Um dos advogados de acusação dos Estados Unidos nos famosos julgamentos de Nuremberga considerou ontem que os tribunais de guerra de Guantánamo traíram os princípios de justiça que tornaram o julgamento dos crimes do nazismo "um marco judicial". Henry King Jr. disse mesmo que Robert Jackson, arquitecto dos julgamentos de Nuremberga, "deve estar a dar voltas no túmulo".
"O que eles estão a fazer viola os princípios de Nuremberga assim como o espírito das Convenções de Genebra de 1949", disse ainda o magistrado americano. Para ele, "o conceito de um julgamento justo é parte da nossa tradição, do nosso património." O que fez Nuremberga tão imortal, na sua opinião, foi a justiça, a presunção de inocência, o direito à defesa, a oportunidade de ver os documentos pelos quais se está a ser julgado.
Por isso, King nem queria acreditar quando soube que as regras de Guantánamo deixam em aberto a possibilidade de usar provas obtidas através de coerção.
"Torturar pessoas e depois levar provas obtidas assim a tribunal? Provas de ouvir dizer são permitidas? Há provas acessíveis à acusação mas não à defesa? Este é o tipo de 'justiça' com que Jackson nem sonhava", disse.
Para Henry King Jr., os presos de Guantánamo deveriam ser julgado no sistema de tribunais militares dos tribunais federais americanos, sob regras justas que deixem em aberto a possibilidade de absolvição. King lembrou que três acusados de Nuremberga foram absolvidos.