“As receitas do FMI não levam a lado nenhum”

24 de outubro 2010 - 0:16

Nesta entrevista ao Esquerda.net, António Chora, coordenador da CT da Autoeuropa, mostra como o pré-acordo obtido é justamente o inverso das medidas preconizadas pelo FMI. E explica a importância da adesão à greve geral. Por Luis Leiria.

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António Chora: "Temos de caminhar para uma greve geral europeia." Foto de RUI MINDERICO/LUSA

A Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa começou as negociações do novo acordo com a reivindicação de 3,8% de aumento. Acabou por obter 3,9%. Qual é o segredo?

Não há segredo nenhum. Nós reivindicávamos 3,8% a um ano, obtivemos 3,9% a dois. Quando começámos as negociações, a inflação estava muito baixa, mesmo negativa. Costumamos sempre abrir as negociações com uma reivindicação a um ano, mas com a evolução das negociações aceitámos fazer o acordo a dois. De qualquer forma, além do reajuste de salários há ainda um prémio de 400 euros para os trabalhadores com menos de 1 ano de antiguidade e 40% de um salário – num mínimo de 500 euros – para os restantes, o que significa mais 1,7% de aumento na massa salarial.

Que outros aspectos do pré-acordo destacaria mais?

A garantia de emprego. A certa altura das negociações, a administração chegou a retirá-la da mesa, mas, pela nossa pressão, voltou a pô-la. E há também o compromisso de conseguir mais fornecedores nacionais, para reduzir os gastos de logística. Actualmente, os custos de logística no preço final do carro são superiores aos custos salariais, e isso não faz sentido.

Houve também o compromisso de contratar os trabalhadores temporários, isto numa altura em que Portugal é recordista em precariedade...

Sim, esse aspecto é importante e é um compromisso que já vem do acordo anterior. São cerca de 600 temporários e 200 com contratos a prazo. O que queremos é que os que têm contratos a prazo entrem no quadro – e isso já está a acontecer – e os temporários que recebam contrato. A empresa comprometeu-se a fazê-lo com todos os temporários que têm um ano, e está a cumprir.

Nós não queremos que exista na Autoeuropa o estilo português do trabalhador que fica um ano a trabalhar numa empresa precário, depois é mandado embora por três meses, e depois volta por mais um ano... Isso é péssimo para a motivação do trabalhador e para a qualidade do trabalho. Costumo dizer que o trabalhador temporário tem as mãos no trabalho e a cabeça no outro.

Esse acordo foi conseguido numa altura em que um representante do FMI preconizava para Portugal mais flexibilidade no trabalho para forçar os salários para baixo e aumentar a produtividade...

É precisamente o contrário. A principal ferramenta para a produtividade são salários aceitáveis e garantia de emprego – é isso que garante a estabilidade emocional do trabalhador.

As receitas do FMI são as receitas do trabalho desqualificado, do PTO (pau para toda a obra). Não vão a lado nenhum.

Na Autoeuropa a produtividade é boa, e pode melhorar ainda mais se conseguirmos o 4º modelo para ser produzido em Palmela. Infelizmente, somos uma das poucas fábricas do grupo que pára a produção sete horas por dia. Produzimos 500 automóveis diários e temos capacidade de produzir 800. Claro que teríamos de contratar mais trabalhadores. Hoje somos cerca de 3.030 no quadro e no total, com os temporários, cerca de 3.600.

Apesar de o pré-acordo parecer muito satisfatório e de haver a expectativa de ele ser aprovado pelos trabalhadores no dia 4, mantêm a convocatória da greve geral. Porquê?

Já tivemos o cuidado de avisar a administração. A greve geral não é contra empresa, é uma questão política. Porque os trabalhadores da Autoeuropa também vão sofrer os cortes do abono de família, vão pagar mais IRS, vão pagar mais IVA. Por isso, estamos a fazer uma grande campanha de consciencialização sobre a necessidade de aderir à greve geral, que ainda para mais é das duas centrais, o que é importante, para não haver divisões na empresa.

Já tivemos duas reuniões de preparação com as coordenadoras das organizações representativas dos trabalhadores das empresas do parque industrial e representantes da UGT e da CGTP, e vamos fazer mais. Vamos preparar a greve, os piquetes de informação, fazer todo o esclarecimento em relação à importância da greve.

E quando nos perguntam: “E depois da greve?”, respondemos que a luta vai ter de continuar em termos europeus. É a União Europeia que nos empurra para os agiotas e usurários internacionais, é ela que está a levar os países à ruína. Temos de caminhar para uma greve geral europeia.