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Albânia: A História de um país instável

As recentes eleições legislativas na Albânia levaram-me a procurar na História alguns fenómenos que aquelas espelham, algo que não surpreende numa região onde a História está constantemente a vir ao de cima. Por Jorge Martins.
Estátua de Skënderbeu em Tirana,
Estátua de Skënderbeu em Tirana, em homenagem ao herói da luta contra a ocupação otomana no século XV: Foto de Patrick Müller/Flickr

As recentes eleições legislativas na Albânia levaram-me a procurar na História alguns fenómenos que aquelas espelham, algo que não surpreende numa região onde a História está constantemente a vir ao de cima.

Das origens desconhecidas aos proto Estados albaneses 

A origem dos albaneses não é consensual entre os historiadores, embora se pense que é o resultado de cruzamentos entre tribos ilíricas, gregos e trácios, embora o nacionalismo albanês tenda a enfatizar a primeira daquelas origens, considerando que são o povo descendente dos ilírios.

O território foi conquistado pelos romanos, no sec. III a.C., após três guerras, denominadas precisamente de ilíricas.

No séc. VII, chegaram tribos eslavas, que foram absorvendo alguns povos da região, pressionando o Império Bizantino, em que a zona se inseria.

No séc. XI, ocorreu o primeiro grande cisma da cristandade, quando o patriarca de Constantinopla rompe com o Papa, criando a Igreja Ortodoxa Grega. Na Albânia, a cisão vai ocorrer entre o Norte, que se mantém católico, e o Sul, que se torna maioritariamente ortodoxo.

No final do século seguinte, emerge, nas zonas setentrional e central, o principado de Albanon, entidade semiautónoma no seio do Império Bizantino, que alguns consideram o primeiro Estado albanês. Contudo, dura pouco tempo, face aos ataques de sérvios e venezianos.

Em finais do sec. XIII, o príncipe francês Carlos de Anjou enceta contactos com nobres da região e é proclamado rei da Albânia, aproveitando para expandir o catolicismo, que se consolida na sua parte setentrional.

Em meados do século seguinte, acaba brevemente integrado no Império Sérvio, mas as revoltas albanesas sucedem-se. Pouco depois, este entra em desagregação e colapsa, volvendo a zona ao domínio bizantino.

A conquista e o domínio otomano

Porém, no sec. XV, a expansão dos otomanos é imparável e a Albânia cai sob o seu domínio ainda antes da queda de Constantinopla, o que leva muitos albaneses a fugir para o sul de Itália e para a Sicília, onde buscam a proteção do reino de Nápoles.

Contudo, alguns nobres católicos resistem, formando a chamada Liga de Lezhë, a cidade do Noroeste do país onde aqueles selam uma aliança. Comandados pelo príncipe Gjergi Kastroti, conhecido por Skënderbeu, ainda hoje um herói nacional, obtiveram importantes triunfos militares contra os otomanos, atrasando a sua expansão para o resto da Europa Central e Oriental. Teve apoio de alguns reinos cristãos e da república de Veneza e tentou criar uma frente cristã contra os turcos, mas não logrou esse propósito. Após a morte do seu líder, as contradições entre os diferentes clãs emergiram e a aliança desagregou-se. Em 1479, a totalidade do país foi tomada pelo Império Otomano.

Progressivamente, foi-se dando a islamização da sociedade. Os cristãos não eram perseguidos, mas eram cidadãos de segunda ordem e objeto de impostos adicionais. Por isso, muitos optaram pela conversão ao Islão.

A marcha para a independência

Tal como sucedeu noutras nações europeias integradas nos impérios então existentes, o final do sec. XVIII e grande parte do sec. XIX fica marcado pela chamada Renascença albanesa, com o florescimento de obras literárias e artísticas de raiz local, muito influenciadas pelo romantismo, que ajudaram à construção de uma consciência nacional.

Em 1878, a vitória russa na guerra contra os turcos inquietou as elites da Albânia, que viram os Estados eslavos vizinhos (Sérvia, Montenegro e Bulgária) e a Grécia a querer apropriar-se de territórios maioritariamente povoados por albaneses.

É fundada, então, a Liga para a Proteção dos Direitos da Nação Albanesa, também denominada Liga de Prizren, a cidade do Kosovo onde foi criada. Inicialmente, o seu objetivo era a defesa da integridade territorial do Império Otomano, visto como uma forma de defender as populações muçulmanas das ambições dos novos estados ortodoxos. Contudo, observando a fraqueza turca, consideraram que só a junção dos albaneses conseguiria garantir a unidade nacional, pelo que reivindicam a união das quatro províncias em que estava dividida a Albânia numa única província autónoma, algo que foi rejeitado pelos otomanos.

Em 1911, estes mostravam-se dispostos a aceitar aquela reivindicação, mas essa possibilidade esfumou-se com a 1ª guerra balcânica, na qual sérvios, montenegrinos, búlgaros e gregos derrotam os turcos e ocupam parte dos territórios que estavam destinados à concretização daquela.

A independência e a I Guerra Mundial

Em 28 de novembro de 1912, na sequência do fim daquele conflito, uma assembleia nacional, reunida em Vlorë, proclama a independência, de forma a salvar o que resta da Albânia. É nomeado um governo, liderado por Ismail Qemali, e criado um Senado.

No ano seguinte, a conferência de paz de Londres, onde estão representadas as seis grandes potências europeias da época (Reino Unido, França, Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia e Itália), aceita a criação do Principado da Albânia, tendo como soberano o príncipe alemão Wilhelm Vidi e a capital provisória em Durrës. Para lá, seria enviada uma força multinacional e um grupo encarregado de elaborar uma Constituição. Na prática, o novo país não é mais que um protetorado internacional.

Entretanto, acaba por dividir os albaneses, aprovando a entrega de algumas áreas setentrionais ao Montenegro, o Kosovo à Sérvia, a maioria do Epiro à Grécia e partição da Macedónia do Norte entre a Sérvia e a Bulgária.

O tratado de Bucareste, que põe fim à 2ª guerra balcânica, que opôs a Bulgária aos seus antigos aliados e aos romenos e turcos, confirma a independência albanesa.

Durante a I Guerra Mundial, a Albânia tornou-se um campo de batalha. Depois da ocupação grega do Sul, os sérvios e montenegrinos ocuparam parte do Norte, no início de 1915.

Porém, o novo regime, muito sustentado na nobreza e nos católicos da zona nortenha do país, é mal visto pelos camponeses, que se revoltam, com o apoio do clero islâmico, e apoiaram uma tentativa de restaurar o domínio otomano, detida pelas forças internacionais. Em 1914, pouco após o rebentamento da I Guerra Mundial, a pressão popular leva à queda do regime e o príncipe é obrigado a deixar o país.

Pouco antes, o protocolo de Corfu reconhecia o Epiro do Norte, no sul do país, onde existia uma grande população grega, como região autónoma. Contudo, o derrube do príncipe levou a que o país entrasse na anarquia generalizada e as tropas helénicas ocupam a zona, onde proclamam uma república independente.

Durante a I Guerra Mundial, a Albânia tornou-se um campo de batalha. Depois da ocupação grega do Sul, os sérvios e montenegrinos ocuparam parte do Norte, no início de 1915. Contudo, no ano seguinte, os primeiros seriam desalojados pelos italianos, que ocupam, igualmente, o porto de Vlorë, que muito ambicionavam conquistar, e os segundos pelos austro-húngaros, que controlarão o Norte e Centro do território quase até ao fim do conflito. Por seu turno, os búlgaros tomam conta de uma sua porção oriental.

No final da guerra, os sérvios reocupam o Norte e os italianos dominam o Centro e o Sul. A resistência dos albaneses expulsa os primeiros, após uma breve, mas sangrenta guerra, mas o país torna-se um protetorado italiano até 1920, quando as tropas albanesas os derrotam em Vlorë, obrigando-os a abandonar o país.

Na Conferência de Versalhes, as potências regionais vencedoras (Jugoslávia, sucessora da Sérvia e do Montenegro; Grécia e Itália) pretendem partilhar a Albânia, só não o conseguindo devido à oposição do presidente dos EUA, Woodrow Wilson, que defende a sua independência, embora nas fronteiras de antes da guerra. Em 1920, o país é admitido na Sociedade das Nações.

A instabilidade política do período de entre guerras

O país continua extremamente atrasado e pobre, com uma sociedade ainda com relações de produção de tipo feudal e a Grande Depressão agrava a situação, levando o país à bancarrota e ao consequente aumento da influência dos italianos no seu seio, já que estes eram os seus principais credores.

Entretanto, a instabilidade política mantém-se, fruto da rivalidade entre os conservadores ligados à aristocracia terratenente, liderados pelo primeiro-ministro Ahmed Zogu, e modernizadores de várias tendências, encabeçados por Fan Noli, um clérigo ortodoxo. O primeiro era proveniente do Norte e o segundo do Sul. Em junho de 1924, uma revolução popular derruba o primeiro, colocando o segundo à frente da governação. Contudo, seis meses depois, Zogu retoma o poder, num golpe de Estado apoiado por tropas jugoslavas e russos “brancos”.

No ano seguinte, é proclamada a República, com o Parlamento a eleger Zogu para um mandato de sete anos. Este exerce o poder de forma despótica, suprimindo as atividades da oposição e as liberdades, censurando a imprensa, prendendo, torturando e matando opositores.

Em 1928, dissolve o Parlamento e proclama-se rei, com o nome de Zog I. Mantem a sua governação ditatorial, apoiada no exército, constituído, em grande parte, por gente do seu clã e desenvolve o medo de ser assassinado, raramente aparecendo em público. A nível externo, torna-se aliado de Mussolini, embora as relações com o ditador italiano conheçam altos e baixos, o mesmo sucedendo relativamente aos vizinhos jugoslavos e gregos.

O país continua extremamente atrasado e pobre, com uma sociedade ainda com relações de produção de tipo feudal e a Grande Depressão agrava a situação, levando o país à bancarrota e ao consequente aumento da influência dos italianos no seu seio, já que estes eram os seus principais credores.

A ocupação italiana e a 2ª guerra mundial

Em abril de 1939, a Itália invade a Albânia e Vítor Emanuel III passa a ser, igualmente, rei dos albaneses.

Com essa ocupação, estes veem-se envolvidos na 2ª guerra mundial, quando Mussolini entra nela ao lado da Alemanha, no ano seguinte.

Em 1941, Mussolini, querendo mostrar a força das suas tropas, utiliza o território albanês como base para a invasão da Grécia. Contudo, esta revela-se um total fracasso, com os italianos a ser repelidos pelos gregos, que ultrapassam fronteira e ocupam o Sul do país. Hitler é obrigado a vir em seu auxílio e tropas alemãs invadem a Jugoslávia e atacam a Grécia, obrigando os helénicos à rendição. Na sequência disso, a Albânia vai anexar a maioria dos territórios jugoslavos onde existiam populações etnicamente albanesas, com exceção do sudoeste da Macedónia do Norte, entregue à Bulgária, enquanto a Chaméria grega fica sob ocupação militar italiana.

Após a queda de Mussolini e a rendição da Itália, em 1943, o país é ocupado pela Alemanha nazi.

Tal como noutros países ocupados, surgem dois movimentos de libertação: em 1939, a Frente Nacional, republicana, nacionalista e anticomunista, defensora da Grande Albânia; a partir de 1941, o Movimento de Libertação Nacional, criado pelo recém-fundado partido comunista. Sob a liderança de Enver Hodxa, rapidamente este se torna a força dominante no seio da resistência.

Apesar da desconfiança mútua, as duas organizações aliaram-se, chegando a assinar um memorando de entendimento, no qual ambas se propunham lutar pela Grande Albânia. No entanto, sob pressão dos camaradas jugoslavos, os comunistas declararam aceitar o regresso do Kosovo à Jugoslávia, o que levou à rutura entre as duas partes. Na fase final do conflito, muita da primeira, apoiada nas elites tradicionais terratenentes e nos chefes de clãs, passou a colaborar com os ocupantes na luta contra os “partisani”.

A libertação e o início do regime estalinista

Em 29 de novembro de 1944, a guerrilha comunista controla todo o país, expulsando as forças alemãs, que irá perseguir nos países vizinhos, em especial na Jugoslávia. É criado um governo provisório, liderado por Hodxa, e tendo por base o chamado Conselho Nacional Antifascista de Libertação.

Em 1946, é proclamada a República Popular da Albânia. Uma das primeiras medidas de impacto económico-social é a reforma agrária, com a coletivização das terras, até então detidas por uma pequena minoria terratenente e largamente absentista, o que levou ao apoio dos camponeses ao novo regime. Todas as indústrias são nacionalizadas e a economia passa a seguir o modelo estalinista de economia planificada e centralizada.

Na consolidação do poder, o novo governo encetou uma política de repressão, não apenas sobre os colaboracionistas, mas também sobre os membros da antiga elite e pessoas suspeitas de serem “inimigos do povo”, muitos dos quais foram presos e executados, uns julgados por tribunais revolucionários, outros de forma sumária. Por seu turno, as famílias destes foram enviadas para campos “de reeducação” e para trabalhos forçados em quintas agrícolas do Estado.

Em 1946, é proclamada a República Popular da Albânia. Uma das primeiras medidas de impacto económico-social é a reforma agrária, com a coletivização das terras, até então detidas por uma pequena minoria terratenente e largamente absentista, o que levou ao apoio dos camponeses ao novo regime. Todas as indústrias são nacionalizadas e a economia passa a seguir o modelo estalinista de economia planificada e centralizada. Entretanto, naquele que era, até aí, um dos mais patriarcais países europeus, dão-se avanços significativos nos direitos das mulheres, com a criminalização dos chamados crimes “de honra” e o encorajamento ao trabalho feminino fora da esfera doméstica.

A rutura com a Jugoslávia de Tito

No ano seguinte, as relações com a Jugoslávia deterioram-se. Hodxa desconfiava que Tito pretendia anexar o país à federação jugoslava, de quem, então, dependia economicamente. Entretanto, digladiam-se as fações titista e nacionalista do partido, com a primeira a pretender que a Albânia se tornasse na sétima república daquela, algo a que a segunda, com a qual se identificava Hodxa, se opunha.

Em 1948, dá-se a rutura de Tito com Estaline. Os comunistas albaneses apoiam o líder soviético e rompem as relações com Belgrado. É o pretexto para Hodxa iniciar uma “purga” no seio do agora denominado Partido do Trabalho da Albânia (PPSH), que culmina com a prisão e execução dos dirigentes titistas e seus apoiantes. Ao mesmo tampo, acusa os jugoslavos de massacrar os albaneses do Kosovo.

Nesse mesmo ano, adere ao COMECON, a organização económica do bloco soviético, e torna-se num dos seus mais fiéis aliados.

A rutura com a URSS

Contudo, após a morte de Estaline, assiste-se às primeiras divergências, apesar de a Albânia ter sido um dos Estados fundadores do Pacto de Varsóvia, em 1955. A ideia de coexistência pacífica com o Ocidente capitalista desagradava a Hodxa, que a considerava uma traição aos princípios socialistas. Contudo, temia, antes de mais, o desanuviamento das relações entre Moscovo e Belgrado e que este fosse feito à custa da independência da Albânia. A denúncia, por parte de Nikita Krutschev, dos crimes de Estaline no XX Congresso do partido comunista soviético, em 1956, enfureceu a liderança albanesa. Esta considerou que a desestalinização e o titismo foram responsáveis pela revolta anticomunista na Hungria e pelas greves operárias na Polónia, nesse ano.

Após a morte de Estaline, assiste-se às primeiras divergências, apesar de a Albânia ter sido um dos Estados fundadores do Pacto de Varsóvia, em 1955. A ideia de coexistência pacífica com o Ocidente capitalista desagradava a Hodxa, que a considerava uma traição aos princípios socialistas.

Há, no entanto, razões económicas para a rutura. Tal como acontecera antes com a Jugoslávia, a URSS entendia que, sendo a Albânia um país rural e pobre, devia apostar no setor primário e fornecer aos restantes Estados do COMECON os produtos agrícolas de que estes necessitavam em troca de bens mais sofisticados, produzidos pelos mais industrializados daquele. Ora, isso ia contra os planos de industrialização que Hodxa tinha para o país.

Em 1960, após o cisma entre os comunistas soviéticos e chineses, o PPSH toma o partido de Pequim e, no ano seguinte, deixa de participar no Pacto de Varsóvia e no COMECON. A URSS é apresentada como “revisionista” e “traidora do comunismo”. Os elementos pró-soviéticos do partido tentam um golpe palaciano, mas são rapidamente neutralizados e executados. Moscovo retalia e corta o auxílio económico a Tirana.

A amizade com a China maoista

A partir de então, a Albânia passa a ficar dependente dos apoios do seu novo aliado asiático. Contudo, naquele tempo, a China, para além de extremamente distante, era um país pobre e pouco desenvolvido tecnologicamente, pelo que o seu auxílio nunca foi muito eficaz.

Daí que, apesar dos significativos avanços ocorridos nos setores da educação, da saúde e das infraestruturas (em especial, ferroviárias) desde o início do regime, a verdade é que o país continuava a ser o mais pobre da Europa. E, no início dos anos 60, a situação económica deteriorou-se, levando o governo a aplicar duras medidas de austeridade.

A Revolução Cultural chinesa é replicada por Hodxa, que reduz os salários altos e médios, acaba com as patentes militares, coletiviza o que restava das pequenas propriedades, ataca intelectuais e artistas, reforça o controlo partidário sobre toda a sociedade, isola cada vez mais o país e inicia um asfixiante culto da sua personalidade. A temida polícia política, a Segurimi, está cada vez mais presente na repressão de qualquer dissidência, real ou imaginária.

Um dos aspetos mais relevantes é a interdição dos cultos religiosos, declarando o país como “o primeiro Estado ateu do mundo”, com as mesquitas e igrejas a ser transformadas em espaços culturais, dedicados à propaganda do marxismo-leninismo. Tal como os “guardas vermelhos” de Mao, jovens estudantes são enviados para o campo para propagandear a doutrina partidária.

Em 1968, após a invasão da Checoslováquia pelo Pacto de Varsóvia, a Albânia abandona definitivamente a organização. Não que Hodxa tivesse qualquer simpatia pelos reformadores checos e eslovacos, mas considerou estar-se em presença de uma invasão imperialista dos “revisionistas soviéticos”.

A rutura com a China

Porém, a amizade com os chineses também não perdurou. A aproximação sino-americana é mal vista por Tirana, que rejeita a teoria dos “três mundos” (capitalista, revisionista e 3º mundo) elaborada por Pequim, com os EUA e a URSS a encabeçarem, respetivamente, o primeiro e o segundo e a China a ambicionar liderar o terceiro. Porém, dado o papel de Tito e da Jugoslávia no seio dos “não alinhados”, os dirigentes albaneses temiam uma aproximação dos chineses aos jugoslavos, que viria a tornar-se efetiva. As relações vão-se deteriorando e, em 1978, a China corta todo o auxílio económico à Albânia.

O isolamento internacional

Entretanto, em 1976, é aprovada uma nova Constituição, que muda a designação oficial do país para República Popular Socialista da Albânia e institucionaliza o ateísmo e a autarcia, proibindo a contração de empréstimos externos e os negócios com companhias de países capitalistas ou “revisionistas”.

Em 1976, é aprovada uma nova Constituição, que muda a designação oficial do país para República Popular Socialista da Albânia e institucionaliza o ateísmo e a autarcia, proibindo a contração de empréstimos externos e os negócios com companhias de países capitalistas ou “revisionistas”.

Contudo, o corte do apoio chinês leva ao agravamento das condições económicas do país, cujas infraestruturas eram muito débeis e que não tinha recursos suficientes para sustentar uma política de autossuficiência económica. Por isso, a economia albanesa quase paralisa, originando a carência frequente de bens essenciais. A Albânia retoma, então, alguns contactos com os países da Europa ocidental, em especial a Itália e a França, no sentido de desenvolver algumas relações comerciais com estes. Mais tarde, reconhece a Alemanha Federal e restabelece relações com a Jugoslávia e a Grécia.

Entretanto, a saúde de Hodxa deteriora-se e este vai preparando a sua sucessão. Tudo indicava que este nomearia o primeiro-ministro Mehmet Shehu, seu principal companheiro desde a fundação do partido e seu eterno delfim, como sucessor. Contudo, em 1980, informa que o escolhido é Ramiz Alia. O primeiro resiste, tenta que o Politburo reverta a decisão e acaba por desaparecer em finais do ano seguinte. Na versão oficial, “suicídio devido a depressões nervosas”; na realidade, execução sumária. Posteriormente, o próprio líder acusa-o de ser um espião, simultaneamente ao serviço dos EUA, Reino Unido, URSS e Jugoslávia e que, por esse motivo, fora “enterrado como um cão”.

A paranóia face a uma invasão estrangeira era tão grande que, entre os anos 60 e 80, foi construída uma enorme rede de “bunkers” (mais de 170 mil!...) abrangendo praticamente a totalidade do território nacional, embora com maior densidade nas zonas costeiras e fronteiriças.

É a ideia de preparação para uma futura guerra e a necessidade de possuir um grande exército que explica as políticas natalistas levadas a efeito pelos dirigentes albaneses. As mulheres são incentivadas a ter filhos e o aborto só era permitido quando estava em causa a vida da mãe. Nos anos 80, o país tinha as maiores taxas de natalidade da Europa.

Em 1985, Hodxa morre e Alia assume a liderança do partido e do país. Percebendo a gravidade da situação, ensaia tímidas reformas económicas, ao mesmo tempo que diminui a repressão, encorajando alguns debates, embora sob controlo do partido único. Simultaneamente, vai quebrando o isolamento internacional.

A abertura democrática e a transição para o capitalismo

Após a queda do muro de Berlim e do bloco soviético, em 1989, as pressões internas e externas para a mudança de regime acentuam-se. A execução sumária de Ceaucescu, na Roménia, deixa os dirigentes albaneses preocupados. Na primavera de 1990, há as primeiras manifestações de rua em Shköder, no Norte. No outono, estas estendem-se a Tirana, juntando estudantes e trabalhadores, e degeneram em violência. Sem outra alternativa, Alia declara o fim do monopólio político do PPSH e a realização de eleições constituintes no ano seguinte.

A execução sumária de Ceaucescu, na Roménia, deixa os dirigentes albaneses preocupados. Na primavera de 1990, há as primeiras manifestações de rua em Shköder, no Norte. No outono, estas estendem-se a Tirana, juntando estudantes e trabalhadores, e degeneram em violência.

As primeiras eleições livres realizam-se em março de 1991. O PPSH, beneficiando de ser a única força organizada e ainda detentora de grande parte do poder, vence e Alia é eleito presidente do país, o primeiro desde 1928. Contudo, uma greve geral leva à queda do governo e à instauração de um comité “de salvação nacional”, que acaba também por colapsar. Entretanto, são estabelecidas emendas constitucionais, que acomodam a transição para o regime democrático e para o capitalismo. Em junho, o PPSH muda a sua designação para Partido Socialista da Albânia (PSSH), embora só em 1996 abandone oficialmente o marxismo-leninismo e se transforme numa formação social-democrata.

A alternância rotativista e a instabilidade política da atualidade

Nas legislativas de 1992, o conservador Partido Democrático (PD), principal força política da oposição, vence e o seu líder, o cardiologista Sali Berisha, é eleito presidente, originando a formação do primeiro governo não comunista desde 1944.

O novo executivo levanta a proibição dos cultos religiosos e os locais de culto são devolvidos às diferentes confissões. A transição para o capitalismo, com a privatização de terras e fábricas e a atração de investidores estrangeiros, gera graves problemas sociais e o descontentamento alastra. Berisha inicia uma deriva autoritária, que leva à prisão e condenação de alguns dirigentes comunistas como Ramiz Alia, embora estes vejam as suas penas reduzidas em sede de recurso. O PD vence as eleições de 1996, mas há suspeitas de fraude.

Em 1997, o rebentamento de vários esquemas piramidais, onde o governo tinha incitado grande parte da população a investir as suas poupanças, leva a uma revolta popular e à queda de Berisha. Realizam-se novas eleições, que são ganhas pelo PS, que regressa ao poder.

No ano seguinte, é aprovada uma nova Constituição.

A partir daí, os dois partidos vão-se alternando na governação, mas a vida política mantem-se conturbada, com o que se encontra na oposição a acusar o que detém o poder de autoritarismo, quase sempre com certa razão. Ao mesmo tempo, a corrupção cresceu e tornou-se endémica. E, independentemente de quem governe, pouco ou nada muda, exceto o pessoal político.

Apesar de alguma modernização económica, da melhoria das infraestruturas e da crescente urbanização (em 2011, pela primeira vez, a população urbana ultrapassou a rural), o país continua pobre. Nos anos 90, a emigração, proibida nos tempos de Hodxa, foi enorme, mas abrandou um pouco no início do século. Itália, Alemanha, Suíça e EUA são os principais destinos.

A nível externo, o país apoia as minorias albanesas no exterior, em especial no Kosovo e na Macedónia do Norte. O seu território serviu de base aos guerrilheiros do UÇK, que combateram as forças sérvias no primeiro e de base aos bombardeamentos da NATO contra a Jugoslávia na guerra de 1999.

A Albânia tornou-se um dos maiores aliados dos EUA nos Balcãs e, em 2009, aderiu à NATO.

No mesmo ano, apresenta a candidatura à UE, mas esta só foi oficialmente aprovada em 2014. A débil situação económica do país, cujo PIB por habitante em paridade do poder de compra é menos de 1/3 da média da União (ou seja, 40% do português), e a corrupção que infeta, de alto a baixo, o aparelho de Estado constituem fortes obstáculos a esse desígnio.

Fonte: Wikipédia, em língua inglesa.

 

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Aderente do Bloco de Esquerda em Coimbra
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