Trabalho doméstico: as mulheres trabalham mais 4h do que os homens

14 de abril 2011 - 15:06

Em 29 países analisados, Portugal surge como o quarto onde a diferença entre mulheres e homens é maior, no que respeita a trabalho não pago. Os imigrantes estão mais expostos a vínculos precários e ao desemprego, recebendo salários 15% mais baixos. 13,6% das famílias portugueses sobrevivem com metade do rendimento mensal médio.

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Em 29 países analisados, Portugal surge como o quarto onde a diferença entre mulheres e homens é maior, no que respeita a trabalho não pago que inclui o doméstico, como cozinhar, limpar e jardinagem, tratar de crianças e de outros membros ou não da família, o voluntariado e ir às compras. Foto Paulete Matos.

Esta terça-feira foram divulgados vários estudos que indicam que em Portugal prevalecem desigualdades estruturais ao nível da organização social. Desigualdade entre mulheres e homens, descriminação salarial dos imigrantes e o fosso crescente entre ricos e pobres são os sinais preocupantes lançados pelos estudos da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) e do Banco de Portugal.

Segundo o estudo revelado pela OCDE, "Society at a Glance 2011"ou "Panorama de Indicadores Sociais 2011", em português, Portugal é um dos países onde há mais diferenças de género no que toca à divisão das tarefas domésticas. Em 29 países analisados, Portugal surge como o quarto onde a diferença entre mulheres e homens é maior, no que respeita a trabalho não pago. São elas quem mais o faz, acarretando uma jornada dupla de trabalho. Só na Índia, no México e na Turquia é que esta diferença é maior.

E, se juntarmos o trabalho pago e não pago, então Portugal é o segundo país, a seguir à Índia, onde a disparidade é maior entre homens e mulheres, sendo sempre elas quem trabalha mais.

A análise inclui pessoas dos 15 aos 64 anos de 26 países da OCDE e, ainda, da China, Índia e África do Sul. Em Portugal, as mulheres passam quase quatro horas mais do que os homens em trabalho não pago. Os homens gastam, por dia, pouco mais do que uma hora e meia.

O trabalho não pago inclui o doméstico, como cozinhar, limpar e jardinagem, tratar de crianças e de outros membros ou não da família, o voluntariado e ir às compras. O que o distingue do lazer é o facto de poder ser feito por uma terceira pessoa paga para o efeito. As actividades, como jogar ténis ou ver um filme, que não podem ser feitas por uma pessoa paga, são consideradas lazer.

Em todos os países as mulheres fazem mais trabalho não pago do que os homens. Nos nórdicos a diferença é pouco mais de uma hora, mas a média ronda as 2,5 horas por dia.

Imigrantes: mais precários e com salários menores

Os imigrantes em Portugal têm a vida mais complicada do que os restantes trabalhadores. Não só estão mais expostos a vínculos precários e ao desemprego, como recebem salários 15% mais baixos, em média. As conclusões são de um estudo recente de duas investigadoras do Banco de Portugal, que fizeram um dos retratos mais completos até à data sobre a realidade laboral dos estrangeiros no país.

Sónia Cabral e Cláudia Duarte analisaram os quadros de pessoal das empresas portuguesas, entre 2002 e 2008. Concluíram que, neste período, o salário médio dos trabalhadores nacionais foi de 837 euros, ao passo que o vencimento médio do conjunto de imigrantes se situou em 737 euros. As discrepâncias mais evidentes ocorreram nas comunidades cabo-verdiana e chinesa, com ordenados médios de 572 e 446 euros, respectivamente.

Portugal: 13,6 por cento de famílias pobres

O estudo da OCDE divulgado esta terça-feira também assinala que o rendimento real, nas últimas duas décadas, em Portugal, cresceu 4,2 por cento. Mas apesar deste crescimento, Portugal está, ainda, abaixo da média dos países da OCDE, no que toca ao rendimento médio por família, que equivale a 9 mil euros anuais. Pior do que o nosso país, apenas estão alguns países do Leste europeu, Chile, Turquia e México.

Também no que toca ao indicador de pobreza, Portugal tem uma percentagem de pessoas que vivem com menos de metade do rendimento médio familiar superior à média dos países avaliados. No país o valor é de 13,6 por cento enquanto que a média da OCDE é de 11,5.