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Rio Tejo: “Precisamos de salvá-lo urgentemente”

A coordenadora do grupo de trabalho da água na Associação Zero diz que é preciso salvar o Tejo. Em entrevista à Notícias Magazine, a ambientalista Carla Graça denuncia que, “em duas décadas, o rio perdeu 25 por cento da sua água”, e alerta que é preciso levantar a voz a Espanha.
Manifestantes contra a poluição do rio Tejo, em Vila Velha de Rodão.

Para Carla Graça, a perda de caudal do rio Tejo, o maior da Península Ibérica, deve-se às “secas cada vez mais frequentes”, mas também aos “transvases de água feitos em Espanha”.

“A água que chega a Portugal vem em cada vez menor quantidade e com níveis de poluição cada vez mais elevados”, denuncia a ambientalista que estuda o rio que desagua na capital portuguesa, sublinhando ainda que o desvio de parte do caudal do rio em território espanhol está mesmo a fazer com que, “quando chega às regiões de Madrid e Toledo”, o Tejo esteja “a circular com um caudal baixíssimo”.

A ambientalista da Zero refere ainda que, nestas cidades espanholas, com forte densidade populacional, não tratam os resíduos urbanos de forma adequada, pelo que “a água que chega de Espanha à fronteira é de má qualidade”.

“Depois vai recuperando, tanto no caudal como na qualidade, por causa dos afluentes portugueses. Mas há sérios problemas. E também do lado de cá", acrescenta.

Esta situação poderá, segundo Carla Graça, levar com que, ao longo do tempo, o rio Tejo possa desaparecer. É o que também prevê a reportagem do jornal The Guardian, que falou com uma série de ambientalistas espanhóis.

Neste contexto, Carla Graça defende que o Governo português deve renegociar urgentemente a Convenção de Albufeira, assinada entre Portugal e Espanha em 1998, que rege em teoria os caudais dos rios internacionais.

“O que acontece agora é que Madrid está obrigado a cumprir um determinado caudal, e são feitas medições semanais e mensais para determinar que o país cumpre o contrato. O problema é que nem sempre há continuidade – os números semanais podem ser atingidos fechando a torneira seis dias e abrindo-a apenas no sétimo”, diz Carla Graça, frisando que “isto cria problemas muito graves de viabilidade do rio”.

Acresce que “em períodos de seca o acordo é interrompido. Como não sabemos quanta água é transvasada por Espanha é difícil percebermos se o fecho de torneiras é ou não legítimo".

Segundo a ambientalista, "Portugal tem muitas culpas no cartório por não se saber impor face a Madrid”: “Deixámos que o transvase de águas pudesse ser colocado na esfera da soberania do país vizinho sem que acautelássemos os interesses nacionais”, avança.

A representante da Zero refere, porém, que renegociar a convenção de Albufeira não seria o suficiente para evitar o fim do rio Tejo: “Precisamos de trabalhar em conjunto num novo modelo de gestão que fiscalize poluentes, regule a constância dos caudais, faça aproveitamentos fluviais. A nossa agricultura, quase toda de regadio, terá se se virar para o sequeiro”.

“O Tejo está a morrer e precisamos de salvá-lo urgentemente”, alerta.

No seguimento da entrevista, a ativista da Zero destaca ainda que Espanha tem recorrido às questões de soberania, como no caso dos transvases, para não informar Portugal. Carla Graça recorda a fuga radioativa, de 1986, na central de Almaraz: “as autoridades portuguesas não foram sequer informadas, só souberam porque Portugal tem as suas próprias estações de monitorização. O corte de abastecimento de água a Lisboa chegou a ser equacionado sem que Espanha se dignasse a dizer uma palavra”.

Em relação à construção do novo armazém da central de Almaraz, acontece o mesmo. Portugal pediu explicações a Espanha sobre o novo armazém da central nuclear de Almaraz “mas Espanha nem se dignou a responder – e isso mostra bem a atitude das autoridades de Madrid”, assinala a ambientalista.

Sobre a avaliação do rio em termos de radioatividade, Carla Graça aponta que “o Tejo tem de longe os mais elevados níveis de radioatividade dos rios portugueses, mas esses níveis estão abaixo do limiar de segurança”.

Do lado português, os maiores contributos para a poluição do Tejo estão identificados e Carla Graça apoia-se nos dados da comissão de acompanhamento da Poluição do Tejo para os sinalizar. Os maiores poluidores são empresas e operam em Vila Velha de Ródão: a “Celtejo, uma empresa de celulose, e a Centroliva, de transformação de azeitona. Esta última viu a sua atividade ser suspensa em fevereiro, estava a fazer combustão de biomassa altamente tóxica. Depois há descargas de metais pesados, nomeadamente níquel, cuja origem é muito provavelmente a indústria de celulose. São tóxicos e entram na cadeia alimentar”.

A ambientalista adverte ainda que a vaga de incêndios em redor da bacia hidrográfica do Tejo irá afetar a qualidade da água.

“Quando chegarem as primeiras chuvas vai ser inevitável que a biomassa carbonizada vá parar ao Tejo. Isto vai trazer componentes tóxicas para uma água que já regista níveis de fósforo três vezes superiores ao limite. Isto afeta a água que consumimos. Sobretudo na região de Lisboa, que é abastecida a partir de Castelo de Bode, no Zêzere, e onde se registaram incêndios de grande escala”, refere.

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