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Revolução, continuidade ou como as mudanças subtis por vezes são profundas

O bloqueio continua ativo e cada dia (literalmente) mais feroz. Mas Cuba deixou de o entender como desculpa para os seus problemas e compreendeu que tem condições para não ficar refém do que os EUA decidam. Por José Manuel do Carmo, em Havana.
Paseo de Martí, Havana. Foto Kevin Chung/Flickr

Não se poderá dizer, como diz um texto que me enviaram de um residente em Cuba, publicado numa revista francesa de tendência supostamente anarquista, que “Cuba é um dos últimos países do bloco socialista cujo regime ainda se mantém". Em boa verdade, se desapareceu a União Soviética, em contrapartida a China ganhou protagonismo no mundo, o Vietname tornou-se um país tecnologicamente desenvolvido, a Coreia do Norte “faz peito” sem medo aos EUA, e sobretudo, as tendências de esquerda ganharam influência a ponto de disputar a liderança em muitos países, que embora longe de serem “comunistas”, alguns estão perto de receber esse rótulo, evidentemente entre aspas, de alguns setores da direita.

Efetivamente, ao tomar o poder, fazer depois a revolução implicou uma rotura histórica e, sobretudo nessa época, as propostas socializantes de Fidel não poderiam senão obter a mais radical reação do poderoso vizinho, símbolo do capitalismo e já nessa época senhor do mundo. Também, nessa época, os revolucionários não se limitaram a dizer que queriam construir um socialismo na sua terra, afirmaram-se farol da luta dos povos contra o capitalismo e a opressão do imperialismo americano. Muito justamente. Porém os EUA não o poderiam permitir. Invasão de “bandidos armados” tentando fazer o que mais tarde o Che tentou noutros lugares, isto é, criar instabilidade, disputar o terreno e ganhar o povo para o seu lado, pensando que as propostas revolucionárias de Fidel seriam rejeitadas por um povo inculto e preso a tradições de submissão, profundamente religioso e com temor aos senhores das terras. No entanto, enganaram-se. A invasão da chamada “Baía dos Porcos” foi mesmo a sério, com aviação e bombardeios e tudo. Partiram dos EUA, armados nos EUA e financiados nos EUA, com o apoio logístico dos sindicatos dos camionistas e da Mafia, voltaram a enganar-se. E em cada uma destas vezes ajudaram o regime a reforçar-se; a entrosar-se ainda mais com o povo e a criar mais um símbolo pátrio, assim como a batalha de Aljubarrota serve o nacionalismo português. No entanto os EUA não sabiam de nada, mas também mostraram que lhes parecia muito bem que isso acontecesse e como esse método falhou, o Kennedy decretou leis para isolar economicamente Cuba. E daí em diante foi uma série de tentativas de terrorismo urbano, de tentativa de assassínio de altos dirigentes, incluindo uma centena (dizem) de tentativas de assassínio do Fidel. Que mais podia um regime fazer senão procurar apoios, em especial, naqueles que não temiam, ou mesmo se enfrentavam aos EUA. A União Soviética foi o aliado inevitável e absolutamente necessário. E mesmo desejável, já que perfilhavam princípios socialistas comuns e era o único país no mundo que, na época, poderia fazer frente aos EUA.

Não sei nada da economia cubana antes da revolução, no entanto, pós revolução aconteceu o que sempre acontece num país dependente de uma potência neocolonial. Entrega as suas possíveis produções primárias e empobrece lentamente comprando produção industrial. No caso cubano, a importância estratégica que possuía para a União Soviética, rendeu bem mais. Entrou capital bem acima do valor das exportações. Os cubanos acham que se viveu bem nesse tempo. No entanto, para essa visão conta muito a impossibilidade de comparação por ação de uma propaganda que apresentava a vida nos países capitalistas como um verdadeiro inferno para o povo. Mas sobretudo, no campo político, é fundamental a formação de quadros, a reconstrução do Partido e a mimetização dos esquemas de enquadramento “soviéticos”, com uma repressão fortíssima sobre os desvios sociais, da religião, à cultura e às orientações sexuais. Importa destacar que toda a intelectualidade apoiou e participou ativamente na luta contra a ditadura e na própria revolução, mas a ortodoxia da sovietização castrou toda uma geração (ou duas) de, sobretudo escritores, em nome de desvios pequeno burgueses. Saber-se que alguém gostava dos Beatles, era a ostracização social e o bloqueio na carreira profissional. Não obstante na coluna do Fidel haver um padre que batizava no caminho. Não obstante haver uma tendência do catolicismo que sempre apoiou Fidel e a revolução, a repressão foi muito forte. As pessoas com tendência religiosa eram “marcadas” e as práticas religiosas reprimidas. As pessoas crentes em algum tipo de deus tinham que fazer as suas rotinas religiosas em segredo, clandestinamente. Foi preciso cair a União Soviética para se ouvir rock em Cuba ou se saber da grande amizade entre Fidel e Frei Beto. Onde andaria ele há uns anos atrás?! Cabe perguntar por que razão não foi publicado o livro “Fidel e a religião” uns quantos anos atrás. Algumas dessas histórias de repressão estão contadas em livros e filmes, paradoxalmente, produzidos em Cuba e com a chancela do Estado. Como uma espécie de autocrítica envergonhada de um regime que nunca admite erros. Se a lógica social-imperialista levou à repressão, na economia, levou à quase total destruição da capacidade produtiva industrial e o abandono dos campos. A explosão repentina da “pátria socialista”, fez desaparecer de um dia ao outro a grande teta da URSS. O “período especial” foi efetivamente uma época de penúria extrema num quadro em que a sociedade não tinha potencial criativo e frente a um inimigo poderoso e sem misericórdia. Apenas foi possível sobreviver devido à forte implantação do partido, tanto nas estruturas, como, e principalmente, no povo.

As soluções encontradas foram a abertura ao turismo, bem conseguida, sobretudo com parceiros estratégicos em Espanha, de certo modo semelhante à abertura portuguesa dos anos 60; na entrega da exploração do níquel a canadianos; pela abertura à emigração, que embora já existisse, foi liberalizada, contribuindo as remessas para a sobrevivência das famílias e o equilíbrio da balança financeira. Também, aos poucos, a cooperação médica traduziu-se pela rentabilização deste know-how como exportação, rendendo as oitenta e tal parcerias com países estrangeiros uma percentagem muito elevada do PIB e correspondente entrada de capital estrangeiro. Importa salientar que a saúde em todos os seus aspetos, como a educação, foram dois domínios em que efetivamente Cuba investiu de modo contínuo ao longo dos anos, pelo que tem um sistema de formação bem desenvolvido e um sistema médico bem desenvolvido, e os aspetos negativos têm que ver com as dificuldades de financiamento em material e renovação física das estruturas. Acresce a escola internacional de medicina que recebe para formação centenas de jovens de países carenciados, mas também de países onde o custo da formação não permitiria o acesso a muitos, do Brasil ao Canadá e, por incrível que pareça, EUA. São também centenas os jovens que frequentam cursos superiores e pós graduações em Universidades cubanas. Tudo isto contribui para o esforço de internacionalização da economia cubana. É certo que a ligação à Venezuela trouxe algum alívio na questão do petróleo, no entanto não terá sido a resolução do problema e muito menos permitiu um novo “encostar à bananeira”. O valor da ligação à Venezuela é sobretudo político.

Um novo rumo. Com Raul começa de facto a desenvolver-se um projeto para o país. Revolução na continuidade e continuidade na revolução. Um período de renovação no modo de direção, de renovação de quadros, mais espaço para a liderança baseada no conhecimento, sem prejuízo de um rigor político na seleção dos quadros. Abertura ao capital estrangeiro em grandes projetos, da indústria à agricultura; criação da zona franca de Mariel (lembra-me da abertura ao capital estrangeiro em Sines). Sobretudo na agricultura, uma pressão política enorme no desenvolvimento das potencialidades de ocupação da terra, trazendo para a produção milhares de hectares de terra inculta, abandonada ao longo de 60 anos de revolução, com a entrega de terra a agricultores independentes e um esforço na dinamização das cooperativas unidades de produção agrícola estatais, com o propósito de aumentar significativamente a capacidade de autoabastecimento alimentar; mas nota-se também um esforço na indústria transformadora destes produtos, expressamente com vista à sua entrada no mercado internacional. Seria importante se pudesse dizer algo sobre o formato e perfil desse investimento estrangeiro, infelizmente não tenho informação. O bloqueio continua ativo e cada dia (literalmente) mais feroz, no entanto, embora na informação o bloqueio continue a ser o argumento que explica as dificuldades, Cuba passou a uma fase em que o considera parte do contexto, ie., deixou de o entender como desculpa para os seus problemas e, finalmente, compreendeu que tem condições suficientes para se desenvolver e não ficar refém do que os EUA decidam. O bloqueio não impede a exploração do níquel por empresas canadianas; as cadeias europeias que exploram a hotelaria em Cuba não parecem preocupadas com as ameaças americanas; o bloqueio não impede a exportação da famosa lagosta, nem do camarão de Cuba à venda nos supermercados de Paris; o frango que se compra em Havana, ou vem do Brasil ou dos EUA. Se continua a ser difícil atrair mais capital estrangeiro é mais pela regras cubanas que por medo dos EUA. Ao contrário do que diz o autor do tal artigo, Cuba quer abrir-se ao capital estrangeiro, evitando cair na “economia de mercado” e claro, isso será uma dificuldade que terão que gerir com muito cuidado. Agora sim, parece ter deixado de vez a teta da URSSa e o complexo de neocolónia, libertando-se por fim da bota estalinista.

Equipamento para podar árvores e outro equipamento pesado, mas também veículos de recolha de lixo, ofertas do povo japonês e austríaco.

 

Além do mais, uma tremenda experiência diplomática tem sabido gerir os ventos e sempre conseguir simpatias e solidariedades, por vezes impensáveis. Acaba de receber 80 toneladas de material médico dos Emiratos Árabes Unidos e coisa semelhante de amigos da esquerda alemã e partiu uma brigada médica para o Kuwait, enfim, países que de um modo ou outro não costumam, ou costumavam, desobedecer aos EUA.

Pesem as diferenças com o entendemos ser um socialismo que liberte, um socialismo, mesmo de democracia popular dos nossos dias, o regime cubano é fruto desse mesmo desejo, no entanto o seu desenvolvimento resulta das circunstâncias históricas e, mesmo que não seja possível resgatá-lo desse passado de neocolónia do social-imperialismo, é necessário entender que está do mesmo lado da barricada contra o imperialismo. Numa época em que se discute por onde passa a linha de fronteira à direita contra o neoliberalismo, não podemos deixar de abraçar os que pensam como nós em muitas questões, embora outras rejeitemos em absoluto.


Artigo de José Manuel do Carmo.

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