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A pandemia vista de Havana

Casos iniciais importados por turistas, fronteiras fechadas e fortes medidas de confinamento, foi esta a resposta inicial de Cuba. Por José Manuel Carmo.
Autocarro das carreiras urbanas suspensas adstrito a carreira específica para recolher o pessoal da saúde junto a um dos Centros de Saúde.
Autocarro das carreiras urbanas suspensas adstrito a carreira específica para recolher o pessoal da saúde junto a um dos Centros de Saúde. Foto José Manuel Carmo.

Sem intenção de grande rigor de datas ou de ordem cronológica de eventos, o que se pretende é dar uma panorâmica do processo de abordagem cubana à proliferação do coronavírus.

Os primeiros casos ocorreram a 11 de março. Turistas italianos em visita à cidade de Trinidad. E depois outros mais, italianos, espanhóis e canadianos. Isolados os turistas e todos os que com eles contactaram, mas a semente estava lançada. A 24 de março fecham as fronteiras. Apenas voos programados para poderem sair turistas e permitir a entrada de cubanos apanhados no exterior, mas evidentemente, estes foram uma nova vaga de entrada de vírus. No entanto as medidas de confinamento destes e seus contatos foram rigorosas, pelo menos se pensa. Logo desde os primeiros casos, ainda antes dos contágios entre locais se apelou à população a resguardar-se de modo muito a sério. Uma sufocante campanha de informação alertando para a obrigatoriedade de usar a máscara, embora se possa sair a passear; uma campanha “popular” para as pessoas fazerem máscaras em casa com os seus restos de tecido e oferecerem aos vizinhos; a insistência em lavar as mãos muito frequentemente, a disponibilização de lixívia para os sapatos à entrada de casa e para lavar mãos, seja à entrada de casa, seja em qualquer estabelecimento. A primeira coisa a encerrar foi tudo o que implicava atendimento público, espetáculos como cinemas, teatros e logo depois escolas, restaurantes, bares, etc. Apenas ficaram alguns restaurantes estatais com lotação limitada a uma mesa sim uma mesa não e mesmo esses muito pouco tempo depois também encerraram. Subsistem alguns que fornecem comida para fora e alguns oferecem comida ao domicílio. Basta telefonar (claro, se funciona bem, é outra questão!). E subsistem pequenos quiosques que vendem bebidas não alcoólicas para levar, mas não têm frio para não incentivar o consumo na rua. 

A 10 de Abril entrou a fase de maior rigor que se traduziu na prática por terminarem radicalmente todos os transportes públicos urbanos e interegionais, incluindo táxis. No entanto a vida económica não parou. Criou-se uma rede de transporte apenas para as empresas. Na verdade a rede de “transporte obrero” já existia, apenas foi reforçada com os autocarros disponíveis da rede pública. Os táxis passaram a estar organizadamente ao serviço da rede de saúde. Doentes “normais”, e outras deslocações de serviço, incluindo o transporte de amostras para análise. Portanto, uma pessoa apenas se desloca uma légua à sua volta. No entanto, quem tem carro vai onde quiser.

O regime cubano compreendeu a diferença entre o sistema doença e o sistema atividade económica como duas realidades distintas. Lixou-se quanto ao turismo, mas quanto ao resto pensou bem. As empresas controlam a saúde dos seus trabalhadores e garantem o seu transporte e a economia funciona. A responsabilidade social das empresas não é dar uns subsídios para os festivais, que não são senão publicidade encapotada. Se há problemas na economia em Cuba, elas não derivam da doença, mas de outras causas. Nesta lógica de manter a atividade económica, no princípio quiseram manter o turismo: Cada voo deu um foco de infeção. Por um punhado de dólares contaminaram o país, mas já com o mal feito suspenderam todo o tráfego aéreo. Na verdade foi pelos turistas que a coisa começou. 

Creio que de modo muito rigoroso controlaram os casos, identificando os seus contactos e isolando-os em quarentenas em hotéis, escolas, instalações militares, o que seria inconstitucional em Portugal, por exemplo. No entanto a constituição daqui permite-o, pois desde há muito que têm problemas de saúde como o dengue e outras, o que é aceitável no quadro da defesa das populações. A lógica é que a liberdade individual de um tonto não pode pôr em causa a saúde de uma população. Não me parece mal. Evidentemente que não houve a manifestação do 1º de Maio. E como lhes custou decidir pela primeira vez desde a Revolução, há 60 anos, não festejar o dia maior da luta dos trabalhadores, mas é evidente que para quem fala do povo tem em conta a saúde do povo em 1º lugar. Os sindicatos festejaram o 1º de Maio dentro de cada uma das empresas. Não é como em Portugal que os sindicatos deram um sinal de irresponsabilidade ao desvalorizar o rigor das medidas de mitigação e a provocar a proliferação. Sigam as orientações do PCCuba: Fiquem em casa!

O outro ponto fraco é o abastecimento alimentar, mas esse já era antes. Agora agravou-se pois as bichas à porta das lojas onde se sabe que vai haver frango, ovos ou detergente ou o que seja são enormes e descontroladas, embora haja uma tentativa, com polícia e tudo para as organizar e disciplinar, mas não dá. Aparentemente, e surpreendentemente, daí não tem vindo nenhum problema. Mas este problema é crónico e a doença apenas agravou a histeria pública para comprar tudo o que aparece face a um futuro incerto. 

À data de 15 de Junho, o número total de casos reportado é bastante baixo (Cuba, 2.248; Portugal, 36.690), tendo chegado na pior altura (de 5 a 30 de Abril) a uma média de 45 casos/dia e agora está já em cerca de 10 casos/dia; em Portugal a média está pelos 250-300 diários. Também as taxas de recuperação são muito diferentes nos dois países (Cuba, 87%; Portugal, 62%). Evidentemente, surgem surtos, mas têm sido eficazmente controlados. Houve casos de isolamento total de pequenas localidades, bairros, ou mesmo ruas. O número total de mortos anunciado é muito baixo, 84 (face aos 1517 em Portugal) e é dito que os falecidos são, em geral, pessoas com graves problemas de saúde anteriores. Neste momento os casos são 99% na capital e, dentro desta, nos municípios mais “populares” o que quer dizer mais pobres e menos cultos, tal como na capital de um país capitalista. Todo o sistema de saúde está virado para este problema. Frente ao edifício onde está o serviço que controla o envio de ambulâncias para as necessidades, estão parados uns quantos táxis, talvez uma dezena, em prontidão como se fossem ambulâncias. Nos Centros de Saúde (Policlinicos) se entras com queixas respiratórias, nem chegas a entrar. Vais logo pró retiro. Claro está que há sempre as espertezas saloias, no entanto, assim uma pandemia tem dificuldade em espalhar-se. O sistema de saúde cobre razoavelmente a população, por exemplo, no município de “Playa” com 175 mil habitantes há cerca de 8 Policlinicos o que dá uma média de 21 a 25 mil utentes. Agora e sempre os Centros de Saúde estão abertos 24 h/dia. Não faltam médicos e enfermeiros e até dá para o internacionalismo: Vinte e tal brigadas estão em outros tantos países, inclusive na Europa, em Itália e Andorra, a apoiar os respetivos sistemas de saúde no combate à pandemia. O problema aqui será a falta de recursos materiais que fazem com que uma operação possa depender de alguém incluindo os familiares encontrarem aquela peçazinha que se põe na veia para adaptar o tubo do soro ou que o médico receite uma coisa que não há em nenhuma farmácia e se tenha que mobilizar todos os contactos telefónicos para ver se alguém conhece alguém que tenha. E neste contexto, o pessoal de saúde tem que ser mesmo muito especial. Mas, de novo este é outro problema que tem que ver com economia. Uma delegação do DieLinke está em visita oficial a Cuba para se inteirar do modelo de combate à pandemia e conhecer o sistema de saúde socialista, assim diz a televisão. Talvez fizesse falta ao Delegado de Saúde de Lisboa. 


Artigo de José Manuel Carmo. 

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