30 anos de World Wide Web: sucesso fulgurante, efeitos perversos

12 de março 2019 - 14:15

A World Wide Wide surgiu há 30 anos. Numa carta aberta evocativa do aniversário, Tim Berners-Lee, o criador original, relembra a revolução que a Web representou mas também os efeitos perversos que está a gerar, defendendo a criação de um "contrato global para a Web".

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Primeiro website da história. Foto Coolcaesar/Wikimedia Commons.
O computador de Tim Berners-Lee onde funcionou o primeiro website da história (info.cern.ch). Foto Coolcaesar/Wikimedia Commons.

Há 30 anos, Tim Berners-Lee, um físico no Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), propôs aos seus superiores um sistema de gestão de informação entre os colegas do laboratório. A proposta original, de nome Mesh, foi considerada "interessante mas vaga". Um ano depois, Berners-Lee implementava o projeto sob um novo nome: World Wide Web. Começava uma revolução que dura até hoje.

A internet não começou com a World Wide Web: ela já nascera nos anos 70 como Arpanet, uma rede de comunicação militar, que se estendera nos anos 80 ao mundo académico rebatizada como internet. A inovação da World Wide Web foi tornar a internet acessível a leigos sem conhecimentos de informática ou ciências avançadas, adaptando-a para as interfaces gráficas que se estavam a impor à entrada dos anos 90 — janelas, rato, uma página com links. Desde então, a internet já passou por muitas transformações, mas estas tecnologias mantêm-se, e a rede ganhou uma centralidade na vida social apenas comparável a grandes revoluções comunicativas como a imprensa ou a televisão.

A cada aniversário do momento fundador, Berners-Lee tem escrito uma carta aberta onde tece considerações sobre o passado e o futuro da Web. Neste ano, a carta evocativa do 30º aniversário relembra o sucesso fulgurante da sua invenção: tornou-se uma "praça pública, biblioteca, consultório médico, loja, escola, estúdio de design, escritório, cinema, banco e muito mais", deu voz a grupos marginalizados e facilitou a vida quotidiana de milhões de pessoas. Mas a par destes sucessos, a web também "criou oportunidades para golpistas, dando voz àqueles que espalham o ódio e tornando mais fácil a perpetração de todos os tipos de crime".

Nesta tensão entre sucesso fulgurante e efeitos perversos, a carta identifica três grandes problemas que ameaçam a Web hoje: (1) comportamentos maliciosos deliberados, como ataques patrocinados por redes criminosas ou Estados e o assédio online; (2) sistemas de incentivos perversos, nomeadamente modelos de negócio baseados em receitas publicitárias que premeiam o clickbait e a disseminação viral de desinformação; e (3) as consequências involuntárias do design benevolente e aberto a todos da web, como a tendência para um discurso cada vez mais extremado e polarizado.

Para enfrentar estas ameaças, Berners-Lee considera necessárias tanto respostas técnicas como legais. Assim, propõe um "contrato global para a web" entre governos, empresas e cidadãos, que estabeleça normas e leis claras a nível global para garantir os direitos e liberdades das pessoas online, e a competitividade entre empresas. As tendências oligopolistas na internet (por exemplo, em torno de gigantes como a Google ou Facebook) são uma preocupação crescente, e nesse sentido a carta saúda também que trabalhadores do setor tecnológico tenham vindo a levantar a voz contra práticas abusivas, para que a "busca por lucros a curto prazo não aconteça à custa dos direitos humanos, da democracia, dos fatos científicos ou da segurança pública".

Em conclusão, para Berners-Lee uma Web livre e aberta, onde se promova conversas construtivas e saudáveis, é "uma das causas mais importantes do nosso tempo". Hoje em dia, "metade do mundo está on-line" e "é mais urgente do que nunca garantir que a outra metade não seja deixada para trás".