Palestina: Lágrimas de crocodilo

24 de junho 2007 - 14:11
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hamas_2O momento escolhido pelo Hamas para ocupar pela força a Faixa não foi acidental. Os líderes do Hamas decidiram que não tinham alternativa senão destruir as organizações que têm ligações à Fatah e que recebem ordens de Mahmoud Abbas. Os EUA ordenaram a Israel que fornecesse a estas organizações quantidades generosas de armas, para que pudessem combater o Hamas. Aos olhos desta organização, o ataque aos fortes da Fatah na Faixa de Gaza foi uma guerra preventiva. As organizações de Abbas e Dahlan derreteram como neve sob o sol palestiniano. O Hamas tomou, facilmente, a Faixa de Gaza.

Leia esta penetrante análise da actual situação da Palestina de Uri Avnery, figura decisiva do movimento pacifista e da esquerda israelita.

Palestina: Lágrimas de crocodilo

por: Uri Avnery

O QUE ACONTECE quando um milhão e meio de seres humanos são encarcerados num minúsculo território árido, sem contacto com os seus compatriotas e com o resto do mundo, privados de comida por um bloqueio económico e incapazes de alimentar as suas famílias?

Há alguns meses, descrevi esta situação como uma experiência sociológica levada a cabo por Israel, pelos Estados Unidos e pela União Europeia. A população da Faixa de Gaza como cobaias.

Nesta semana, a experiência mostrou resultados. Provou-se que os seres humanos reagem exactamente como os outro animais: quando demasiados estão amontoados numa área pequena e em condições miseráveis, tornam-se agressivos, e mesmo assassinos. Os organizadores da experiência em Jerusalém, Washington, Berlim, Otava e outras capitais puderam esfregar as mãos de satisfação. O grupo experimental reagiu como previsto. Muitos até morreram no interesse da ciência.

Mas a experiência ainda não acabou. Os cientistas querem saber o que vai acontecer se o bloqueio for ainda mais apertado.

 

O QUE CAUSOU a recente explosão na Faixa de Gaza?

O momento escolhido pelo Hamas para ocupar pela força a Faixa não foi acidental. O Hamas tinha muito boas razões para o evitar. A organização não consegue alimentar a população. Não tem interesse em provocar o regime egípcio, que está ocupado a combater a Irmandade Islâmica, a organização-mãe do Hamas. Para além disso, a organização não tem interesse em oferecer a Israel um pretexto para tornar mais duro o bloqueio.

Mas os líderes do Hamas decidiram que não tinham alternativa senão destruir as organizações que têm ligações à Fatah e que recebem ordens de Mahmoud Abbas. Os EUA ordenaram a Israel que fornecesse a estas organizações quantidades generosas de armas, para que pudessem combater o Hamas. Os chefes do exército israelita não gostaram da ideia, por medo que as armas acabassem nas mãos do Hamas (o que de facto acontece agora), mas o nosso governo [israelita] obedeceu às ordens americanas, como de costume.

O objectivo dos EUA é claro. O presidente Bush escolheu um líder para cada país muçulmano, para o governar sob protecção americana e obedecer às ordens americanas. No Iraque, no Líbano, no Afeganistão, e também na Palestina.

O Hamas acredita que o homem marcado para ocupar o cargo é Mohammed Dahlan. Há anos que ele parece estar a ser criado para esta posição. Os meios de comunicação americanos e israelitas não lhe têm poupado elogios, descrevendo-o como um líder forte e determinado, "moderado" (isto é, obediente às ordens dos EUA) e "pragmático" (isto é, obediente às ordens de Israel). E quanto mais americanos e israelitas cantam louvores a Dahlan, mais fragilizam a sua posição entre os palestinianos. Em especial quando Dahlan estava no Cairo, como se à espera que os seus homens recebessem as armas prometidas.

Aos olhos do Hamas, o ataque aos fortes da Fatah na Faixa de Gaza foi uma guerra preventiva. As organizações de Abbas e Dahlan derreteram como neve sob o sol palestiniano. O Hamas tomou, facilmente, a Faixa de Gaza.

Como puderam os generais americanos e israelitas falhar tão redondamente as suas previsões? Só conseguem pensar em termos estritamente militares: não-sei-quantos soldados, não-sei-quantas metralhadoras. Mas, particularmente em conflitos internos, os cálculos quantitativos são secundários. O moral dos combatentes e o sentimento público são muito mais importantes. Os membros das organizações da Fatah não sabem pelo que lutam. A população de Gaza apoia o Hamas, porque acredita que isto é lutar contra o ocupante israelita. Os seus adversários parecem colaboradores da ocupação. As declarações americanas acerca da sua intenção de armar estas organizações com armas israelitas acabaram por condená-las.

Esta não é uma questão de fundamentalismo islâmico. Neste ponto todas as nações são iguais: detestam colaboradores de um ocupantes estrangeiro, quer sejam norueguesas (Quisling), francesas (Pétain) ou palestinianas.

 

EM WASHIGTON e Jerusalém, os políticos amaldiçoam a "fraqueza de Mahmoud Abbas".

Vêem agora que a única pessoa que podia impedir a anarquia na Faixa de Gaza e na Cisjordânia era Yasser Arafat. Ele tinha uma autoridade natural. As massas adoravam-no. Mesmo os seus adversários, como o Hamas, respeitavam-no. Criou vários órgãos de segurança que competiam entre si, como forma de evitar que um só órgão pudesse organizar um golpe de Estado. Arafat era capaz de negociar, de assinar um tratado de paz e de conseguir que a sua gente o aceitasse.

Mas Arafat foi caricaturado por Israel como um monstro, preso na Mukata'ah e, no fim, assassinado. O povo palestiniano elegeu Mahmoud Abbas como seu sucessor, esperando que este conseguisse dos EUA e de Israel aquilo que se tinham recusado a dar a Arafat.

Se os líderes em Washington e Jerusalém tivessem estado realmente interessados na paz, teriam rapidamente assinado um acordo de paz com Abbas, que tinha declarado estar preparado para aceitar o mesmo compromisso a longo prazo que Arafat. Os americanos e israelitas levaram-no com elogios convincentes e repeliram-no em todas as questões concretas.

Não permitiram a Abbas sequer o resultado mais ténue e miserável. Ariel Sharon depenou-o e depois gozou-o: "galinha depenada". Depois de terem pacientemente esperado, em vão, que Bush se mexesse, o povo palestiniano votou no Hamas, na esperança desesperada de conseguir pela violência o que Abbas não conseguira obter pela diplomacia.

Os líderes israelitas, tanto militares como políticos, rebentavam de alegria. Estavam interessados em minar o estatuto de Abbas, porque gozava da confiança de Bush e porque a sua posição aberta tornava mais difícil recusar negociações substanciais. Fizeram tudo para demolir a Fatah. Para o assegurar, prenderam Marwan Barghouti, a única pessoa capaz de manter a coesão da Fatah.

A vitória do Hamas servia os seus propósitos perfeitamente. Com o Hamas não tem de se falar, de se oferecer a retirada dos territórios ocupados e o desmantelamento de colunatos. O Hamas é aquela besta contemporânea, uma organização "terrorista", e com terroristas nada se discute.

 

ENTÃO PORQUE não estavam satisfeitas, esta semana,

as pessoas em Jerusalém? E porque decidiram "não interferir"?

É verdade que os média e os políticos, que ajudam há anos a incitar as organizações palestinianas a lançarem-se umas contra outras, mostraram a sua satisfação e disseram "bem vos disse". Olhem como os árabes se matam uns aos outros. Ehud Barak tinha razão, quando disse há anos que o nosso país é "uma mansão no meio da selva".

Mas, nos bastidores, ouviam-se vozes de embaraço, mesmo de ansiedade.

A transformação da Faixa de Gaza em Hamastão criou uma situação para a qual os nossos líderes não estavam preparados. O que fazer agora? Cortar completamente com Gaza e deixar as pessoas de lá morrer à fome? Estabelecer contactos com o Hamas? Ocupar Gaza novamente, agora que se tornou uma gigantesca armadilha anti-tanques? Pedir às Nações Unidas o envio de tropas internacionais para ali - e, se sim, quantos países seriam suficientemente loucos para arriscar os seus soldados neste inferno?

O nosso governo trabalhou durante anos para destruir a Fatah, para evitar a necessidade de ter de negociar um acordo que levaria inevitavelmente à retirada dos territórios ocupados e dos colunatos. Agora que este objectivo foi cumprido, não fazem qualquer ideia do que fazer em relação à vitória do Hamas.

Para se sentirem melhor, pensam que isto não pode acontecer na Cisjordânia. Lá, a Fatah domina. Lá, o Hamas não tem apoio. Lá, o nosso exército já prendeu a maior parte dos dirigentes políticos do Hamas. Lá, Abbas ainda tem poder.

Assim falam os generais, com a lógica dos generais. Mas também na Cisjordânia, o Hamas ganhou a maioria nas últimas eleições. Também lá, é só uma questão de tempo até que a população perca a paciência. Vêem a expansão dos colunatos, o Muro, as incursões do nosso exército, os assassínios de alvos específicos, as prisões nocturnas. Vão explodir.

Sucessivos governos israelitas destruíram sistematicamente a Fatah, cortaram as pernas de Abbas e prepararam o caminho para o Hamas. Não podem fingir estar surpreendidos.

 

O QUE FAZER? Continuar a boicotar Abbas ou fornecer-lhe armas, para lhe permitir lutar por nós contra o Hamas? Continuar a privá-lo de qualquer feito político ou dar-lhe finalmente algumas migalhas? E, de qualquer modo, não é demasiado tarde?

(E na frente síria: continuar a bajular enquanto se sabotam todos os esforços de Bashar Assad para começar negociações? Negociar secretamente, apesar das objecções americanas? Ou continuar não fazendo absolutamente nada?)

Neste momento, não há política, nem um governo que possa determinar a política.

Então quem nos vai salvar? Ehud Barak?

A vitória de Barak, esta semana, nas primárias para o Partido Trabalhista, transformou-o quase automaticamente no próximo Ministro da Defesa. O seu carácter forte e a sua experiência como Chefe de Estado-Maior e Primeiro Ministro asseguram-lhe uma posição dominante no governo reestruturado. Olmert lidará na área em que é mestre indisputado - as maquinações partidárias. Mas Barak terá uma influência decisiva na política.

No governo dos dois Ehuds, Ehud Barak decidirá nas questões de guerra e paz.

Até agora, praticamente todas as suas acções tiveram resultados negativos. Ficou muito perto de estabelecer um acordo com Assad, o pai, mas escapou no último momento. Retirou o exército israelita do Sul do Líbano, mas sem falar com o Hezbollah, que se apoderou do território. Pressionou para que Arafat fosse a Camp David, depois insultou-o lá e declarou que não temos parceiro para a paz. Is to foi o golpe de misericórdia para as esperanças de paz, um golpe que ainda paralisa o público israelita. Ele gabou-se que a sua verdadeira intenção era "desmascarar" Arafat. Foi mais um Napoleão falhado que um De Gaulle israelita.

Será que o etíope vai mudar de pele, o leopardo de pintas?

 

NOS DRAMAS de William Shakespeare, há frequentemente um interlúdio cómico em momentos tensos. E não só aí.

Shimon Peres, pessoa que nunca em 55 anos de actividade política tinha ganho uma eleição, conseguiu o impossível esta semana: foi eleito presidente de Israel.

Há muitos anos, intitulei um artigo sobre ele "Sr. Sísifo", porque uma e outra vez quase atingiu a barreira do sucesso, e o sucesso fugiu-lhe. Agora deve sentir-se no cimo da montanha, a olhar de baixo mesmo para os deuses, mas - infelizmente! sem o poder. O cargo de presidente é vazio de conteúdo e jurisdição. Um político oco num cargo oco.

Agora toda a gente espera uma súbita agitação no palácio presidencial. Com certeza vai haver conferências sobre a paz, encontros de personalidades, declarações sonantes e planos brilhantes. Em suma - muito barulho por nada.

O resultado prático é que a posição de Olmert é reforçada. Conseguiu instalar Peres no gabinete de Presidente e Barak no Ministério da Defesa. A curto prazo, a posição de Olmert está segura.

E, entretanto, a experiência em Gaza continua, o Hamas domina o território e o trio - Ehud1, Ehud2 e Shimon Peres choram lágrimas de crocodilo.

16 de Junho de 2007