Alarme, injustiça climática e boas intenções. Como ler o último relatório do IPCC?

13 de março 2022 - 16:06

As previsões do painel intergovernamental de cientistas no recém-publicado relatório são ainda mais preocupantes do que as conclusões, e podem ser resumidas em poucas palavras: escalada das ameaças. Artigo de Daniel Tanuro.

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Ação da Extinction Rebellion em Berlim para chamar a atenção para as conclusões do relatório do IPCC. Foto Stefan Müller/Flickr

O relatório do Grupo de Trabalho II (GTII) do IPCC sobre Impactos das Alterações Climáticas e Adaptação lança um estridente alarme: a catástrofe é mais grave do que o previsto pelos modelos, os seus efeitos estão a manifestar-se mais rapidamente e todos os riscos estão a aumentar. Os pobres, os povos indígenas, as mulheres, as crianças e os idosos estão cada vez mais em risco, especialmente no Sul Global. As políticas que estão a ser seguidas para limitar os danos são inadequadas, são contrárias à sustentabilidade e aumentam as desigualdades sociais. Os autores apelam a uma abordagem inclusiva para transformar a sociedade a todos os níveis.

As conclusões

Os ecossistemas estão a ser alterados em todo o lado pelas alterações climáticas. Para alguns deles, os limites de adaptação foram ultrapassados (particularmente nas regiões polares e equatoriais) - e não serão capazes de se regenerar naturalmente. Alguns fenómenos extremos excedem as médias previstas para o final do século. As espécies já estão a desaparecer como resultado do aquecimento global.

As consequências humanas são preocupantes. Incêndios florestais e de turfeiras, a drenagem de zonas húmidas e a desflorestação estão a transformar alguns sumidouros de carbono em fontes (por exemplo, a floresta amazónica). A produtividade da agricultura, florestas e pescas está em declínio, ameaçando a segurança alimentar. O veredito dos cientistas é inequívoco: o sistema alimentar mundial não está a conseguir enfrentar o desafio da insegurança alimentar e da subnutrição de uma forma sustentável.

As questões relacionadas com a água são particularmente preocupantes. Enquanto metade da população mundial sofre de grave escassez de água durante pelo menos um mês por ano, 500 milhões de pessoas vivem em áreas onde a precipitação média está agora ao nível da precipitação que costumava ocorrer apenas de seis em seis anos. Os glaciares de montanha derretidos estão a causar inundações ou escassez a jusante, e as doenças transmitidas pela água estão a afetar ainda mais milhões de pessoas na Ásia, África e América Central.

Globalmente, as consequências do aquecimento global para a saúde são graves, e aumentam as desigualdades. Em países altamente vulneráveis ao aquecimento global (onde vivem 3,3 mil milhões de pessoas), a mortalidade devido a inundações, secas e tempestades é quinze vezes maior do que em qualquer outra parte da Terra. Algumas regiões do mundo estão a aproximar-se ou já estão a sofrer níveis de stress térmico que são incompatíveis com o trabalho. Vários fenómenos ligados ao aquecimento global (calor, frio, poeira, ozono troposférico, partículas finas, alergénios) promovem doenças respiratórias crónicas. A destruição dos habitats naturais e a migração das espécies encorajam as zoonoses[1].

As alterações climáticas tornaram-se um fator importante na migração e deslocação de populações humanas. Desde 2008, vinte milhões de pessoas têm sido obrigadas a deslocar-se todos os anos em resultado de eventos climáticos extremos (em particular tempestades e inundações). Estas tragédias humanas estão concentradas no Sul e Sudeste da Ásia, África subsaariana e pequenos Estados insulares. Outras populações não conseguem deixar áreas que se tornaram inóspitas, devido à falta de recursos ou outras razões.

As grandes concentrações urbanas no Sul Global estão particularmente expostas aos impactos combinados das alterações climáticas e aos determinantes sociais da vulnerabilidade. Isto é especialmente o caso em assentamentos informais - sem água ou esgotos, muitas vezes em encostas com tendência a deslizamento de terras - (onde as mulheres e as crianças são a maioria). Na África subsaariana, 60% da população urbana vive em extensões informais das cidades; 529 milhões de asiáticos vivem em condições precárias semelhantes.

As projeções

As projeções são ainda mais preocupantes do que as conclusões, e podem ser resumidas em poucas palavras: escalada das ameaças.

Segundo os autores, qualquer aquecimento adicional a curto prazo aumenta os riscos para os ecossistemas em todas as regiões. A percentagem projetada de espécies em alto risco de extinção a 1,5°C, 2°C e 3°C é de 9%, 10% e 12% respetivamente (NB: o intervalo de incerteza é grande, a realidade poderia ser pior), com um salto qualitativo entre +1°C e +3°C[2]. Os eventos climáticos extremos e outros fatores de stress irão aumentar em magnitude e frequência, acelerando a degradação dos ecossistemas e a perda de serviços ecossistémicos. A 4°C de aquecimento, por exemplo, a frequência dos incêndios aumentará de 50 a 70%. As alterações na estratificação das águas oceânicas reduzirão os fluxos de nutrientes. As mudanças temporais no desenvolvimento do fitoplâncton podem reduzir os recursos pesqueiros.

Qualquer aquecimento adicional aumentará também a pressão sobre o sistema alimentar e a segurança alimentar. Os impactos negativos do aquecimento tornar-se-ão predominantes para todos os sistemas alimentares e as desigualdades regionais na segurança alimentar aumentarão, de acordo com os investigadores. Dependendo do cenário, a biomassa oceânica global diminuirá de 5,7% a 15,5% em 2014 em comparação com 1990, e o número de pessoas subnutridas aumentará em dezenas de milhões até 2050.

A questão da água tornar-se-á premente em termos de sustentabilidade. Sob os cenários medianos, até 2100, 50% dos glaciares de alta montanha na Ásia irão desaparecer. A 1,6°C de aquecimento, o número de pessoas deslocadas pelas inundações em África aumentará 200% (e 600% a 2,6°C). A 2°C de aquecimento, as secas agrícolas extremas aumentarão 150-200% na bacia mediterrânica, na China Ocidental e nas altas latitudes da América do Norte e Eurásia. A 2,5°C, 55% a 68% das espécies de peixes de água doce comercialmente exploradas em África estarão em risco de extinção.

A subida do nível do mar tornar-se-á cada vez mais ameaçadora: os riscos nas regiões costeiras aumentarão particularmente para além de 2050 e continuarão a crescer posteriormente, mesmo que o aquecimento pare. O risco aumentará 20% para uma subida de 15cm, o dobro para uma subida de 75cm e o triplo para uma subida de 1,4 metros (NB: tal subida é provável neste século). A África está também em grande risco: 108 a 116 milhões de pessoas serão afetadas já em 2030, e até 245 milhões em 2060. Os países desenvolvidos não são imunes: o risco aumentará dez vezes na Europa até 2100, e ainda mais rapidamente e com políticas constantes.

As consequências para a saúde estão ao mesmo nível, e são exacerbadas pela "degradação e destruição dos sistemas de saúde". Um cenário de emissões elevadas aumentaria o número anual de mortes relacionadas com o clima em 9 milhões em 2100. Num cenário médio, este número aumentaria em 250.000/ano em 2050. As fileiras de vítimas de desnutrição vão aumentar, especialmente em África, Ásia do Sul e América Central. Em todos os cenários, partes do mundo que são hoje densamente povoadas tornar-se-ão inseguras ou inabitáveis.

Se as políticas de desigualdade continuarem, o número de pessoas que vivem em pobreza extrema aumentará de 700 milhões para mil milhões até 2030. Os autores referem-se aqui ao cruzamento de "pontos de rutura social".

Principais preocupações

Tal como em relatórios anteriores, o GTII discerne cinco "principais motivos de preocupação" (RFCs em ingês): ecossistemas únicos em risco, tais como recifes de coral e ambientes de montanha (RFC1); eventos climáticos extremos (RFC2); distribuição social dos impactos (RFC3); alguns efeitos globais agregados, tais como o número de mortes climáticas (RFC4); e eventos únicos em grande escala, tais como a desagregação das calotas polares (RFC5).

Para cada um destes RFC, os autores/as comparam o nível de risco atual com o nível de risco avaliado no seu relatório anterior (5º relatório de avaliação do IPCC, 2014). O nível de risco refere-se ao objetivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC) aprovado no Rio (1992): "evitar uma interferência antropogénica perigosa do sistema climático". A conclusão da comparação devia soar como uma campainha de alarme: o risco tornou-se alto a muito alto para os cinco RFC em todos os cenários (mesmo que o nível de aquecimento se mantenha baixo). Ficar abaixo de 1,5°C permitiria que o risco permanecesse 'moderado' para RFCs 3, 4 e 5, mas já é elevado para RFC2, e está a passar de elevado para muito elevado para RFC1.

É sabido que alguns cenários de mitigação de emissões assumem uma "ultrapassagem temporária" de 1,5°C, enquanto permanecem "bem abaixo dos 2°C" (Acordo de Paris). Isto implicaria riscos graves e impactos irreversíveis, dizem os investigadores. Além disso, aumentaria o risco de grandes quantidades de carbono armazenadas nos ecossistemas serem libertadas (em resultado de incêndios, derretimento do permafrost, etc.), o que aceleraria a catástrofe climática.

Limitações da adaptação, injustiça das políticas

Os governos afirmam estar a seguir uma política de adaptação à parte inevitável das alterações climáticas, tal como previsto em acordos internacionais. O relatório do GTII faz o seu balanço:

1/ Essa política é injusta e ineficaz, beneficiando mais as pessoas ricas do que as mais pobres;

2/ Em vez de complementar a necessária redução drástica e rápida das emissões de gases com efeito de estufa, ela tem funcionado como um substituto, de forma a que o aquecimento global se agrava, o que reduz as possibilidades de adaptação, em detrimento dos pobres;

3/ Estas margens de manobra são ainda mais reduzidas pela implementação de medidas para contornar a redução de emissões (por exemplo, captura e fixação de carbono, plantações de árvores, grandes barragens hidroeléctricas) em detrimento dos povos indígenas, dos pobres e das mulheres.

O relatório deixa claro que "as estratégias de desenvolvimento predominantes vão contra o desenvolvimento sustentável em termos climáticos". São apresentadas várias razões: desigualdade crescente de rendimentos, urbanização descontrolada, migração forçada e deslocação, emissões cada vez maiores de gases com efeito de estufa, alteração contínua do uso do solo, e a inversão da tendência a longo prazo para uma maior esperança de vida.

Segundo os autores, é crucial desenvolver uma política inclusiva, equitativa e justa, especialmente no que diz respeito aos povos indígenas cujos conhecimentos devem ser valorizados. O empoderamento das comunidades marginalizadas é crucial para a co-produção de uma política climática sustentável. A falta de justiça social dos governos é apontada como o maior obstáculo, especialmente face aos desafios da relação alimentação-energia-água.

A saúde, a educação e os serviços sociais básicos são vitais para aumentar o bem-estar das pessoas e a sustentabilidade do desenvolvimento, diz o relatório. É portanto prioritário aumentar os meios financeiros do Sul global, onde o custo de adaptação ao aquecimento global ultrapassará muito rapidamente os 100 mil milhões de dólares/ano que o Norte prometeu pagar (mas não pagou) ao Fundo Verde para o Clima. O relatório cita montantes de 127-290 mil milhões de dólares/ano em 2030-2050, podendo chegar a 1 bilião de dólares.

O relatório do GTII do IPCC não fornece, evidentemente, uma estratégia social para combater a catástrofe climática capitalista: o tom geral é de boas intenções e de votos piedosos sobre a inclusão de todos os atores sociais. Mas os ativistas dos movimentos sociais encontrarão duas coisas úteis à sua luta: uma confirmação científica da extrema gravidade dos impactos do aquecimento global, e uma demonstração rigorosa da injustiça sistémica das políticas climáticas.


Daniel Tanuro é engenheiro agrónomo e nasceu na Bélgica. Fundou a associação “Clima e Justiça Social”. Tem artigos escritos sobre questões ambientais em várias revistas e jornais. É também autor de vários livros, nomeadamente “O impossível capitalismo verde” que se encontra traduzido em português pelas edições Combate.

Artigo publicado a 1 de Março de 2022 na página da Gauche Anticapitaliste da Bélgica. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net

 
Notas:

[1] Uma zoonose é uma doença infeciosa que passou dos animais para os seres humanos.

[2] 9% de taxa de extinção é mais de mil vezes a taxa natural de extinção de espécies.