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Voz do Operário evoca os 110 anos do antigo sindicato do Arsenal da Marinha

Foi um dos grandes sindicatos operários da cidade de Lisboa, nasceu em 1911 e subsistiu até que a ditadura salazarista o dissolveu. No seu seio se reuniram destacados militantes da causa operária. A Voz do Operário lembra aqui alguns deles.
Oficinas de carpinteiros de molde do Arsenal do Alfeite. Foto de Ilustração Portuguesa.
Oficinas de carpinteiros de molde do Arsenal do Alfeite. Foto de Ilustração Portuguesa.

No início de dezembro de 1911 nascia um dos grandes sindicatos operários da cidade de Lisboa, até ser dissolvido pela ditadura de Salazar (em 1934).

A trabalhadores até então dispersos por organizações de diferentes ofícios, trazia o modelo do sindicato de empresa. Também reuniu trabalhadores da Cordoaria Nacional, em Belém. Mas foi sobretudo o sindicato de pessoal do Arsenal da Marinha, à época ainda instalado na margem norte do Tejo, entre o Cais do Sodré e o Terreiro do Paço.

Na capital de um país industrialmente atrasado, particularmente no sector metalúrgico, as indústrias militares (da marinha e do exército) ocuparam um especial lugar de vanguarda pela sua dimensão e capacidade técnica. E entre os seus trabalhadores se reuniram importantes núcleos militantes.

Arsenalistas da marinha, como António Marques Batista, estiveram presentes nas lutas da primeira experiência de central sindical e de sindicalismo de classe em Portugal, em 1872: a “Fraternidade Operária”, liderada por José Fontana.

Estiveram também na revolução republicana de 5 de outubro de 1910. Como José Santos Belém, civil que “na primeira hora da revolução” participou no assalto ao quartel de infantaria 16, em Campo de Ourique,“sendo, até final do movimento, o companheiro dos primeiros soldados que levantaram as armas contra a monarquia” [O Mundo, 18/11/1912, p.3].

Depois, na linha da frente da resistência contra a ditadura militar e a ditadura de Salazar salientou-se o arsenalista da marinha Bento Gonçalves, que foi secretário-geral do PCP e morreu prisioneiro do campo de concentração do Tarrafal (em 1942).

Os exemplos abundam. E na história da A Voz do Operário também há um importante contributo de arsenalistas da marinha.

Joaquim Gomes

Joaquim Gomes colaborou n’A Voz do Operário quase desde o início (1879) e até ao final da sua vida (1913).

Foi neste jornal um importante defensor das ideias socialistas, sempre apelando à consciência de classe dos trabalhadores. Evocava por vezes memórias do tempo da Fraternidade Operária e guardava um grande respeito por José Fontana.

Aquando da fundação do sindicato do Arsenal da Marinha, Joaquim Gomes já estaria reformado. Mas no seu tempo foi um activo sindicalista metalúrgico, chegando a presidir a uma associação de operários ferreiros.

Agostinho de Carvalho

Entre os sócios que mais contribuíram para que A Voz do Operário conseguisse ultrapassar o desafio de sobreviver sob uma ditadura de tipo fascista, na difícil década de 1930, esteve o arsenalista da marinha Agostinho de Carvalho. Foi nessa altura presidente da direção, da assembleia-geral e do conselho fiscal desta sociedade.

Já no início do século XX ele se empenhou noutro desafio que à época marcou A Voz do Operário: estabelecer a igualdade de direitos entre todos os sócios. Na altura só uma pequena minoria, os que eram operários tabaqueiros, tinham direito de ser eleitos para os corpos sociais.

Agostinho de Carvalho era tio do célebre anarco-sindicalista Emídio Santana, mas teve ele próprio uma notável história militante.

Em 1898, por exemplo, foi um dos fundadores da cooperativa que criou o primeiro jornal diário operário em Portugal, A Luta (lançado no 1º de Maio de 1900).

Destacado sindicalista metalúrgico no tempo da monarquia, foi um dos muitos militantes operários que então se empolgaram com a luta republicana. Preso político sob a ditadura de João Franco (ainda no reinado de D. Carlos), foi depois candidato a deputado da lista “radical” nas primeiras eleições da República (em 1911). Mas o novo regime não correspondeu às suas expectativas, até voltou a ser preso político. E em 1917 aderia ao velho Partido Socialista Português.

Agostinho de Carvalho era o sócio nº1 do Sindicato do Arsenal da Marinha. A ele coube inaugurar um retrato de Lénine na sede desse sindicato (em 1919).

Abílio Alves de Lima

Entre 1954 e 1974, o 1º secretário da assembleia-geral da Voz do Operário foi um indivíduo discreto mas com um notável currículo sindical e anti-fascista: Abílio Alves de Lima.

Ele tinha sido o secretário-geral do sindicato do Arsenal da Marinha em 1923 e de novo em 1930, além de seu delegado ao conselho da CGT (entre 1923 e 1925).

Fora também um dos fundadores da corrente sindical pró-comunista (em 1923).

Era um homem que tinha ido à Rússia dos Sovietes. Foi lá como delegado do seu sindicato ao 4º congresso da Internacional Sindical Vermelha, em 1928. E lá, em Moscovo, proferiu um discurso que reflecte bem as dificuldades e as divisões que afectavam o movimento sindical português. Segundo um resumo publicado à época, Abílio Alves de Lima:

“Assinalou a crescente repressão contra o movimento sindical, por parte do governo fascista. A actividade dos partidários da Internacional Sindical Vermelha em Portugal sofre da falta de dirigentes capazes. É necessário criar um novo centro nacional geral do movimento sindical, pois a confederação anarco-sindicalista portuguesa já não existe”[Humanité, 26/03/1928, p.3]

Segundo ele próprio contou mais tarde, ao regressar da Rússia, Abílio Alves de Lima aderiu ao PCP com Bento Gonçalves e organizaram a célula deste partido no Arsenal da Marinha. Daí, partiram para a reorganização que em 1929 lançou o PCP na resistência clandestina à ditadura. Enquanto Bento Gonçalves se tornou secretário-geral do partido, Abílío Alves de Lima assumiu a liderança da secção portuguesa do Socorro Vermelho Internacional [O Eco do Arsenal, Junho 1974, pp. 25/6].

Artigo publicado originalmente na Voz do Operário.

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