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Será que as mulheres voltarão a pagar pela crise?

Durante o confinamento, as mulheres foram mais afetadas pela perda de emprego, agravou-se a sua carga de trabalho com o teletrabalho, fazendo a maior parte do trabalho reprodutivo. Trabalhos de cuidados e domésticos, essenciais mas precarizados e mal pagos, são predominantemente femininos. Por Fanny Gallot.
Mulheres.
Foto publicada em Contretemps.

Historicamente, os tempos de crise económica têm sido particularmente maus para os direitos das mulheres. Na década de 1930, o desemprego era utilizado como justificação para o regresso das mulheres casadas ao lar; durante a década de 1970, este discurso reapareceu esporadicamente: o trabalho remunerado das mulheres era considerado como secundário relativamente ao dos seus maridos, com o salário das mulheres a constituir um salário extra, um suplemento para o lar.

O inquérito Coconel, realizado entre 1 a 5 de Maio a partir de uma amostra de 2003 de pessoas representativas da população francesa, mostra que as disparidades de género aumentaram, enquanto que nos últimos cinquenta anos tiveram tendência a diminuir. Hoje, quando despedimentos e crescente insegurança no emprego estão no horizonte – o inquérito Coconel sublinha que "entre aquelas que estavam empregadas a 1 de Março de 2020, apenas duas em cada três continuavam a trabalhar dois meses depois, em comparação com três em cada quatro homens" – e as mulheres continuam a ocupar a maioria dos empregos a tempo parcial, salários baixos e empregos não qualificados, será que mais uma vez vão pagar o preço da crise?

Uma investigação britânica mostra que as mulheres estão a ser já mais afetadas pelo trabalho a tempo parcial: como ganham menos do que os seus parceiros, nos casais heterossexuais, parece muitas vezes lógico às famílias que sejam elas a recorrer a este para que o pai possa assumir a sua profissão[1]. Depois há a questão do regresso ao trabalho, tendo em conta que 80% das pessoas em situação de emprego precário são mulheres. Tal como Manon Garcia corretamente assinala no Libération:

"As pessoas que mais sofrem com a situação são as que já se encontravam numa situação vulnerável: migrantes, sem-abrigo, trabalhadores pobres, prostitutas, trabalhadores do setor dos cuidados, mães solteiras. Por vezes, parece que esta crise significa que as pessoas têm estado presas em casa a ter de fazer teletrabalho enquanto cuidam dos seus filhos. Mas foi isto que aconteceu... aos privilegiados. Na realidade, para muitos, a crise significa a perda das suas fontes de rendimento, a perda da assistência material das associações, a obrigação de trabalhar ainda mais do que o habitual, pondo em risco a sua saúde e a dos membros da sua família. »[2]

E de facto, a crise de saúde teve um impacto nas famílias populares e a necessidade de ajuda alimentar persiste após o confinamento, especialmente nas famílias mono-parentais onde as mulheres são as únicas responsáveis pela sobrevivência de todos.

Encontramo-nos atualmente numa encruzilhada. A nova dinâmica feminista global tem vindo a pesar há vários anos, irrigando e reconfigurando os movimentos sociais, como vimos durante as greves contra a reforma das pensões. O período de confinamento tem sido particularmente duro para as mulheres, que ainda são em grande parte responsáveis pelo trabalho reprodutivo em casa, frequentemente combinado com o teletrabalho para algumas, ou literalmente "na linha da frente" para outras. Do teletrabalho ao trabalho livre e ao trabalho invisível, a precariedade continuou a combinar-se para as mulheres no último período. Hoje, algumas semanas após o desconfinamento, está em curso a revalorização dos "empregos dominados pelas mulheres", aqueles com uma mão-de-obra predominantemente feminina, pelo menos nos meios de comunicação social.

Teletrabalho, uma reafetação para a esfera doméstica

Durante o confinamento, a propagação do teletrabalho, a escolarização em casa e a presença permanente de crianças aumentou ainda mais a pressão sobre as mulheres em termos de carga mental e atividade doméstica. Um bom negócio para alguns empregadores – particularmente universidades: e a utilização do teletrabalho pode aumentar ainda mais. Contudo, o inquérito Coconel mostra que as condições de teletrabalho são muito diferentes entre mulheres e homens: quase metade das mães passou cerca de quatro horas extraordinárias por dia a cuidar das crianças, enquanto apenas um quarto dos pais o fazia. Além disso, os pais eram mais frequentemente capazes de se isolar, enquanto as mães tinham de permanecer disponíveis para os seus filhos.[3]

Além disso, no seu inquérito sobre as “Mompreneurs” [neologismo que se refere às empresárias que conjugam esse papel com o de mães – nota da tradução], a socióloga Julie Landour interroga-se sobre estas "mulheres que criam os seus negócios após a chegada de uma criança"[4] e trabalham a partir de casa. Entre as suas descobertas, ela sublinha a medida em que "o trabalho doméstico invade, mais ou menos progressivamente, o tempo profissional"[5]. Como esperado, este inquérito e vários outros mostram os efeitos nocivos do teletrabalho para a atividade profissional das mulheres. Se esta opção tender a desenvolver-se à medida que for surgindo, não há dúvida de que levará a uma reafetação das mulheres para a esfera doméstica.

Trabalhadoras domésticas: acabar com a precariedade!

Para as trabalhadoras domésticas e para as trabalhadoras do setor dos cuidados ao domicílio, as semanas de confinamento foram muito difíceis e as perspetivas futuras não são brilhantes. Durante longas semanas, as primeiros não foram solicitadas e, portanto, viram-se total ou parcialmente desempregadas, enquanto as segundos tiveram de ir trabalhar sem máscaras, sem que as medidas de higiene fossem respeitadas, embora na maioria das vezes tomassem conta de pessoas idosas. Atualmente, algumas trabalhadores domésticas estão a lutar para encontrar empregadores, como aponta Alizée Delpierre. Além disso, como auxiliares de vida ou assistentes de idosos, "com contratos de 20 a 30 horas por semana contratadas por associações ou empresas privadas ou pagas à tarefa, estas mulheres, são privadas de benefícios da Segurança Social devido à multiplicação de contratos curtos, encontrando-se sem qualquer outro rendimento que não seja o RSI quando o seu paciente morre, até que o seu empregador encontre um novo cliente", diz Barbara Filhol da CGT Action Sociale [6]. E, obviamente, estas situações de vulnerabilidade aumentaram devido ao excesso de mortalidade ligado à covid-19.

É claro que é com a precariedade que temos de acabar! Estes dias retalhados que se eternizam e que são mal pagos... constituem a vida quotidiana de centenas de milhares de mulheres – muitas racializadas – das classes trabalhadoras. No movimento dos Coletes Amarelos, elas já tinham expressado a sua insatisfação com esta precariedade. Atualmente, a contradição é ainda mais flagrante: embora o seu trabalho seja essencial, é realizado nas condições mais precárias, através de trabalho temporário ou subcontratação.

O voluntariado e o trabalho gratuito: a generalização de um embuste?

Durante o confinamento, as mulheres constituíram um importante batalhão de trabalho gratuito que se generalizou, por exemplo, na confeção de máscaras. De facto, em muitas regiões, costureiras voluntárias foram mobilizadas para suprir a escassez de máscaras. No Aude, por exemplo, uma página do Facebook foi dedicada a esta mobilização de "costureiras solidárias" e, em poucas semanas, formou uma rede de 70 costureiras. Mas não é tudo, o recurso massivo a estudantes de enfermagem em estágio durante a crise sanitária por cerca de um euro por hora foi exaustivament invocado pela imprensa. Na maioria das vezes, estas estudantes eram mulheres precárias. Como escreve a socióloga Maud Simonet, este "trabalho gratuito" não é novo e tem mesmo tendência a desenvolver-se; é um dos aspetos das políticas neoliberais. Nos Estados Unidos em particular, o trabalho voluntário de classe alta, uma forma de caridade modernizada, é utilizado para justificar o trabalho gratuito extorquido aos beneficiários das prestações sociais mínimas. Em França, "o trabalho gratuito de estudantes de enfermagem organizado pelo Estado, uma espécie de trabalho voluntário forçado ou pelo menos imposto, lembra-nos que o trabalho gratuito de uns não é o trabalho gratuito de outros".

No que diz respeito às costureiras e enfermeiras, é na desqualificação do trabalho e na naturalização das competências das mulheres que estas políticas e/ou impulsos de solidariedade se baseiam: estaria na "natureza" das mulheres oferecer o seu tempo e trabalho, e assumir riscos, proteger e cuidar daqueles que dele necessitam. Mesmo que este impulso "natural" seja imposto pelo Estado.

Revalorizar o trabalho reprodutivo

Do trabalho assalariado ao trabalho voluntário, passando pelo trabalho doméstico, as mulheres estiveram estado na linha da frente durante o confinamento, frequentemente os primeiros dessa linha eram primeiras. Assumiram o trabalho reprodutivo no sentido de que este permite a reprodução da vida, e é através do cuidado com os outros em todas as suas dimensões, da escuta, da partilha e da solidariedade que podemos sobreviver ao capitalismo e às suas crises. Acima de tudo, é sobre estas bases que devemos construir uma sociedade baseada nas necessidades e não nos lucros. Este trabalho deve, portanto, ser devidamente reconhecido.

Depois do fim do confinamento, a revalorização dos empregos predominantemente femininos está na ordem do dia, começando pelas enfermeiras, enfermeiras, auxiliares de saúde, trabalhadoras das caixas de supermercado e auxiliares ao domicílio que estiveram na linha da frente face à crise de saúde. A reportagem do programa Cash Investigation de 19 de Maio foi dedicada à igualdade profissional, ao mesmo tempo que uma petição de investigadores e sindicalistas exigindo a revalorização de "empregos e carreiras predominantemente femininas" recolhia quase 65.000 assinaturas. Abriu-se uma brecha para a revalorização de empregos e carreiras predominantemente femininas, no momento pós-confinamento. Como Rachel Silvera escreve: "Os empregos socialmente mais úteis são os menos remunerados": há uma necessidade urgente de inverter as prioridades.

Ao mesmo tempo, as ativistas feministas apresentaram a "fatura" do trabalho doméstico das mulheres no Dia das Mães:

"A nossa fatura é a que enviamos ao Estado, que descarregou o peso dos gastos socializados em cima das mulheres, tais como a escolaridade e os cuidados com dependentes. A nossa fatura é simbólica: queremos tornar visível o trabalho gratuito das mulheres que beneficia os homens e o Estado. Queremos, para o mundo futuro, políticas públicas feministas.”

Em conclusão, há portanto uma necessidade urgente de reduzir as desigualdades entre mulheres e homens, aumentando o valor do trabalho reprodutivo, protegendo as mulheres da perda de emprego, reduzindo o lay-off imposto às mulheres, invertendo a reforma do subsídio de desemprego, que restringe o acesso aos direitos numa altura em que se espera que muitas pessoas sejam despedidas, e assim por diante. Mais do que nunca, não podem ser as mulheres a pagar pelas crises sanitárias e económicas. Cabe-nos a nós assegurar que a dinâmica feminista impeça que isto aconteça. E a reação generalizada à “remodelação da vergonha” [nome que alguns movimentos feministas deram à remodelação do governo francês que levou ao governo um ministro do Interior acusado de violação – nota da tradução] anuncia o reinício do protesto feminista no início do novo ano letivo.


Fanny Gallot é professora de Estudos de Género na Universidade Paris-Est Créteil, historiadora e sindicalista.

Publicado no Contretemps. Tradução de Raquel Azevedo para o Esquerda.net.


Notas

[1] Instituto de Estudos Fiscais e Instituto de Educação, inquéritos realizados entre 29 de Abril e 15 de Maio a 3.500 famílias de dois progenitores de sexo oposto empregadas.

[2] Manon Garcia, "Não há mais desculpa para justificar a atribuição do trabalho doméstico só às mulheres", Libération, 5 de Junho de 2020.

[3] Mathilde Damgé, "O aumento das desigualdades de género durante o confinamento em gráficos ", 9 de Julho de 2020, artigo baseado no artigo científico de Anne Lambert et alii, "Trabalho e acomodação: o que mudou a pandemia com Covid-19 para os Franceses", Population et Sociétés, n°579, Julho de 2020.

[4] Julie Landour, Sociologia dos Empresários, empreendedorismo para conciliar trabalho e família, Impressos Universitárias do Setentrião, p.14.

[5] Ibid., p. 130.

[6] Clotilde Mathieu, "A CGT denúncia um novo ataque contra os desempregados," L'humanité, 26 de Maio de 2020.

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