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Mubarak tem de sair. É preciso que vá

Quando Mubarak se for embora, serão reveladas verdades terríveis. O mundo aguarda. Mas ninguém aguarda mais corajosamente que os bravos jovens homens e mulheres da Praça Tahrir.
O regime não passa de casca já vazia. Foto de Iman Mosaad, FlickR

O velho está a cair. A renúncia, sábado à noite, de toda a liderança do Partido Nacional Democrático governante – inclusive do filho de Hosni Mubarak, Gamal – não aplacará os que querem o fim do governo. Mas chegarão lá; todo o vasto edifício de poder que o PND dos Mubarak representava no Egipto já não passa de caixa vazia, cartaz de propaganda sem coisa alguma por trás.

A imagem do delirante novo primeiro-ministro de Mubarak, Ahmed Shafiq, dizendo aos egípcios ontem que as coisas estavam “a voltar ao normal” foi o que bastou para mostrar aos manifestantes da Praça Tahrir – que há 12 dias não arredam pé de lá, exigindo o exílio do homem que governou o país por 30 anos – que o regime não passa de casca já vazia. Quando o chefe do comando central do exército pediu pessoalmente às dezenas de milhares de revolucionários pró-democracia que estavam na praça que voltassem para casa, a multidão simplesmente vaiou.

No romance “O Outono do Patriarca”, Gabriel Garcia Márquez acompanha o comportamento de um ditador ameaçado, a sua psicologia de negação total. Nos dias de glória, o autocrata vê-se como herói nacional. Ante a rebelião, “mãos estrangeiras” e “agendas ocultas” para aquela revolta inexplicável contra o seu governo tão benevolente quanto absoluto. Os que fomentam insurreições sempre são “usados e manipulados por potências estrangeiras que odeiam o nosso país”. E depois – numa resenha do romance de Garcia Márquez, pelo grande escritor egípcio Alaa Al-Aswany –, “o ditador tenta testar os limites da máquina, fazendo qualquer coisa e tudo, excepto o que deve fazer. Torna-se perigoso. Afinal, aceita fazer tudo o que querem que faça. Depois, vai-se embora.”

Hosni Mubarak do Egipto aproxima-se do clímax do estágio quatro – a derradeira viagem. Por 30 anos foi o “herói nacional” – combatente na guerra de 1973, ex-comandante da Força Aérea egípcia, sucessor natural de Gamal Abdel Nasser e também de Anwar Sadat – e, depois, exposto à fúria do povo, cansado do governo ditatorial, dos policiais e dos torturadores e da corrupção, ainda tentou culpar as sombras dos inimigos ficcionais do país (Al-Qaeda, a Fraternidade Muçulmana, a Al Jazeera, a CNN, os EUA). Parece que já ultrapassou a fase em que os ditadores ficam perigosos, nos movimentos finais.

Vinte dois advogados foram presos pela polícia política de Mubarak na quinta-feira – por prestarem auxílio a vários outros advogados que investigavam a detenção e a prisão de mais de 600 manifestantes da Praça Tahir. Os cruéis polícias dos batalhões de repressão política que tinham sido afastados das ruas do Cairo há nove dias, e os gangs movidas a droga pagos por eles são parte das últimas armas do ditador ferido e ainda perigoso. Esses bandidos – que trabalham directamente sob ordens do ministro do Interior – são os mesmos que abriram fogo à noite na Praça Tahrir, matando três homens e ferindo 40 já no amanhecer da sexta-feira. A entrevista chorosa de Mubarak a Christiane Amanpour na semana passada – quando disse que não desejava continuar presidente, mas era obrigado a carregar o fardo por mais sete meses para salvar o Egipto do “caos” – foi o primeiro indício de que se aproximava do estágio quatro.

Al-Aswany resolveu romantizar a revolução (se bem entendi). Adoptou o hábito de fazer manhãs literárias antes de se juntar aos insurrectos e, na semana passada sugeriu que a revolução torna o homem mais honrado – assim como apaixonar-se acrescenta dignidade a qualquer um. Lembrei-lhe que muita gente que se apaixona gasta quantidades absurdas de tempo a tentar afastar os rivais e que eu jamais vira revolução que não tivesse feito o mesmo. Mas a resposta dele, que o Egipto sempre foi sociedade liberal desde os dias de Muhammad Ali Pasha e foi o primeiro país árabe (no século 19) a ter vida político-partidária, soou-me cheia de convicção.

Se Mubarak partir hoje ou adiante, esta semana, os egípcios debaterão a causa de terem demorado tanto para livrar-se desse ditador ensandecido. O problema foi que, nos governos de ditadores – Nasser, Sadat, Mubarak e seja quem for que Washington decida ungir depois desses – os egípcios perderam duas gerações de amadurecimento. Porque a primeira essencial missão de um ditador é “infantilizar” o povo, transformá-los em garotos de seis anos de idade em termos políticos, obedientes a um patriarca guardião. Ganharão jornais falsos, eleições falsas, ministros falsos e muitas falsas promessas. Quem obedecer pode até vir a ser ministro (falso), quando crescer; quem desobedecer apanhará na esquadra de polícia do quarteirão, ou será encarcerado no complexo prisional de Tora, ou, se insistir na desobediência e se mostrar violento, será enforcado.

Só quando a energia da juventude e a potência de algumas novas tecnologias forçaram essa população de egípcios dóceis a crescer e manifestar a sua revolta nas ruas, é que se tornou afinal evidente para todos esses homens e mulheres previamente “infantilizados” que o governo era também constituído de crianças enlouquecidas, o mais velho já chegado aos 83 anos. Facto é que por algum processo ainda não explicado de osmose política, o ditador passou 30 anos a “infantilizar” também os seus aliados pressupostos maduros, no ocidente. Compraram como verdade a fantasia de que Mubarak e só ele continuava a ser a cortina de ferro que continha a avalanche islâmica, impedindo que se alastrasse pelo Egipto e pelo resto do mundo árabe.

A Fraternidade Muçulmana – que tem genuínas raízes históricas no Egipto e todo o direito de participar de eleições parlamentares limpas – ainda é o bicho-papão citado por todos os ‘comentadores’ e apresentadores de programas de televisão, mesmo de jornalistas que não têm nem qualquer mínima ideia do que é ou algum dia foi a Fraternidade Muçulmana.

Agora, contudo, a infantilização geral ultrapassou também esses limites. Lord Blair de Isfahan pôs a cara na CNN, uma noite dessas, e meteu escandalosamente os pés pelas mãos, quando lhe pediram que comparasse Mubarak e Saddam Hussein. Impossível. Não há comparação possível, disse ele. Saddam empobreceu um país que um dia tivera padrão de vida superior ao da Bélgica – e Mubarak fez engordar o PIB do Egipto, que cresceu 50% em dez anos.

Esperei que dissesse que Saddam matou dezenas de milhares de iraquianos e que Mubarak matou/enforcou/torturou só alguns milhares. Mas a camisa de Blair está tão empapada em sangue quanto a de Saddam; por isso, do ponto de vista dos Blairs, podem-se avaliar ditadores só pelos recordes da economia. Obama fez ainda pior. Mubarak, disse-nos Obama ontem, é “homem orgulhoso, mas um grande patriota”.

Espantoso. Para dizer tal coisa é preciso estar convencido de que as milhares de provas da selvageria da polícia política de Mubarak ao longo de 30 anos; a tortura; e os ataques contra os manifestantes da Praça Tahir nos últimos 13 dias, foram cometidos sem que Mubarak soubesse! Mubarak, o velho inocente, talvez soubesse da corrupção e talvez de algum “excesso” – palavra que se começa a ouvir outra vez no Cairo –, mas nunca soube da violação sistemática de direitos humanos nem das fraudes nas eleições!

É o velho conto de fadas russo. O czar é a grande figura paternal, líder reverenciado e perfeito. O problema é que não sabe o que fazem os subalternos. Não acredita que os servos sejam tratados tão mal. Se alguém lhe tivesse contado a verdade, o czar teria posto fim a toda a injustiça. A corte que cercava o czar, claro, foi mais culpada que o czar, todos coniventes.

Só que evidentemente Mubarak nunca ignorou que comandava um regime injusto. Sobreviveu às ameaças com muita repressão e eleições fraudadas, falsas eleições. Sempre. Como Sadat. Como Nasser, o qual – segundo testemunho de uma de suas vítimas, que foi meu amigo – permitia que os seus torturadores pendurassem os prisioneiros sobre tonéis de fezes ferventes e fazia-os beber dos tonéis. Durante 30 anos, vários embaixadores dos EUA informavam Mubarak de todas as crueldades perpetradas em seu nome. Vez ou outra Mubarak manifestou alguma surpresa e uma vez prometeu pôr fim à brutalidade dos seus polícias. Nada fez e nada jamais mudou. Os czares sempre souberam e sempre aprovaram plenamente todos os actos das suas respectivas polícias secretas.

Assim sendo, quando David Cameron anunciou que “se” as autoridades estivessem por trás da violência no Egipto, seria “absolutamente inaceitável” – ameaça que deixou Mubarak a tremer nas tamancas – toda a mentira começava na palavra “se”. Cameron, a menos que jamais tenha lido os relatórios do Foreign Office sobre Mubarak, sabe perfeitamente bem que o velho jamais passou de ditador de terceira classe, que, sim, manteve-se no poder pela violência.

Claro que, agora, os manifestantes no Cairo, em Alexandria e Port Said, entram em período de muito medo. O “Dia da Partida”, marcado para a sexta-feira – o que sugere que realmente acreditavam que, se Mubarak partisse na semana passada, teria atendido à vontade do povo – converteu-se em “Dia da Desilusão”. No momento, constroem uma comissão de economistas, intelectuais, políticos “honestos” para negociar com o vice-presidente Omar Suleiman –, aparentemente sem perceber que Suleiman é o general-sobressalente aprovado pelos EUA, que Suleiman é homem de extrema e conhecida crueldade, que não hesitará em recorrer à mesma polícia secreta da qual Mubarak dependeu para eliminar os inimigos do Estado reunidos na Praça Tahrir.

Depois de uma revolução bem sucedida, sempre há traições. Pode começar a acontecer já. A sombria falsidade do regime permanece activa. Muitos manifestantes pró-democracia observaram um fenómeno estranho. Nos meses anteriores ao início das manifestações de rua que começaram dia 25 de Janeiro, houve vários atentados contra igrejas cristãs coptas em todo o Egipto. O Papa pediu protecção para os 10% de cristãos egípcios. O ocidente manifestou-se ultrajado. Mubarak atribuiu todas as culpas à conhecida “mão estrangeira”. Mas depois de 25 de Janeiro, nenhum fio de cabelo de cristão copta egípcio foi tocado. Por quê? Porque os criminosos estavam ocupados noutras missões de violência?

Quando Mubarak se for, serão reveladas verdades terríveis. O mundo, como se diz, aguarda. Mas ninguém aguarda mais atentamente, mais corajosamente, mais assustadamente que os bravos jovens homens e mulheres da Praça Tahrir. Se estiverem de facto às vésperas da vitória, estarão a salvo. Se não, muitos deles ouvirão sinistras pancadas na porta de casa, na calada da noite.

6/2/2011, publicado no The Independent

Traduzido pelo colectivo da Vila Vudu

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista inglês, correspondente do jornal “The Independent” no Médio Oriente. Vive em Beirute, há mais de 30 anos
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