É oficial: Juan Guaidó já não é o presidente da Venezuela.
Ele nunca foi, claro. Desde 2019, quando Guaidó usou a sua posição como chefe da assembleia legislativa liderada pela oposição venezuelana para se declarar presidente de um governo "interino" que nunca governou grande coisa, os observadores têm-se divertido muito a partilhar memes do homem anunciando que ele era tudo, desde o novo monarca do Reino Unido até ao vencedor do disfuncional caucus do Iowa nas primárias de 2020. Mas a partir desta semana, Guaidó já não pode sequer usar o título de presidente fictício.
A Assembleia Nacional da Venezuela votou por setenta e dois votos contra vinte e nove na segunda-feira retirar a Guaidó a sua presidência inexistente e dissolver o seu governo provisório após quase quatro anos, com a oposição finalmente a concluir que a sua estratégia tinha falhado. O "governo" de Guaidó deveria ter tomado o poder e organizado novas eleições após a destituição do presidente Nicolás Maduro num golpe de Estado apoiado pelos EUA, mas nada disso aconteceu. Em vez disso, com a oposição a não conseguir trazer os militares para o seu lado e com os esforços de mudança de regime marcados pelo tipo de incompetência que normalmente se vê nos filmes "Academia de Polícia", Guaidó ficou a patinar, com dificuldades em organizar novos protestos do tamanho dos de 2019 e por vezes recordando ao mundo que ainda existia - como quando apoiou o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro nas eleições brasileiras deste ano.
Parecendo ter crescido na mesma placa de Petri política que Barack Obama ou Emmanuel Macron, Guaidó pretendia dar um rosto suave e liberal aos esforços de Mike Pompeo e Elliott Abrams para derrubar Maduro e substituí-lo por um governo flexível e amigo dos negócios. Mas como o seu apoio a Bolsonaro sugeria, Guaidó estava longe de ser o cruzado anódino pela democracia e anti-corrupção que muitos jornalistas retratavam.
Na verdade, parece que Guaidó era mais ou menos um fantoche do líder da oposição Leopoldo López, um (para citar o Departamento de Estado norte-americano) "arrogante, vingativo, e faminto de poder", que tinha desempenhado um papel de liderança no falhado golpe de Estado de 2002 contra Hugo Chávez. De acordo com a Associated Press, López e o seu "fiel acólito" Guaidó falavam meia dúzia de vezes todos os dias e coordenavam de perto cada um dos movimentos e discursos deste último.
Não ajudou, também, que o "governo provisório" de Guaidó - ao qual a administração de Donald Trump tinha entregue o controlo de alguns bens venezuelanos aprendidos pelos EUA - tenha sido manchado por um escândalo de corrupção, nem que o próprio "presidente" tenha aparecido em todas as manchetes erradas depois de ter sido fotografado a colocar os seus braços à volta de membros de um grupo paramilitar de traficantes colombianos. O termo do mandato de cinco anos dos legisladores da oposição em Janeiro de 2021 e o seu boicote às eleições legislativas minou ainda mais a pretensão de legitimidade do seu governo, em grande parte a única coisa que o seu governo tinha a seu favor. Quando iniciou um novo ano como "presidente interino" em 2022, Guaidó tinha tantas pretensões à presidência venezuelana como eu.
No final, Maduro agarrou-se ao poder graças ao apoio chave dos seus militares e ao apoio da Turquia, China, e Rússia. Mas o que realmente selou o destino de Guaidó foi a guerra na Ucrânia, com os consequentes choques energéticos que levaram a administração de Joe Biden e a Europa, por necessidade, a suavizarem a sua oposição a Maduro e a começarem a lidar com o seu governo e com as consideráveis reservas de petróleo que ele controlava. O simbólico punhal no coração da legitimidade de Guaidó pode muito bem ter estado na cimeira da COP27 em novembro passado no Egipto, onde Maduro teve vários convívios amigáveis com o enviado norte-americano John Kerry e líderes europeus como o presidente francês Macron, que lhe chamou precisamente "presidente".
A Venezuela ainda tem sérios desafios pela frente, incluindo a corrupção e repressão maciças que marcaram a liderança de Maduro, o problema do que irá acontecer aos bens confiscados concedidos ao "governo" da oposição agora dissolvida, e a crise política mais vasta que trouxe Guaidó ao primeiro plano. Mas uma tentativa apoiada pelos EUA para derrubar o governo da Venezuela e substituí-lo por um fantoche amigável de direita foi, para o dizer de forma suave, uma forma inadequada e destrutiva de tentar aliviar o sofrimento do seu povo, muito do qual é o resultado de sanções brutais e desnecessárias que o governo dos EUA poderia levantar a qualquer momento.
A Venezuela tem noventa e nove problemas, mas pelo menos Juan Guaidó já não é um deles.
Branko Marcetic faz parte da redação da Jacobin. Artigo publicado na Jacobin, traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.