu acordos semelhantes com a liga espanhola e a francesa. Neste último caso, o negócio está a ser investigado pelas autoridades do país.