No primeiro dia da cimeira europeia, que junta em Bruxelas os chefes de Estado ou de governo dos 27 países da União, foi dedicado à reforma institucional, pouco se avançou para alcançar um acordo sobre o Tratado com que Barroso e Merkel pretendem substituir a Constituição Europeia chumbada em referendos na França e Holanda. Hoje começam as reuniões bilaterais, com a chanceler alemã a tentar convencer os governos mais reticentes a cederem nas suas posições. O acordo dos 27 é um cenário considerado difícil pela imprensa europeia, ante o pessimismo demonstrado por alguns dos presentes no arranque da cimeira. A Polónia e Inglaterra são os países a colocar os maiores obstáculos à aprovação do Tratado. O presidente Lech Kaczynski não está de acordo com o sistema de votação proposto para assegurar maiorias qualificadas (passariam a bastar 55% dos Estados e 65% da população), por penalizar o seu país e beneficiar os alemães, a quem a propaganda interna dos gémeos Kaczynski no poder em Varsóvia classifica de inimigo principal dentro da UE. Por sua vez, Tony Blair rejeita a figura dum ministro dos negócios estrangeiros que fale pela política externa dos 27 países e quer a manutenção do direito de veto em áreas como a justiça, imigração, administração interna e relações externas. Também o carácter vinculativo da Carta dos Direitos Fundamentais não agrada a Tony Blair, que faz em Bruxelas a sua despedida destas cimeiras.
O tradicional jantar que marca o dia do arranque destas cimeiras apenas serviu para constatar as dificuldades em avançar para o Tratado. Já depois da meia noite de hoje, Merkel reuniu com o presidente polaco, acompanhados de Sarkozy e do chefe do Estado lituano Valdas Adamkus, para tentar avaliar a possibilidade de recuo na posição de Varsóvia, o que não veio a acontecer. Por isso as atenções vão estar hoje voltadas para a nova ronda negocial entre Kaczynski e Merkel.
A tarefa de convencer os ingleses a flexibilizar a sua posição foi ontem assumida por espanhóis, italianos e franceses. A hipótese de dar à Inglaterra o privilégio exclusivo de ratificar o Tratado sem a menção à Carta dos Direitos Fundamentais pode ser a solução de compromisso a adoptar. Quanto ao porta-voz da política externa, pode não se chamar ministro dos negócios estrangeiros, mas o cargo será criado e não existirão recuos sobre isso na cimeira.
Os líderes dos governos e Estados continuavam apreensivos no final da noite, com as opiniões a dividirem-se entre os muito pessimistas e os que conseguiram ver uma vontade de chegar a acordo. Se tal acontecer, caberá à presidência portuguesa a conclusão do processo de elaboração do documento a que muitos chamam "mini-tratado", um processo que tem sido alvo de muitas críticas, nomeadamente a de se destinar a contornar a dificuldade de conseguir a adesão das populações em referendo.