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As vacinas da Covid e a imunidade através das células T

As explicações sobre eficácia das vacinas têm estado centradas num só aspeto da imunidade, os anticorpos, descurando o papel das células T. Há uma boa notícia: as vacinas existentes estimulam estas células para combater as variantes do SARS-CoV-2 a longo prazo. Por Burtram C. Fielding e Dewald Schoeman.
Imagem de uma célula T. Foto NIAID/Flickr.
Imagem de uma célula T. Foto NIAID/Flickr.

Ao longo deste ano, as pessoas aprenderam muito sobre vírus, vacinas e o sistema imunitário. Todos tivemos de digerir muito conhecimento científico complexo sobre quão seguras e eficazes são as vacinas contra a Covid-19.

Mas há um aspeto importante – e positivo – das vacinas que não tem sido bem comunicado. As estatísticas sobre a eficácia das vacinas contra a Covid-19 apenas se focam num aspeto da imunidade: os anticorpos. Só que há um outro aspeto: as células T, que são uma parte essencial do nosso sistema imunitário. As boas notícias são que as atuais vacinas estimulam as nossas células T a lutar contra as variantes emergentes do vírus SARS-CoV-2 a longo prazo.

Vamos recapitular como funciona o sistema imunitário.

O sistema imunitário protege-nos da várias doenças infeciosas, causadas por bactérias, vírus, fungos ou parasitas. Para fazê-lo, determina em primeiro lugar que tipo de agente infecioso, ou patogénico, está a causar a infeção. Depois monta uma resposta apropriada. Crucialmente, ao mesmo tempo, produz células de memória que podem reconhecer o mesmo agente patogénico no futuro. Isso prepara o sistema imunitário para combater potenciais reinfeções.

Se o sistema imunitário determina que é necessária uma resposta antiviral, lança uma combinação de dois tipos de imunidade. Uma é mediada pelos anticorpos e a outra é mediada por células T ou por outras células. Os anticorpos unem-se aos vírus e neutralizam-nos, impedindo-os de infetar células. Entretanto, as células T matam as células que já tenham sido infetadas pelo vírus. Apesar dos dois tipos de imunidade serem importantes no combate contra os vírus, a imunidade mediada pelas células é muito mais eficaz a erradicá-los e mais duradoura. Isto é importante na luta contra a Covid-19.

Uma arma poderosa

A investigação já conclui que a imunidade mediada pelas células é uma arma poderosa contra os coronavírus humanos, a família que inclui o SARS-CoV-2. Um estudo de 2016 mostrava que a imunidade das células T contra o coronavírus SARS persistia até onze anos. Fornecia uma proteção completa, eficaz e duradoura contra o SARS.

A nossa própria investigação recente defende que dever-nos-íamos focar mais no desenvolvimento de vacinas que sejam capazes de produzir anticorpos mas desencadeiem predominantemente resposta imunitária mediada por células contra a SARS-CoV-2 e as suas variantes. E, apesar de a maioria das pessoas não o saberem, as atuais vacinas contra a Covid-19 oferecem uma resiliente resposta imunitária mediada por células.

Não são só os anticorpos

O sistema imunitário é geralmente bastante eficaz a erradicar a maior parte dos elementos patogénicos. Mas nem todos os sistemas imunitários são igualmente eficazes a lidar com o mesmo elemento patogénico; por vezes precisam de alguma ajuda. As vacinas treinam o sistema imunitário para reconhecer e responder a um patogénico particular sem ser preciso que se tenha sido infetado por ele antes.

Tradicionalmente, a maior parte das vacinas contém apenas uma pequena parte do elemento patogénico. Isto prepara o sistema imunitário ao imitar a infeção natural. As atuais vacinas usadas na África do Sul contêm pequenas porções dos peplómeros do SARS-CoV-2 original – o coronavírus responsável pelo surto inicial de Covid-19.

Mas, à medida que a pandemia progredia, o vírus mutou. As mutações nos peplómeros conferem algumas vantagens adaptativas ao vírus. Algumas destas mutações fizeram com que o vírus fosse mais fácil de transmitir ou ajudaram-no a escapar ao sistema imunitário. A emergência de variantes tem levantado preocupações sobre a eficácia das vacinas existentes.

Ao longo do curso da pandemia, notícias e comunicados informaram sobre a eficácia e eficiência das várias vacinas contra as variantes emergentes da Covid-19. Mas focaram-se quase exclusivamente na capacidade dos anticorpos induzidos pela vacina e quão eficazes são a neutralizar variantes.

Uma resposta imunitária mediada por células resilientes

Este foco nos anticorpos significou que qualquer notícia sobre a diminuição da eficácia contra as variantes emergentes fosse tomada como prova de que as vacinas poderiam não funcionar bem a longo prazo. Isto pode conduzir a uma falta de confiança do público na ciência por detrás da conceção das vacinas contra a Covid-19. E esta falta de confiança pode contribuir para os negacionismos da vacina. Afinal, poderão alguns argumentar, porquê tomar uma vacina que parece cada vez menos eficaz contra cada uma das novas variantes?

De facto, vários estudos recentes demonstraram que apesar de algumas variantes conseguirem escapar aos anticorpos neutralizantes, a resposta imunitária mediada pelas células que é induzida pela maior parte das atuais vacinas contra a Covid-19 é muito resiliente e permanece eficaz.

Apesar de os anticorpos induzidos pelas vacinas serem capazes de se ligar com as variantes, são menos capazes de as neutralizar. As células T foram, por outro lado, em larga medida tão sensíveis às variantes como o eram ao vírus original. Eram ainda capazes de reconhecer e responder eficazmente às variantes, conferindo uma proteção resiliente contra a doença.

Até à data, apenas a Johnson & Johnson lançou um comunicado de imprensa que inclui estatísticas com ambas as respostas imunitárias induzidas pela sua vacina.

A investigação mostra que os níveis de anticorpos produzidos pelas diferentes vacinas diminui ao longo do tempo e, apesar da imunidade variar de pessoa para pessoa, a imunidade resultante das vacinas da Pfizer e da Johnson & Johnson dura tipicamente pelo menos seis meses.

Construir confiança pública

O negacionismo das vacinas é um obstáculo importante na luta contra a pandemia. Um inquérito recente mostrava que apenas 72% dos sul-africanos se mostravam disponíveis para serem vacinados contra a Covid-19.

A ideia de que “a vacina vai ser ineficaz” era uma das razões mais comuns que as pessoas davam para a relutância em vacinar-se. Isto não é surpreendente se as pessoas estão a ouvir apenas que parte da resposta imunitária se torna menos eficaz contra as variantes emergentes.

A confiança pública nas vacinas depende das pessoas compreenderem a eficácia completa da resposta imunitária induzida pelas vacinas e de apresentar as estatísticas acerca de ambos os tipos de respostas às diferentes variantes. As atuais vacinas contra a Covid-19 oferecem uma resposta imunitária mediada por células que é resiliente. Saber isto pode ajudar a que as pessoas tomem uma decisão informada acerca da vacinação.


Burtram C. Fielding é professor e diretor de investigação na Universidade do Cabo Ocidental.

Dewald Schoeman é doutorando em Biologia Molecular e virologia na mesma universidade.

Texto publicado originalmente no The Conversation. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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