Afinal são os mais ricos que perdem com a crise? Economista arrasa conclusões do BdP

08 de maio 2020 - 20:12

Ao afirmar que a pandemia tem um impacto maior nas famílias com resdimentos do trabalho mais elevados, o recém-lançado Boletim Económico do Banco de Portugal "oferece uma visão distorcida da realidade", aponta a economista Susana Peralta.

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Entrada do Banco de Portugal, Almirante Reis. Fotografia por Nuno Morão/Flickr.

O boletim económico de maio do Banco de Portugal (BdP) conclui que os rendimentos dos mais ricos terão uma quebra percentual maior que o dos mais pobres. A economista Susana Peralta crítica estes resultados em artigo de opinião no Público, questionando se os trabalhadores que "ganham menos e têm vínculos mais precários (ou nenhuns) com as empresas estão afinal a atravessar esta crise confortavelmente". Muito provavelmente não, diz a autora.

Tanto nos EUA como no Reino Unido foram produzidos inquéritos aos rendimentos das famílias e os seus resultados publicados em revistas de especialidade, deixando bem claro que que mais sofre com a crise da pandemia são "são os trabalhadores com contratos de trabalho precários e rendimentos mais baixos". Mas, prossegue Susana Peralta, o BdP não fez isto. O que fez foi pegar noutro inquérito mais antigo, o Inquérito à Situação Financeira das Famílias (ISFF) de 2017 em que as famílias reportam a situação laboral e rendimentos de 2016, cruzando esta informação com o que sabemos actualmente por setor de atividade para analisar o efeito da crise atual. Porque é que usou dados de 2017? O relatório não explica esta opção, refere a economista e professora da Nova SBE.

A autora apresenta duas propostas alternativas a esta opção: o Inquérito às Condições de Vida e do Rendimento, inquérito anual e referente à situação de 2018 ou o Inquérito ao Emprego, de carácter trimestral. Com estes últimos, "o think tank Bruegel calculou a prevalência de contratos a termo em certos grupos da população para concluir que a crise covid-19 está a expor uma “desigualdade nua”", aponta.

Outro dos erros apontados é que o relatório assume que "todos os trabalhadores de cada sector de atividade têm a mesma probabilidade de ser atingidos" tanto com o encerramento como com a redução parcial da atividade das empresas para qual trabalham. E aqui há dois lapsos na análise, explica Susana Peralta; o primeiro ignora as empresas com maior probabilidade de serem afetadas pela crise, nomeadamente as que estão com "menor saúde financeira e comercial"; o segundo, que o lay-off e os despedimentos não "afetam toda a gente por igual; afetam de forma desproporcional quem ganha menos". E isto enviesa as conclusões deste relatório. Isto porque "trabalhar com base em médias num mercado de trabalho polarizado e numa economia onde as empresas têm capacidades de resistência à crise brutalmente diferentes não faz sentido nenhum", diz a autora.

A somar a tudo isto, como o relatório analisa a forma como são afetados os rendimentos provenientes do trabalho das famílias, conclui que as famílias que não têm rendimentos através do trabalho não são afetadas pela crise. Não esclarece como estão a ser considerados os rendimentos dos pequenos empresários em nome individual nem refere a realidade de famílias com rendimentos mais baixos e que têm fontes informais de rendimento, o que pode representar uma fatia importante dos seus rendimentos.

Para finalizar as críticas a este relatório, aquilo que a autora define como o "teste de algodão"; o quadro resumo das projeções numéricas indica que as famílias que estão entre as 20% mais pobres têm um rendimento médio de 407€ antes da crise e que após a crise este rendimento passa em média para 398€. Ou seja, com a crise as famílias mais pobres perdem em média apenas 9€ de rendimento - e isto não é compatível com as notícias de pessoas sem dinheiro para pagar as contas. "Todos os estudos económicos são baseados em hipóteses, umas mais razoáveis do que outras. Mas quando se chega a um valor destes num quadro final, normalmente quer dizer que as hipóteses são más e invalidam os resultados", diz.

Se, face aos dados disponíveis, não era possível fazer algo mais robusto e que representasse com mais rigor a realidade financeira das famílias em Portugal afetadas pela crise pandémica, porque é que o BdP não ficou quieto, pergunta a autora. É que com isso "ganhava o Banco de Portugal e ganhávamos todos nós".