Egipto: A contra-revolução patrocinada por...

08 de fevereiro 2011 - 12:04

Será um longo, ventoso, traiçoeiro e talvez sangrento caminho, antes que a revolução popular egípcia sequer sonhe em aproximar-se do modelo da Indonésia pós-Suharto (a democracia maior e mais plural que se conhece num país de maioria muçulmana) ou do modelo da Turquia actual (também sancionado nas urnas). Por Pepe Escobar.

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Foto de Iman Mosaad, FlickR

Como previsto (Pepe Escobar, “Fúria, fúria contra a contra-revolução”), a contra-revolução está em marcha no Egipto, patrocinada pelos suspeitos de sempre: o exército egípcio, as elites ‘compradoras’ do mubarakismo e a tríade Washington, Telavive e capitais europeias.

Passadas já mais de duas semanas de protestos nas ruas do Egipto contra o presidente Hosni Mubarak, aí está o que significa a “transição ordeira” da Casa Branca – com Washington jogando de todos os lados, mesmo depois de a rua ter quebrado o espelho e desafiado a “estabilidade”/terrorismo imposta pelo lado escuro da força.

A contra-revolução vai bem além dos comentários de Frank Wisner, homem do complexo CIA/Wall Street, enviado como agente secreto do presidente dos EUA ao Cairo, e amigo pessoal de Mubarak, sobre o quanto seria desejável que Mubarak ficasse e supervisionasse a transição.

Aparece também, como que por acaso, nas palavras de Robert Springborg, professor de Assuntos de Segurança Nacional na Escola de pós-graduação da Marinha dos EUA, que disse à Reuters que “Os militares construirão uma sucessão. O ocidente – EUA e União Europeia – estão a trabalhar para isso. Estamos a trabalhar em íntima união com os militares (...), para garantir que nada se altere no papel dominante dos militares na sociedade egípcia, na política e na economia”. Tradução: anule-se o povo, para garantir a “estabilidade”.

A cidade de tendas na Praça Tahrir na capital, Cairo, sabe muito bem que décadas com o Egipto a existir como estado-cliente dos EUA, mais manipulações infindáveis pelo FMI/Banco Mundial, criaram a tempestade económica perfeita que foi a causa-chave da revolução. É também causa-chave para que a rua deseje – como se ouve num dos slogans principais – que todo o regime seja deitado abaixo. Ligando os pontos, a rua sabe também que o governo egípcio soberano, verdadeiramente representativo, põe abaixo todo o arranjo do poder vigente, controlado pelos EUA.

Historicamente, Washington sempre temeu o nacionalismo árabe, não os self-made jihadistas de cabeça fraca. O nacionalismo árabe é intrinsecamente, visceralmente, contrário aos acordos de paz de 1979 em Camp David, que neutralizaram o Egipto e deixaram Israel com poder e mão de ferro para continuar o processo de estrangulamento lento dos palestinianos; nas palavras de As'ad Abu Khalil, do blog “Angry Arab”, todos os especialistas que trabalharam para os acordos de Camp David, “ajudaram a construir uma monstruosa ditadura no Egipto”.

Daniel Levy, ex-negociador israelita no “processo de paz”, e hoje da New America Foundation, disse com todas as letras ao New York Times: “os israelitas estão a dizer que “depois de Mubarak, o dilúvio (...). O problema para os EUA é que se pode fazer avançar a agenda israelita com autocratas árabes, mas com democracias árabes não, é impossível.”

Corrigindo: de facto, depois de Mubarak não será o dilúvio, será “o nosso torturador” – vice-presidente Omar Suleiman, chefe do Mukhabarat, chamado, nos cartazes da praça de “Sheikh al-Tortura”, porque prendeu, matou e arrebentou pelo menos 30 mil pessoas, suspeitas de serem jihadis, aceitou prisioneiros transferidos pela CIA e torturou os transferidos. Entre os inocentes torturados está Sheikh Libi que, sob tortura, ‘confessou’ que Saddam Hussein estava treinando jihadis da al-Qaeda; ‘informação’ que o ex-secretário de Estado Colin Powell não se envergonhou de usar no infame discurso na ONU, em Fevereiro de 2002, no qual justificou a guerra ao Iraque.

Deitar Mubarak ao rio Nilo

Essencialmente, é o que as ruas do Egipto querem. Mubarak fora, já. Suleiman inicia diálogo nacional com uma coligação de oposição, observado por delegação neutra da ONU. Depois, uma assembleia constituinte, com a missão de alterar os artigos 77, 78 e 88 da Constituição, para permitir que qualquer egípcio seja candidato à presidência.

Fim do estado de emergência (vigente, de fato, há 25 anos). O judiciário estabelece corpos para monitorizar futuras eleições. Um corpo de coligação nacional, criado para monitorizar a transição nos próximos seis meses e organizar eleições normais, pelos padrões internacionais. Novas regras para partidos políticos, que deixem de depender da aprovação do Partido Democrático Nacional do mubarakismo, e passem a ser regidos por corpo neutro independente. O país recomeçará do zero, em estado de Direito e com judiciário independente.

Os grupos de jovens, centrais na revolução, vão muito além disso. Querem: que todo o partido de Mubarak, o NDP, renuncie, inclusive Suleiman; um governo amplo, de transição, a ser nomeado por um comité de 14 membros, constituído por juízes, líderes dos movimentos de jovens e membros do exército; eleição de um conselho de 40 intelectuais públicos e especialistas em direito constitucional, que esboçarão as linhas gerais de uma nova constituição, supervisionado pelo governo de transição, a ser aprovado pelos eleitores em referendo; eleições locais e nacionais; fim da lei de emergência; desmonte de todo o aparelho de segurança do Estado; e julgamento de todos os principais líderes do regime, inclusive Mubarak.

A rua simplesmente não confia no “Conselho de Sábios” que se auto-nomeou – e que inclui o secretário da Liga Árabe Amr Moussa; o Prémio Nobel e conselheiro de Obama Ahmed Zuwail; o professor Mohamed Selim al-Awa; o presidente do Partido Wafd Said al-Badawi; o poderoso empresário do Cairo Nagib Suez e o advogado Ahmed Kamal Aboul Magd – e que apoia a ideia de Suleiman presidir a “transição ordeira”, sob o pretexto de que a oposição estaria dividida demais e não chegaria a nenhum acordo. Mas para acreditar que Suleiman aceitará dissolver o seu próprio partido, além do Parlamento e da Polícia política, e que alterará a Constituição, só se a rua estiver sob efeito de um sonho orientalista induzido pelo ópio.

No momento, o novo partido Wafd (seis assentos) e o Tagammu (cinco assentos) são os maiores partidos de oposição aprovados pelo regime com presença no Parlamento (518 assentos). E há também o partido al-Ghad (“Amanhã”), fundado por Ayman Nour (que contestou a última eleição presidencial e foi preso). A Geração Y que está nas ruas considera irrelevantes todos esses partidos; estão reunidos em torno do Movimento Kefaya (“Basta!”), e acaba de constituir uma Frente da Juventude para o Egipto

De momento, o único grupo de oposição que dá voz às principais exigências no plano económico é um ramo da nova Federação Egípcia dos Sindicatos Independentes [ing. Egyptian Federation for Independent Unions]. Querem salário mínimo mensal de 1.200 libras egípcias (cerca de 204 dólares), aumentos anuais que acompanhem a inflação e direitos garantidos a bónus e benefícios.

Evidentemente, nada mudará no Egipto sem uma nova constituição que assegure direitos políticos aos coptas, xiitas, Baha'i, núbios, beduínos e todos os demais, e são muitos. Ao mesmo tempo, os egípcios seculares, os cristão, o novo ramo da Frente da Juventude para o Egipto, nasseristas, partidários do novo Wafd, socialistas, todos parecem concordar que não há qualquer risco de a Fraternidade Muçulmana converter Egipto num país regido pela lei da Sharia. O intelectual superstar Tariq Ramadan, cujo avô Hasan al-Banna fundou a Fraternidade Muçulmana em 1928, destaca que “[ver a FM como ‘ameaça’] é projecção ideológica para proteger interesses geopolíticos”.

A Fraternidade Muçulmana, conforme todas as avaliações locais, não representa mais de 22% da população muçulmana; portanto não teria 78% dos votos. De facto, a sociedade egípcia já pratica o que se pode definir como modalidade muito moderada de Islão. O Islão é a religião do Estado; o hijab e o niqab são comuns entre as mulheres, como a galabiya para homens.

E, para os que insistem em brandir o espectro da Revolução Islâmica de 1979 no Irão (e que não conhecem a diferença entre xiitas e sunitas), vale lembrar que a composição social e religiosa do Egipto é completamente diferente da do Irão. Muito mais revelador, isso sim, é o que o próprio mundo árabe percebe como ameaça. Em pesquisa de Agosto de 2010, da Brookings Institution, vê-se que apenas 10% dos árabes consideram o Irão uma ameaça; verdadeira ameaça, para a maioria das populações árabes são os EUA (77%) e, ameaça ainda pior, Israel (para 88% dos árabes entrevistados).

Permitam-me pulverizar um pouco de democracia

A rua tem pirâmides de razões para estar preocupada. Todas as evidências indicam que esses dias que abalaram o mundo podem evoluir para o que Washington definiu como “estabilidade”, com “transição ordeira” conduzida por torturador conhecido, com o regime onde sempre esteve, ganhando tempo, insistindo em discutir cada alteração crucial da Constituição – além do argumento interno segundo o qual Mubarak não pode ser afastado, seja porque seria inconstitucional seja porque, sem ele, haveria “o caos”.

Enquanto o impasse persiste – embora a rua continue completamente mobilizada – o que é apresentado como diálogo entre o regime e alguns poucos sectores da oposição, incluídos aí os usurpadores da revolução, corre o risco de fraccionar o já dividido e, de facto, sem qualquer liderança política, movimento de protesto. Esta alternativa de modo algum desagrada Washington. Nem, tampouco, outros estados-fantoches dos EUA. A chefe da política externa da União Europeia, Lady Catherine Ashton defende Suleiman – com quem conversou –, e que, para ela, teria “algum plano pronto” para atender algumas das reivindicações dos manifestantes. A palavra crucial aqui é “algum”.

Imaginem se o resultado de tanto som e fúria, das centenas de mortos e milhares de feridos pelo regime – além dos jamais contabilizados milhares de mortos ao longo de 30 anos de ditadura – for essa “transição ordeira” asséptica, comandada pelo “Sheik al-Tortura”, elogiado por políticos e pela média-empresa em Washington, nas capitais europeias e em Telavive como vitória democrática da revolução popular e do desejo colectivo do povo egípcio...

Reformas políticas/económicas minimalistas já estão sendo apresentadas como cenouras podres – quando até jornalistas estrangeiros são presos nas ruas, bandidos armados aterrorizam os manifestantes e a imprensa estatal mubarakista continua em modo Revolução dos Bichos.

A opinião pública egípcia está a ser lenta, metodicamente dividida. A junta militar é sólida como uma muralha. Suleiman e Annan são queridinhos de Washington. O ministro da Defesa marechal-de-campo Mohammed Hussein Tantawi é queridinho de Robert “O Supremo do Pentágono” Gates.

A ditadura militar certamente deseja que os EUA continuem a pulverizar democracia sobre o Egipto – na forma de dinheiro para comprar os tanques Abrams montados nos subúrbios do Cairo, helicópteros Chinook CH-47 fabricados pela Boeing, F-16s (contrato de 230 milhões de dólares) vendidos pela Lockheed Martin, Black Hawks vendidos pela Sikorsky, sistemas L-3 Ocean comprados para detectar ataques de submarinos, equipamento de rastreamento da CAE, em Tampa; sistemas de armamento C-130H vendidos na Florida, mais um influxo de 450 mísseis Hellfire II novinhos, para não falar das sempre úteis granadas de gás lacrimogéneo, compradas de Combined Systems Inc. (CSI), de Jamestown, Pennsylvania.

E não esqueçamos os contratos do Pentágono, que mostram os mais de 110 milhões de dólares que o Pentágono consumiu para comprar e fazer a manutenção de nove jactos Gulfstream da frota de Mubarak. Os que continuam na Praça Tahrir devem estar conjecturando: não se poderia usar um desses jactos Gulfstream, para ejacular Mubarak directamente em Guantánamo?

O movimento de contra-revolução pode ser muito proveitoso agora, exactamente para que a revolução se mantenha em estado de alerta máximo. Quando a tal “transição ordeira” começar a ser vista exactamente como é, há grande probabilidade de não só o Egipto, mas todo o mundo árabe virar uma bola de fogo.


Artigo de Pepe Escobar, publicado no Asian Times, traduzido pelo colectivo Vila Vudu/Rede Castorphoto.