Eis como funciona a democracia neste mundo de Alice no País das Maravilhas da política palestiniana, sob a tutela da comunidades internacional e dos EUA. Depois de anos a ser intimados a realizar eleições e a adoptar normas democráticas, há um ano e meio os palestinianos elegeram o Hamas com 44% dos votos, à frente da Fatah com 41%.Foi uma eleição correcta, como observou na altura o ex-presidente americano Jimmy Carter, uma expressão livre, justa e precisa dos desejos de um povo palestiniano cansado da inutilidade, da corrupção e do gangsterismo da Fatah. O problema é que esta decisão não reflectia os desejos de Washington e da comunidade internacional.
Opinião de Peter Beaumont, editor de internacional do The Observer 17/6/2007
E apesar de não se poder negar que o Hamas, que nega a existência de Israel e apoiou atentados bombistas suicidas é uma organização ameaçadora, não houve qualquer tentativa de ajuste de contas, semelhante ao que a Fatah, cujos militantes perpetraram pilhas de atentados, fez durante anos.
Agora, depois de meses de embargo financeiro ao governo dirigido pelo Hamas, decretado pelos governos americano e europeus, depois do financiamento e incentivo ao presidente Mahmoud Abbas, da Fatah, depois do lento e esmagador aperto da sociedade palestiniana que acelerou a sua desintegração social, o que se obteve? Virtual guerra civil em Gaza, a polarização da sociedade palestiniana, um governo dissolvido por decreto, e um novo primeiro-ministro, Salam Fayyad, nomeado com a bênção explícita dos EUA.
Recordemos as credenciais democráticas de Fayyad, um inteligente e eficiente economista, geralmente considerado como intocado pela corrupção. Noutras circunstâncias, poderia ser ideal. Mas nas eleições do ano passado para a Concelho Legislativo Palestiniano - a eleição que o Hamas ganhou - a lista de Fayyad obteve apenas 2,4% dos votos. Não se trata, por isso de uma pessoa exactamente muito popular para dirigir uma sociedade em colapso. E este não é o seu único problema. Analistas da cena política palestiniana não consideram que a falta de credenciais democráticas de Fayyad derive apenas do seu fraco resultado eleitoral.
Dizem que ele é muito pouco conhecido da maioria dos palestinianos; que ele não tem máquina partidária que o apoie; e que a sua parceira de lista Hanan Ashrawi é impopular para muitos palestinianos.
A realidade é que os únicos que estão realmente por trás de Salam Fayyad são os diplomatas europeus e americanos, que desde há muito, nos bastidores, o exaltam diante de qualquer jornalista que os queira ouvir. Assim, ontem, o presidente Bush e os outros membros do Quarteto [ONU, UE e Rusia] tiveram o que queriam. Abbas reuniu-se respeitosamente com o cônsul-geral dos EUA em Jerusalém, levando a reboque Mohammed Dahlan, o homem amplamente apontado como sendo o responsável pelo início do ciclo de violência em Gaza. Quando saíram da reunião, o boicote dos dinheiros dos EUA ao governo palestiniano tinha sido levantado.
É difícil não ser cínico. A sociedade palestiniana foi espremida até doer - punida como um todo por ter votado no partido errado. E quando, na semana passada, ocorreu a inevitável explosão, Abbas finalmente despediu o Hamas, tal como os EUA o vinham incentivado a fazer nos seus meses de estremecimento.
Qual foi então o verdadeiro golpe? O ataque sangrento do Hamas aos violentos gângsters aliados da Fatah que aterrorizaram Gaza durante um ano? Ou as medidas inconstitucionais de Abbas com o apoio americano?
De uma forma ou de outra, mais uma vez quem vai sofrer vai ser o povo palestiniano.