Para combater a direita, precisamos de compreender os seus argumentos

05 de November 2022 - 11:35

Desde a Revolução Francesa, a direita mobiliza um conjunto comum de argumentos para resistir aos esforços de democratização da economia e do poder político. A esquerda só vencerá os conservadores se analisarmos a sua armadilha retórica – para a desarmar e combatê-la. Por Matt McManus.

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Ronald Reagan com Margaret Thatcher numa cimeira económica em Veneza em 1987. Foto de Levan Ramishvili/Flickr.
Ronald Reagan com Margaret Thatcher numa cimeira económica em Veneza em 1987. Foto de Levan Ramishvili/Flickr.

Em 1991, uma década após a revolução Reagan-Thatcher ter empurrado decisivamente a política para a direita, o economista e cientista social Albert O. Hirschman publicou um pequeno livro chamado The Rhetoric of Reaction [A retórica da reação, em tradução livre]. O livro explica uma tipologia de argumentos de direita — “as mais importantes posturas polémicas e manobras plausíveis de serem usadas por quem quer desacreditar e derrubar políticas ‘progressistas’”.

Hirschman enfatizou que o pensamento conservador era mais do que uma série de tropos. Os polemistas de direita às vezes atingem o alvo. Porém, na grande onda de políticas conservadoras, há certas estratégias argumentativas que voltam a surgir. E, ao reconhecer esses padrões retóricos, fica mais fácil refutar os argumentos da direita, não importando o aspeto que tomem.

Três ondas de progresso, três ondas de reação

Albert O. Hirschman nasceu em 1915, em Berlim, Alemanha. Depois de lutar contra os franquistas na Guerra Civil Espanhola, trabalhou com a Comissão para Refugiados de Guerra ajudando antifascistas a escapar da perseguição nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Por fim, fugiu para os Estados Unidos, onde trabalhou no Exército até ao fim da guerra, e assumiu um fellowship na Universidade da Califórnia, Berkeley. Manteve diversos compromissos académicos até à sua morte em 2012. Apesar de nunca ter sido um radical, Hirschman era um crítico aguçado da onda de conservadorismo dos anos 1980, e escreveu The Rhetoric of Reaction em resposta.

Começa o livro a explicar as três “ondas reacionárias” na política do Ocidente. Em cada situação, os progressistas avançaram com projetos igualitários que procuravam redistribuir riqueza e poder – e a direita lutou para repelir essas tentativas com os seus argumentos e a sua organização política.

A primeira onda reacionária, que emergiu no início do século XIX, opôs-se às reivindicações liberais por igualdade perante a lei que tomaram formas mais claras na Revolução Francesa. A segunda onda, que se estendeu do século XIX até ao XX, opôs-se ao ímpeto de esquerda de lutar pelo sufrágio universal. Conforme o historiador Jacob Burckhardt afirmou naquela época, lamentando a expansão do sufrágio na Suíça:

“A palavra liberdade soa opulenta e bela, mas ninguém deveria falar dela sem ter visto ou experimentado a escravidão que reside sob as massas ruidosas às quais chamamos de “povo”, sem ter visto com os próprios olhos e ter resistido à agitação civil. Conheço história o suficiente para não esperar do despotismo das massas nada mais do que um futuro de tirania que significará o fim da história.”

A terceira onda reacionária começou no final do século XIX, quando partidos trabalhistas e socialistas ganharam poder e influência. Mas ela engrenou somente em meados do século XX, com partidos da classe trabalhadora a vencerem eleições pela Europa e a democratizarem a economia através da construção do Estado de bem-estar social, institucionalizando a voz dos sindicatos e, às vezes, socializando setores da economia.

Esta última onda de reação – contra a democracia económica – foi muito mais bem-sucedida do que as duas anteriores. Apesar dos conservadores terem conseguido restringir parcialmente quem passou a desfrutar de liberdades civis e do direito de votar, o movimento geral foi na direção do progresso.

Mas com os direitos económicos não foi bem assim. Os conservadores – com a ajuda dos seus aliados centristas – conseguiram conter as ofensivas sobre novas medidas para um Estado de bem-estar social e, frequentemente, privatizaram as partes restantes. A política tinha ido tanto para o campo da direita que foi Bill Clinton quem proclamou que “a era dos governos grandes havia acabado”, e Margaret Thatcher identificou o Novo Trabalhismo de Tony Blair como a maior conquista dela. Além de tudo isso, Thatcher e Reagan aprisionaram e, quando possível, destroçaram a capacidade dos trabalhadores de remodelar a economia.

Uma das razões para os conservadores terem tido tanto sucesso na frente da democracia económica é o facto de conseguirem influenciar um número suficiente de eleitores da classe média e até da classe trabalhadora. Isso atesta a necessidade da esquerda de entender os argumentos e a retórica da direita – o tópico principal do livro de Hirschman.

A retórica da reação

De acordo com Hirschman, os conservadores usam três “teses” retóricas para provar o seu ponto de vista: a tese da perversidade, a tese da futilidade e a tese do perigo. O autor trata de uma de cada vez, dando exemplos históricos e desconstruindo o raciocínio muitas vezes forçado dos conservadores. Ao ler Hirschman fica claro que – a despeito das alegações de profundo senso de realidade – a argumentação conservadora frequentemente envolve apelos ao auto-engrandecimento e desdém por aqueles considerados indignos.

A tese da perversidade é provavelmente a maior culpada disso, uma vez que os conservadores a tomam como um entendimento profundo, apesar dela ter um passado com vários pontos problemáticos. A tese da perversidade sustenta que, quando a esquerda tenta fazer alguma mudança benéfica, ocorre “exatamente o contrário”, essas intenções acabam por ser um tiro pela culatra, por causa das leis das consequências não intencionais. Nas suas Considerações sobre a França, Joseph de Maistre chegou ao ponto de argumentar que Deus puniria os revolucionários franceses e faria a “exaltação do cristianismo e da monarquia”.

Este tipo de retórica para benefício próprio – Deus não apenas absolverá como também premiará com a vitória os reacionários através da degeneração dos propósitos progressistas – certamente é reconfortante para a direita, porém não é muito convincente para quem não usufrui das mesmas benesses. Irrupções parecidas acompanharam os anseios pelo sufrágio universal, e pessoas aparentemente inteligentes julgaram “a maioria de qualquer país” como “uns tolos” que apenas levariam o país à ruína. Aparentemente, somente os reacionários possuem a clarividência necessária para antever que o esforço das pessoas comuns só pode terminar em desastre.

Mas o delírio de grandeza não é uma análise cuidadosa e as previsões conservadoras de que o mundo se iria desmoronar se as “classes mais baixas” ganhassem um estatuto igualitário e acesso ao voto mostraram-se um grande engano. Além disso, numa das suas melhores objeções, Hirschman pontua que o argumento dos “efeitos não intencionais” é uma faca de dois gumes. Programas de bem-estar projetados para reduzir a pobreza também podem reduzir os índices de criminalidade – porém ninguém chamaria esse efeito de perverso, mesmo que ele seja “não intencional”.

O segundo argumento que Hirschman analisa é mais sóbrio. É a tese da futilidade, ou afirmação de que “qualquer mudança [progressista] é, foi, ou será muito superficial, de fachada, cosmética, portanto ilusória, uma vez que as estruturas profundas da sociedade permanecem completamente intocadas”. No final do século XIX e no começo do XX, os críticos da expansão democrática Alexis de Tocqueville e Vilfredo Pareto tentaram mostrar que os triunfos da esquerda apenas trocaram uma ordem plutocrática por outra. Conservadores dos dias de hoje como George F. Will incriminam o Estado de bem-estar social por erigir uma burocracia vasta e ineficiente que permite ao rico exigir que o governo lhe garanta privilégios.

Como Corey Robin observou, a tese da futilidade é a que tem mais efeito contra a esquerda porque ostenta mais do que uma semelhança passageira com a análise estrutural que os radicais defendem. Se o anseio fundamental é remodelar as instituições e as dinâmicas de poder da sociedade e o melhor que os progressistas podem fazer são mudanças superficiais, os conservadores estarão a postos para declarar: “Eu bem disse”. O resultado disso é uma sensação de impotência e de futilidade por parte da esquerda.

E isso é intencional. Como Hirschman comenta, a tese da futilidade não é só uma descrição do mundo, mas um esforço para suscitar exatamente os resultados que prevê. Ao proclamar a futilidade das políticas de esquerda, os críticos conservadores esperam dissuadir os progressistas até mesmo de entrar na disputa. A melhor coisa que os militantes de esquerda podem fazer é desfazer-se das posições derrotistas e sensações de futilidade – e reconhecer que a longo prazo a melancolia beneficia o lado do oponente.

Além de tudo, a esquerda muitas vezes conquistou exatamente as transformações que os conservadores insistiam em dizer que eram impossíveis. Os primeiros críticos do sufrágio universal alertaram que a democracia, inevitavelmente, degeneraria em demagogia ou conflito civil, que seria desestabilizada pelas vulgaridades daqueles que Burke chamava de “multidão grosseira”. Na realidade, as democracias estabelecidas não são apenas os sistemas políticos mais estáveis e mais bem governados do mundo, mas também as métricas de liberdade e bem-estar são mais altas em lugares onde o papel das camadas “mais baixas” é mais institucionalizado, ou seja: as sociedades democráticas.

Da mesma forma, críticos da saúde pública alardeiam que qualquer desvio dos mercados da saúde capitalistas provocará resultados terríveis. Mas eles fazem essas críticas tendo à sua frente décadas de numerosas evidências de que a saúde pública produz melhores resultados, cobertura mais igualitária e custos mais baixos. Não é por coincidência que o National Health Service (NHS) – a instituição mais socialista do Reino Unido – seja, esmagadoramente, o serviço com mais aprovação. Em cada um desses casos (e em outros parecidos) os militantes de esquerda preferem ignorar os derrotistas e céticos e seguir adiante – e estão certos.

Às vezes comentaristas conservadores, especialmente Thomas Sowell, associam a tese da perversidade e da futilidade, afirmando que as políticas progressistas são tanto ineficientes como danosas para quem tentam beneficiar. Mas como Hirschman salienta, essa afirmação é quase contraditória, já que a tese da perversidade sustenta que, para os progressistas, é possível mudar o mundo – apenas de forma negativa – enquanto a tese da futilidade é muito mais cínica por acreditar que nada muda fundamentalmente.

O último tropo reacionário é a tese do perigo. Enquanto as teses da perversidade e da futilidade são “obviamente simples e triviais”, a tese do perigo socorre-se de uma abordagem mais elíptica para combater as políticas de esquerda, afirmando que “propor mudanças, embora seja potencialmente desejável, envolve custos inaceitáveis ou consequências de todo o tipo”. Por outras palavras, o nosso desejo de querer ter tudo põe em risco o que já alcançámos.

Apesar de Hirschman focar-se na direita, a tese do perigo não está restrita aos reacionários. Políticos de centro-esquerda contemporâneos, de Tony Blair a Hilary Clinton, expressam simpatia pelas metas igualitárias, porém opinam que qualquer esforço radical para alcançá-las resultaria num mal-estar económico.

É uma coisa que também tem raízes na teoria política liberal: os argumentos de Tocqueville acerca das tensões entre liberdade e igualdade e a separação que Isaiah Berlin faz entre liberdade “negativa” e “positiva” imediatamente vêm à mente. O carácter apelativo da tese do perigo vem da suposição de que não podemos ter muito de algo que é bom, ou muitas coisas boas, sem pôr em risco alguma outra coisa. O que leva a um derrotismo similar ao da tese da futilidade, no entanto um é mais melancólico do que cínico no seu anseio de otimismo que nunca pode ser realizado sem algum perigo.

A força da retórica da tese do perigo origina-se na insistência de que uma reforma ou instituição valorizada está sob ameaça. Por exemplo, Edmund Burke no seu Reflections on the Revolution in France afirma que os revolucionários trocaram um monarca decente por violência e caos.

Mas, por dois motivos, isso é menos convincente do que os reacionários pensam. Primeiro, como Hirschman assinala, se, anteriormente, o engenho e a sabedoria humana trouxeram alguma melhoria para a sociedade através de reformas e instituições, não há motivo para não podermos fazer algo assim de novo. Segundo – e aqui Hirschman poderia ter argumentado com mais firmeza –, pôr em risco uma conquista estimada só é algo significativo se estivermos satisfeitos com ela.

Muitos liberais clássicos contemporâneos lamentam-se pela maneira como os progressistas dessacralizam os heroicos Pais Fundadores dos Estados Unidos e a sua sagrada Constituição e preocupam-se que, no afã de mudança, a esquerda destruísse uma ordem constitucional que funciona há muito tempo. Mas a Constituição norte-americana, para começo de conversa, era um documento bastante cheio de falhas – repleto de características antidemocráticas que prolongavam a escravidão – e que continua hoje a manter aspetos podres. Se a consequência de questionar uma constituição aristocrática for colocar em risco a idolatria de qualidades a ela associadas, acho então que devemos correr esse risco.

A direita está errada

Como qualquer esquema ou tipologia, a “retórica reacionária” de Hirschman é, necessariamente, uma simplificação. Os pensadores conservadores mais notáveis e criativos desenvolveram ramos e fusões mais complexos destas teses.

Ainda assim, quando lançam mão das suas aljavas retóricas, a maioria das vezes os conservadores sacam das flechas da perversidade, do medo de perigo e da futilidade para passar um verniz de profundidade e apelo estético aos arranjos sociais que muitas pessoas rejeitariam de outras formas. Muitos destes arranjos são hoje tão indefensáveis que é possível ver conservadores afirmando por aí que sempre foram críticos deles, tal como na tentativa recente de reposicionar os conservadorismos como se fossem uma defesa dos direitos liberais contra os tiranos woke e da democracia contra propagandas fraudulentas.

Isto deveria dar à esquerda a confiança de que, mesmo que os pratos da balança da história não pendam para o nosso lado, as nossas ideias vão convencer mais pessoas no decorrer do tempo. E assim será porque são as ideias certas e o lado certo da história.


Matt McManus é professor de política no Whitman College, autor de "The Rise of Post-Modern Conservatism and Myth" e co-autor de "Mayhem: A Leftist Critique of Jordan Peterson".

Publicado originalmente na Jacobin. Tradução de Ligia Marinho para a Jacobin Brasil. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.