Entrevista: “O sonho imperial americano está em crise”

14 de junho 2007 - 16:23
PARTILHAR

chesnaisFrançois Chesnais é professor da Universidade de Paris XIII, editor da revista Carré Rouge e autor de diversos livros e artigos. Nesta entrevista à revista brasileira Debate Socialista, Chesnais fala da situação do capitalismo hoje, do seu funcionamento, dos processos que provocaram um deslocamento de ramos da economia norte-americana para a Ásia, especialmente para a China, e aborda ainda as consequências geopolíticas desse novo momento do capitalismo imperialista.

Entrevista conduzida por Fernando Silva e Rosa Marques, para a revista Debate Socialista.

Do ponto de vista da situação mundial, como é o funcionamento do capitalismo contemporâneo?

Na segunda metade dos anos 90 do século passado ocorreram a crise asiática em 1997 e o crash da Nasdaq em 2000. Esses dois momentos expressaram o amadurecimento de processos que conduziram a uma nova configuração da economia capitalista mundial e das relações dentro do domínio imperialista, este entendido mais como uma forma determinada de domínio do capital do que o domínio de tal ou qual país propriamente dito, embora isso também seja importantíssimo.

 

Que processos foram esses que amadureceram no final dos anos 90?

Em primeiro lugar houve um salto nas reformas na China e na intensidade com que os Estados Unidos passaram a negociar com esse país, o que foi seguido, depois, pelo conjunto dos países do centro do sistema, dentro dos marcos da Organização Mundial do Comércio (OMC). Além disso, acelerou-se o investimento directo dos Estados Unidos na China e uma fracção expressiva do comércio externo chinês (cerca de um terço) é feita por grupos industriais ou comerciais norte-americanos, em particular pelo grupo Wall Mart, que constitui o principal comprador dos produtos chineses.

Dessa forma, foi em meados dos anos 90 que ocorreu o encontro dos processos internos - de acumulação de capital produtivo e investimentos na China (processo dirigido pelo PCC - Partido Comunista Chinês) com o afluxo de capital norte-americano para esse país. Há várias pesquisas sobre os investimentos realizados na China que expressam essa realidade com total clareza.

A outra mudança de qualidade ocorreu com a quebra da Nasdaq em 2000/2001

 

A que factores correspondem essas inflexões?

Ao fato de que a política macro-económica - conduzida pelo FED (Federal Reserve - Banco Central norte-americano) -, após ter promovido a recessão de 1991-1992, passou a operar com taxas de juros muito baixas. Essa política está na raiz da crise mexicana de 1994/95, na da Ásia em 1997/98 e repetiu-se na quebra da Nasdaq. Isso porque, para os investidores, já não era atractivo ter títulos públicos nas suas carteiras de investimentos. Embora, por prudência, os grupos de investidores financeiros tenham conservado uma parte dos títulos no seu portfólio, modificaram radicalmente o seu foco nos anos 90, e passaram a comprar acções das grandes empresas cotadas na Bolsa de Wall Street.

É a partir disso que se instala o que os economistas chamam de "governo de empresa", que modifica profundamente os objectivos da empresa: o que passa a ter valor são os rendimentos de curto prazo e não mais os objectivos de crescimento de longo prazo, tal como era no período do pós-segunda guerra. E isto produz novas relações entre os managers das empresas e os accionistas, pois a parte principal da remuneração desses executivos está relacionada com a cotação das empresas nas Bolsas. A empresa é vista como uma forma particular de activo financeiro, e por isso realizam-se fusões e/ou aquisições totalmente fundadas em critérios financeiros de rendimentos das acções.

 

Quais as consequências dessas modificações na relação capital-trabalho?

Houve uma modificação radical na relação capital/trabalho dentro das empresas: os ataques a direitos e ao próprio trabalho são de intensidade nunca vista. A estabilidade relativa que os trabalhadores haviam conquistado é perdida, ainda mais que o uso de processos com base na microeletrónica é compatível com trabalhadores de baixa qualificação, isto é, passíveis de serem treinados em poucas horas. Além disso, as políticas relativas ao mercado de trabalho permitem o desenvolvimento de todo o tipo de flexibilização na condição dos trabalhadores. Mesmo os despedidos podem ser chamados novamente pela empresa, mas em outras condições contratuais, onde a empresa não arca com direitos e estabelece contratos temporários etc.

Ou seja, houve uma mudança importante na relação de forças entre o capital e o trabalho, e essa mudança ocorreu num quadro de modificação do próprio capital. Tal como previsto por Marx, nunca houve tamanha concentração e centralização de capitais, mas numa situação onde a produção pode ser dividida, dispersa em diferentes locais e até diferentes países.

Do ponto de vista dos trabalhadores, ainda, isso resultou em perda de sua capacidade de organização. Aquele tipo de greve que paralisava toda a produção num determinado momento e que facilitava a organização dos trabalhadores e o avanço de sua consciência é cada vez mais difícil de ser realizado. A localização das empresas e a sua capacidade de intercambiar a sua produção tornam essa luta difícil e complexa. Embora não se deva esquecer que as grandes e impressionantes concentrações operárias deslocaram-se para a Ásia, para a China e para a Coreia do Sul. Mas, ainda assim, vale lembrar que essa configuração já mudou no Japão.

 

Qual é a relação desta nova configuração com o quadro geopolítico, especialmente com a política e a localização das grandes potências imperialistas?

O panorama é complexo e há apreciações diferentes dentro do próprio bloco de poder do capital. Não é de pouca importância que uma parte da indústria norte-americana tenha sido transferida para a China. E estamos a falar de uma parte da indústria de bens de capital, uma parte da indústria pesada. O único sector totalmente controlado em solo americano é o complexo militar/espacial, mas no campo do mercado nuclear civil (produção de energia nuclear), os americanos aceitaram transferir a sua tecnologia, o seu know how para a China.

No campo da política mundial e do imperialismo, a minha posição é que houve uma tentativa de concretizar o velho sonho imperial. Nos governos de Clinton, essa tentativa teve formas menos aparentes; sob Bush, a perseguição desse sonho imperial assumiu formas mais agressivas e directamente provocadoras. Foram dados passos importantes para por em andamento um sonho imperial absoluto norte-americano, mas hoje ele está constrangido pelo momento em que vive o capital no seu conjunto, e por uma realidade diferente no processo de acumulação.

As futuras relações no mercado mundial vão estar marcadas pelo facto de que as relações reais de acumulação do capital vão estar na China, em grande parte da Ásia e no norte da Índia. Além disso, há ainda a Rússia, que volta ao cenário político mundial de uma forma não prevista, devido à explosão dos preços de energia e à concentração de gás natural e petróleo naquela região.

 

Nesse quadro, qual o lugar o do imperialismo norte-americano? Há uma perda de hegemonia?

Não há um império americano, no sentido de um único império único e absoluto. Isso foi tentado, como disse antes. Bush tentou acelerar esse processo, mas há dois factores que ajudaram a acabar com esse sonho: a política fiscal de Bush e as aventuras no Afeganistão e no Iraque.

No governo Bush houve uma redução brusca dos impostos sobre as grandes fortunas e o capital, e houve um novo aumento nos gastos militares. Esse desequilíbrio na política fiscal é tão forte que, após um período de quatro anos, os títulos públicos norte-americanos estão concentrados na sua ampla maioria nas mãos de cinco países: China, Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Índia.

O que está mantido é o sistema imperialista e este é um sistema hierarquizado. E isso não se deve perder de vista. A China, ao combinar o facto de ser uma economia "pilar" do sistema, com a sua necessidade de acumulação, está pouco a pouco a tornar-se um país imperialista, ainda que de forma prudente. Por exemplo, a China hoje está a construir relações de mando na África. Fornece petróleo e armas para o exército do Sudão; na África oriental são contínuas as missões de empresas estatais chinesas com vista a acordos sobre matérias-primas: os governos locais são financiados pela China em troca da disponibilidade dessas matérias-primas. Há três meses, todos os chefes de Estado africanos foram convidados pelo governo chinês para uma reunião com uma ampla agenda em Pequim.