Começou ontem ao fim da tarde em Brasília o 5º Congresso do Movimento dos Sem Terra (MST), que já é considerado o maior da sua história. Até a próxima sexta, o congresso, que mobiliza 18 mil pessoas, vai discutir o futuro da reforma agrária no Brasil. "Já tivemos governos piores para a reforma agrária do que o Lula, principalmente em relação à repressão ao movimento. Mas este governo fez uma clara opção pelo agronegócio em detrimento da reforma agrária", explica Vanderlei Martini, membro da coordenação nacional do MST , nesta reportagem da Carta Maior.
5º CONGRESSO DO MST
Mais de 18 mil chegam a Brasília para discutir o futuro da reforma agrária
Cerca de 18 mil integrantes do MST estão em Brasília para participar do 5º congresso do movimento. Evento é momento interno de reorganização, mas traz possibilidade de conversas com a presidência da República e governadores de oito estados.
Verena Glass - Carta Maior
BRASÍLIA - Cercanias do ginásio poliesportivo Nilson Nelson, na capital federal. Os 31 mil metros quadrados de lonas e barracas, 200 banheiros, 350 chuveiros e 140 cozinhas (cada estado trouxe seus próprios alimentos e traquitanas culinárias) são apenas parte da estrutura montada nas últimas semanas em Brasília para receber cerca de 18 mil militantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) para o 5º Congresso do movimento. O encontro, que acontece esta semana (11 a 15), contará também com representantes de, no mínimo, outros 21 países (Argentina,Chile, Paraguai, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Haiti, República Dominicana, Cuba, México, EUA, Canadá, além de países da Ásia, África e Europa).
Vindos de camionetes de 24 estados do país, os primeiros participantes começaram a chegar no domingo (10), e os últimos desembarcaram barracas e lonas pretas no final da manhã desta segunda (11), tempo de fazer um almoço rápido e se instalar no acampamento antes da abertura do Congresso, previsto para às 19h.
Já por volta das 10h da manhã, por exemplo, as panelas do Paraná, uma das primeiras delegações a chegar em Brasília, com 700 pessoas, fumegavam com arroz carreteiro na cozinha arrumada, onde um "varal" de linguiça no teto fazia as vezes de dispensa e decoração. O Mato Grosso do Sul, por sua vez, que trouxe 900 delegados e ofereceu o almoço à Carta Maior, teve que improvisar um pouco por ter acabado de chegar e ainda estar às voltas com lonas e colchões.
Considerado o maior congresso da história do MST, o encontro desta semana é visto pelo movimento como um momento interno de formação e articulação política. Na pauta, análises da conjuntura política nacional e internacional, o aprofundamento do debate sobre o modelo agrícola aplicado no país e suas fragilidades, a inserção da reforma agrária neste contexto, o conceito de soberania alimentar, e os desafios organizativos do movimento.
Por outro lado, além de formular uma agenda concreta para a pequena e média agricultura e a reforma agrária - a "Carta dos Sem Terra à Sociedade Brasileira", discutida por todas as delegações durante as últimas semanas, deve ser divulgada ainda antes do término do congresso -, o MST também admite a possibilidade de uma audiência com o presidente Lula, e prevê uma conversa com governadores abertos à questão da reforma agrária em graus diversos, como Roberto Requião (PR), José Roberto Arruda (DF), Ana Júlia Carepa (PA), Jackson Lago (MA), Marcelo Déda (SE), Eduardo Campos (PE), Cássio Cunha Lima (PA) e Jaques Wagner (BA), convidados para um diálogo no dia 14 pela manhã.
De acordo com Vanderlei Martini, membro da coordenação nacional do MST em Minas Gerais, a intenção do movimento não é depositar em diálogos com o poder público as expectativas de avanço da reforma agrária, que dependeria maioritariamente da luta dos movimentos sociais, mas alguma movimentação neste sentido poderia significar uma injecção de ânimo nos 18 mil participantes do evento.
Segundo Martini, o congresso terá como um de seus principais debates o desafio do MST quanto às estratégias de organização e luta do movimento diante de uma conjuntura cada vez menos propícia à implementação da reforma agrária enquanto política nacional de desenvolvimento, uma vez que, no interior do governo, a questão é vista cada vez mais como um paliativo de compensação social.
"Já tivemos governos piores para a reforma agrária do que o Lula, principalmente em relação à repressão ao movimento. Mas este governo fez uma clara opção pelo agronegócio em detrimento da reforma agrária", explica Martini. Para ele, o modelo agroexportador baseado em grandes monoculturas, como a soja, os agrocombustíveis (cana e grãos para biodiesel) ou madeira para papel e celulose, mantém os problemas históricos de concentração fundiária. Assim como aprofunda as distorções do uso do solo e da produção de alimentos para commodities agroindustriais.
"Assim, se ficarmos esperando o governo mudar alguma coisa, esperaremos sentados. Precisamos inovar em nossas formas de luta, aprofundar a articulação com outros sectores da sociedade, investir na juventude. A crise geral das esquerdas, o descenso das lutas sociais, tudo isso deixou a militância muito sem perspectivas. Por isso, a urgência da reforma agrária como pauta aglutinadora", diz o dirigente do MST.