A edição desta sexta-feira do semanário Expresso revela um detalhe que passou despercebido durante a apresentação do relatório preliminar do Gabinete de Prevenção de Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF). Neles se escreve que o cabo do elevador, que não estava certificado para ser usado no transporte de passageiros nem era indicado para ser instalado com destorcedores nas extremidades, só foi instalado no Elevador da Glória no final de 2022.
Segurança
Cabo não certificado e falsas tarefas de manutenção: o que diz o relatório ao acidente do Elevador da Glória
Mas na primeira nota informativa divulgada pelo GPIAAF logo após o acidente que vitimou 16 pessoas a 3 de setembro, esta entidade dizia que o cabo de tração estava a ser usado “há cerca de seis anos”. Ou seja, em 2019, quando Fernando Medina estava à frente da autarquia e tutelava a Carris. Questionado pelo Expresso sobre quem na Carris deu ao GPIAAF a informação errada em plena campanha para as eleições autárquicas, o Gabinete recusou-se a identificar a fonte, invocando a obrigação de sigilo. A administração da Carris, entretanto demissionária, reagiu à notícia do Expresso afirmando não ter sido ela a indicar aos investigadores a data de instalação do cabo. "Quem forma a vontade da Carris é o Conselho de Administração, a sua fonte oficial. Pelo que as afirmações proferidas por Trabalhadores ou Agentes da Carris, vinculam-nos individualmente, mas não à empresa", refere o comunicado. Em seguida a empresa respondeu que "ignora se alguém proferiu essa informação e em que circunstâncias o terá feito. Até porque, como afirmado no Comunicado, à data a Carris estava a apurar os factos".
Em setembro, Carlos Moedas invocou por várias vezes aquela informação errada para se eximir de responsabilidades políticas pelo acidente. “Eu só peço que não se retirem conclusões precipitadas, é verdade que há uma mudança de um tipo de cabo há seis anos, portanto, isso vai ter de ser investigado, [saber] porque é que isso aconteceu”, disse Carlos Moedas aos jornalistas no dia 12 de setembro.
“Os dados que me apresentam, os dados novos que ficamos a saber, têm a ver com uma mudança de um cabo há 6 anos e, portanto, isso mostra a importância da investigação”, insistiu o autarca, garantindo que “a administração da Carris está sempre disponível para responder, mas pode responder desde 2022, antes disso não é esta a administração. Mas, aqui o ponto é descobrir, é que as pessoas saibam o que aconteceu e eu levarei [isso] até às últimas consequências”, reiterou.
"Uma decisão tomada há 6 anos pode ter tido impacto, mas eu não quero especular”, dizia então Moedas. Poucos dias após ter sido reeleito, agora que foi conhecida a verdade sobre o cabo ter sido trocado durante o seu mandato, o autarca diz que o relatório mostra que a tragédia foi "derivada de causas técnicas e não políticas".
Noticia atualizada às 15h com as respostas da administração demissionária da Carris ao Expresso, em que diz ignorar quem terá prestado a informação errada aos investigadores