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Realpolitik: Chevron volta a operar na Venezuela

As imagens dos funcionários da Chevron a assinarem os acordos marcam um novo momento, talvez o último e final, na crónica da morte anunciada da estratégia de destituição seguida pela administração Trump. Por Marcos Salgado.
O ministro do Petróleo venezuelano e o líder da Chevron no país assinaram o contrato no passado dia 2 de dezembro. Foto Governo Venezuela.

É uma imagem difícil de imaginar até há pouco tempo. Funcionários da companhia petrolífera americana Chevron, assinando um contrato com as autoridades do governo de Nicolás Maduro na sede da companhia petrolífera estatal PDVSA, em Caracas. E não se trata de um acordo qualquer, mas um que estabelece as condições para o reinício da extração, compra e importação de petróleo bruto da Chevron na Venezuela para o mercado dos EUA.

É o resultado inicial de uma negociação entre o governo de Joe Biden e o de Nicolás Maduro que começou há mais de um ano, com reuniões secretas e outras reuniões públicas ao mais alto nível, que continuaram apesar das cíclicas recriminações quando se acendem os microfones.

Depois, o cenário de guerra na Ucrânia permitiu à Casa Branca avançar com as negociações em busca do petróleo venezuelano para o mercado interno dos EUA. Durante estes meses, sucederam-se as declarações de lóbi da Chevron nos EUA, enquanto o Presidente Maduro salientava que a Venezuela estava disposta a vender petróleo ao Norte.

Agora a Chevron está a retomar o fornecimento de petróleo da Venezuela, e esta é sem dúvida uma boa notícia para o governo de Nicolás Maduro. Primeiro, porque o acordo traz um novo fluxo de moeda estrangeira para o Estado venezuelano. As licenças da Chevron irão aumentar a produção de petróleo e aumentar as receitas nacionais através do aumento dos lucros das empresas associadas, que devem pagar um imposto sobre o rendimento de 50% e royalties de cerca de 30% sobre cada barril de petróleo.

Em segundo lugar, a dimensão política. As imagens dos funcionários da Chevron assinando os acordos marcam um novo momento, talvez o último e final, na crónica da morte anunciada da estratégia de destituição por parte da administração Trump, com o autoproclamado Juan Guaidó como o rosto visível dentro da Venezuela. O facto de a Chevron, com a aprovação da Casa Branca, ter assinado acordos em Caracas com ministros de Nicolás Maduro não pode ser lido de outra forma.

É verdade que os Estados Unidos não reconhecem formalmente Maduro como presidente da Venezuela, que as relações diplomáticas permanecem totalmente congeladas, e que os bens da Venezuela nos Estados Unidos, especialmente a companhia petrolífera CITGO, permanecem no limbo. É também claro que os EUA mantêm no essencial as chamadas "sanções", ou seja, o bloqueio às finanças públicas venezuelanas e às empresas venezuelanas em todo o mundo.

Mas também é evidente que estes acordos foram alcançados sem que o governo de Nicolás Maduro cedesse na frente política, ou seja, sem concordar em antecipar as eleições gerais, como a oposição guaidosista queria.

Pelo contrário, as eleições estão ainda agendadas para a segunda metade de 2024. A oposição não tem nenhum candidato à vista, mas o partido no poder tem: o próprio Presidente Nicolás Maduro. Assim, embora nalguns eventos minguantes em Caracas o setor mais recalcitrante da oposição continue a alardear a suposta "ditadura" que governa a Venezuela, parece claro que a Realpolitik de Washington lhes passou por cima.


Marcos Salgado é um jornalista argentino da equipa fundadora da Telesur. correspondente de HispanTv na Venezuela, editor do Questiondigital.com. Analista associado no Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE). Artigo publicado no site estrategia.la.

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