Na próxima semana, a CIA vai desclassificar os documentos das décadas de 50, 60 e 70 que são conhecidos como as "jóias da família" da agência de espionagem norte-americana. Trata-se do relatório que lista as operações ilegais da CIA até aos anos 70, incluindo a vigilância e infiltração do movimento contra a guerra do Vietname. A divulgação ocorre no momento em que o vice-presidente Cheeney é acusado de recusar a fiscalização do uso da informação classificada no seu gabinete, e de procurar abolir o organismo que inspecciona a segurança dessa informação. Os dados que serão agora revelados darão a conhecer o lado obscuro da espionagem e contra-espionagem dos EUA e que fazem parte da história da CIA, apesar de até hoje todos os pedidos para aceder a essa documentação terem sido recusados, pelo que a expectativa entre jornalistas e historiadores tem crescido nos últimos tempos.
Os planos para assassinar Fidel Castro, que Kissinger atribui a Robert Kennedy enquanto foi procurador-geral entre 1961 e 1964, são apenas um dos assuntos que este relatório pode trazer à tona. Ele resulta do pedido feito em 1973 pelo então director da CIA James Schlesinger, para que lhe trouxessem informação sobre as operações que saíam fora da alçada legal. A razão foi o alarme provocado na altura pelos jornais, que falavam do envolvimento da CIA no escândalo Watergate. Os serviços recolheram o histórico de operações ilegais desde os anos 50, mas foi preciso esperar um ano (e uma reportagem de Seymour Hersh no New York Times sobre a infiltração do movimento anti-guerra) para o relatório chegar à Casa Branca.
Os "esqueletos no armário" da CIA incluem a violação de correspondência com destino à China e à União Soviética, passando pelas cartas recebidas pela actriz e activista Jane Fonda, pela criação de uma base de dados com dez mil nomes de membros de organizações militantes, e a vigilância permanente a jornalistas para identificar as suas fontes. Outros documentos falam da realização de testes de resistência a drogas, raptos de supostos agentes soviéticos e buscas ilegais a membros da própria CIA.
A notícia surge numa altura em que a vice-presidência tem estado debaixo do escrutínio da justiça pelo uso que dá à informação classificada. Lewis Libby, ex-chefe de gabinete de Dick Cheney, foi condenado este mês a dois anos e meio de prisão por ter mentido sob juramento em tribunal, no caso em que o círculo próximo de Bush resolveu, através de Libby, dar a alguns jornalistas a identidade de uma agente da CIA, casada com um diplomata crítico das manobras da Casa Branca para ligar Saddam Hussein a armas nucleares. No ano passado, outro membro do gabinete da vice-presidência, Leandro Aragoncillo, declarou-se culpado em tribunal por ter passado informação secreta para elementos que planeavam o derrube do presidente das Filipinas.
A forma como Cheney lida com o segredo tem marcado a administração Bush, como no caso em que levou com sucesso até ao Supremo Tribunal a intenção de manter anónimas as identidades dos conselheiros que fizeram parte da task force para definir a política energética dos EUA. Desde 2003, Dick Cheney tem-se recusado a fornecer informações sobre os documentos classificados e desclassificados e a forma como a segurança destes é assegurada.