Gaza é um lugar de cativeiro. Mesmo assim, quando nesta semana explodiram os violentos confrontos de rua entre a Fatah e o Hamas, a minha mulher e eu quisemos desafiá-los. Não queríamos ser outra vez mantidos reféns em casa, o que acontece sempre que estes chamados titãs começam a lutar. Por isso fomos visitar amigos.
Pouco depois de atravessar um cruzamento no caminho de volta, houve uma explosão ensurdecedora seguida pelo crepitar de armas ligeiras. Não ousando olhar para trás, lancei-me ao solo. Quando olhei, pude ver uma minivan que tinha explodido com o que soube mais tarde ser um rocket.
Por Sami Abdel-Shafi na Cidade de Gaza
Publicado originalmente no The Independent de 15/6/2007
Durante quatro dias, a Faixa de Gaza testemunhou actos de chocante carnificina e brutalidade. Cerca de 30 mortos e centenas de feridos. Estes vergonhosos eventos, a quase total ruptura da liderança e do governo palestinianos que agora vemos, não saíram do nada. Durante este tempo, o governo de Israel evitou envolver-se com a renovada iniciativa de paz árabe e palestiniana do início deste ano. O governo de unidade palestiniana foi mantido em estado de falência, porque Israel está a sequestrar centenas de milhões de dólares em impostos palestinianos e taxas de alfândega.
A Faixa de Gaza é, já há muito tempo, uma prisão virtual onde o movimento de bens e de pessoas que entram e saem é insuportavelmente difícil. O que é pouco conhecido é quão desastroso é o cerco imposto aos 1,4 milhão de habitantes por ar, terra e mar, quando se somam as suas consequências ao esmagador sentimento de incerteza sobre o futuro que todos nós sentimos. Sentimo-nos isolados, escondidos no fim do mundo.
As iniciativas de paz não foram a lugar algum, o novo governo, com um programa de paz, foi incapacitado, e as agonias da vida diária tornaram-se mais duras com a falta de assistência médica, de serviços municipais e de qualquer semelhança a uma vida civil normal.
Hoje é claro que a luta faccional em Gaza não vai trazer qualquer benefício a não ser a Israel. Israel não só vai dizer que tem um parceiro fraco, ou mesmo nenhum, para fazer a paz, mas ganha também mais margem de manobra para ampliar a sua política militar contra os palestinianos, na Faixa de Gaza em particular, argumentando que agora não tem qualquer interlocutor em funções.
O sofrimento dos civis só pode ficar pior aqui em Gaza. Não deixámos de ter esperança numa eventual saída de paz, mas, para já, o que sentimos é que Gaza está à beira do abismo.
Sami Abdel-Shafi é sócio do Emerge Consulting Group, da Cidade de Gaza