Os manifestantes dormiram em tendas ou enrolados nos seus cobertores, muitos deles acampados junto aos tanques do exército, estacionados em muitos dos acessos à praça. Uma grande faixa com a inscrição "O povo exige a saída do regime" continua a flutuar sobre o conjunto de tendas e lonas, enquanto alguns espectadores vagueiam pelo local, que até há duas semanas era um ponto de encontro para o trânsito congestionado na capital egípcia. Os protestos começaram a 25 de Janeiro último, com manifestações por todo o país.
As medidas recentemente anunciadas pelo regime – esta segunda-feira foram os aumentos salariais e das pensões, hoje, terça-feira, foi uma comissão para rever a Constituição – não demoveram os jovens que se mantém na praça Tahrir, o epicentro das contestações, apesar do frio, da fadiga e das más condições em que dormem. Esta terça-feira, dezenas de milhares de pessoas juntaram-se a este grupo mais restrito de manifestantes que não abandonam a praça.
“Faz cinco dias que estou aqui. Vamos ficar até que Mubarak parta”, indicou à AFP Mohammed Ali, um engenheiro oriundo do sul do Cairo. “Não houve feridos nestes últimos dois dias. Mas há diarreias, gripes, constipações, está frio e as condições sanitárias são más”, indicou por seu lado Mohammed Imed, de 24 anos.
Mubarak quer permanecer agarrado ao poder depois de 29 anos como chefe de Estado e para comprar algum tempo, anunciou algumas medidas populares: um aumento de 15 nos salários dos funcionários públicos e nas reformas dos pensionistas, a criação de um fundo para compensar os donos de fábricas e lojas vandalizadas ou saqueadas durante as manifestações e a constituição de uma comissão de inquérito sobre as violências de 2 de Fevereiro ocorridas na Praça Tahrir entre opositores e defensores de Mubarak que provocaram vítimas mortais.
“Estes aumentos não significam nada”, indicou à Al-Jazeera um manifestante, Sherif Zein. “A maioria das pessoas irá perceber o que isto é. É uma carteira de comprimidos Aspirina, mas nada de substancial”.
Entretanto chegou outra boa notícia nas últimas horas: o ciberactivista Wael Ghonim - que tinha sido detido no dia 28 de Janeiro por ter começado a página no Facebook que mobilizou os egípcios para o início dos protestos - foi libertado. Wael Ghonim, responsável de Marketing da Google no Médio Oriente e no Norte de África, era o homem por detrás da página do Facebook "Todos somos Jaled Said".
Já as alterações constitucionais possíveis pelo anúncio de uma comissão constitucional, escreve a AFP, "têm a ver com o número de candidaturas à Presidência e com o mandato presidencial". As próximas eleições acontecem em Setembro próximo e Mubarak já disse que ficará fora da corrida.
Os artigos 76 e 77 da Constituição egípcia, que descrevem os poderes da presidência e o sistema das eleições presidenciais, foram os responsáveis pela perpetuação de Mubarak no poder todos estes anos. Se estes artigos forem mudados, poderá efectivamente haver uma mudança democrática. Seria igualmente necessário, porém, alterar o artigo 88 da Constituição, segundo o The Guardian, a fim de se restaurar a total supervisão judicial de futuras eleições.
Transição com Suleiman e o apoio dos EUA
Entretanto, a imprensa internacional continua a especular sobre os cenários em torno de uma partida de Mubarak do país. Omar Suleiman - o general na reserva descrito como um dos cinco espiões mais poderosos do mundo e nomeado por Mubarak como o seu vice-presidente, o primeiro nos últimos 30 anos - é bem visto pelo governo norte-americano. Os Estados Unidos não desmentiram sequer, nos últimos dias, a notícia de que estão a negociar com Suleiman a destituição de Mubarak, adianta o Público.
Suleiman ganhou igualmente o apoio da secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton para liderar a “transição” para a democracia e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, ligou ontem a Suleiman pedindo-lhe que tomasse medidas “corajosas e credíveis” para mostrar ao Mundo que o Egipto embarcou numa transição “irreversível, urgente e real”.
Para além de ser um favorito dos EUA, Suleiman alinha-se igualmente como um favorito de Israel. O seu nome já tinha vindo a lume em Telavive, em 2008, durante a compilação da lista de candidatos preferidos para sucederem a Mubarak, de acordo com comunicações secretas israelitas interceptadas pela WikiLeaks e publicadas pelo jornal britânico “The Daily Telegraph”.
Já a oposição egípcia diz que poderá reconhecer Suleiman como líder de transição, mas apenas isso e só depois da partida de Mubarak.