O escritor foi alvo de um processo por parte do presidente do Senado italiano, que lhe exige o pagamento de 1,3 milhões de euros por causa de um artigo de opinião.
No artigo publicado em Maio de 2008 no Unitá, Antonio Tabucchi mencionava os laços mafiosos de Renato Schifani, o advogado italiano que é um dos principais suportes políticos de Berlusconi. Repetia as informações que já eram conhecidas do público, precisando que o presidente do Senado italiano tinha sido absolvido apesar das suspeitas.
Apesar destes cuidados, Schifani não hesitou em processar o escritor e o montante astronómico da indemnização pedida fez de novo soar os alarmes da defesa da liberdade de imprensa.
Nesse sentido, um conjunto de intelectuais lançou um apelo em forma de petição a favor de Antonio Tabucchi. Entre os primeiros subscritores encontram-se os cineastas Theo Angelopoulos, Costa-Gravas, os escritores Philip Roth, Jorge Semprun e Fernando Savater. Na origem deste apelo estão também dois portugueses, António Lobo Antunes e Mário Soares.
Para Antonio Tabucchi
As democracias livres precisam de indivíduos livres. De indivíduos indisciplinados, corajosos, criativos. Que ousem, que provoquem, que desassosseguem. É assim para os escritores cuja liberdade da ‘pluma’ é indissociável da própria ideia de democracia. Desde Voltaire e Vítor Hugo a Camus e Sartre, passando por Zola e Mauriac, a França e as suas liberdades sabem aquilo que devem ao livre exercício do seu direito de ver e de dever de alertar para a opacidade, das mentiras e das imposturas dos poderes. E a Europa Democrática, desde que foi construída, não parou de se confrontar com esta liberdade dos escritores contra abusos de poder e razões estatais.
E não é que na Itália, essa liberdade foi agora posta em causa através de um ataque desmedido dirigido a Antonio Tabucchi. O presidente do senado italiano, Renato Schifani, pediu-lhe em tribunal a soma exorbitante de 1350 mil euros devido a um artigo publicado no «Unita» – jornal que, no entanto, não é perseguido. O crime de Tabucchi foi interpelado Schifani, personagem central do poder berlusconiano, sobre o seu passado, as suas relações negociais e andanças duvidosas – questões sobre as quais se recusa a comentar. Interrogar o itinerário, a carreira e a biografia de um alto responsável público faz parte da necessidade e das legítimas curiosidades da vida democrática.
A escolha particular deste alvo – um escritor que não renuncia a exercer a sua liberdade – e pela soma reclamada – um montante astronómico para um caso de imprensa –, o objectivo é intimidar uma consciência crítica e, com isto, calar várias vozes. Das recentes perseguições contra a imprensa opositora a este processo dirigido a um escritor europeu, não podemos ficar indiferentes e passivos perante tal ofensa do poder italiano contra a liberdade de julgar, criticar e interpelar. É por isso que manifestamos a nossa solidariedade com Antonio Tabucchi e apelamos para que mais se juntem, assinando massivamente esta petição.
(Texto do Apelo disponível em Ciência Hoje )