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“Panama papers” revelam escândalo de corrupção mundial

Um vasto conjunto de informações divulgados este domingo pelo jornal alemão Suddeutsche Zeitung e partilhada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI), revelam o enriquecimento ilícito em paraísos fiscais de antigos e atuais líderes políticos, empresários e ainda de figuras ligadas ao desporto e ao cinema.

Estes documentos, como o nome de “Panama Papers” porque são originários daquele país, denunciam um vasto esquema de corrupção envolvendo Vladimir Putin, cujo nome terá sido utilizado para o enriquecimento de vários amigos, e também de outros 11 antigos e atuais dirigentes políticos. A fuga de informação inclui ainda detalhes sobre transações financeiras ocultas envolvendo 128 políticos de todo o mundo.

Empresário português envolvido

O escândalo agora revelado dá conta da existência de empresas offshore controladas por figuras de renome. De acordo com o site Fusion, a lista inclui os seguintes nomes: Ian Cameron, pai de David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, Mauricio Macri, presidente da Argentina, Ayad Allawia, ex-primeiro-ministro do Iraque, Sigmundur David Gunnlaugsson, primeiro-ministro da Islândia, Salman Bin Abdulaziz Bin Abdulrahman Al Saud, rei da Arábia Saudita, Petro Poroshenko, presidente da Ucrânia,  Rami e Hafez Makhlouf, primos de Bashar Hafez al-Assad, presidente da Síria, Kojo Annan, filho do antigo secretário-geral da ONU, a família de Nawaz Sharif, primeiro-ministro do Paquistão, Sergey Roldugin e Arkady e Boris Rotenberg, amigos de Vladmir Putin, presidente da Rússia.

Da lista até agora revelada consta o nome de um português: Idalécio de Castro Rodrigues Oliveira. O empresário deteve 14 empresas com sede nas Ilhas Virgens Britânicas, nas áreas dos minérios, gás natural e exploração de petróleo. A venda dos direitos de exploração de um campo de petróleo, no Benim, à Petrobas acabou por envolver o empresário no caso Lava-Jato. Idalécio de Castro Rodrigues de Oliveira detinha, em nome da empresa Lusitania Petroleum, várias licenças de exploração petrolífera em África.

Nos ficheiros figuram também os nomes de 33 pessoas e empresas que constam de uma lista negra elaborada pelos Estados Unidos, nomes esses que estão envolvidos em negócios com os responsáveis dos cartéis de droga mexicanos, organizações terroristas ou de países como a Coreia do Norte e o Irão.

Empresas fictícias criadas por grandes bancos são referidas 15 600. UBS e HSBC são dois dos 500 bancos identificados na investigação.

Investigação durou um ano

Esta investigação foi realizada durante um ano pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI) e teve a participação de 107 organizações de ligadas à comunicação social em 78 países que têm estado a analisar os documentos.

Os documentos agora divulgados, dizem respeito a um período de quase 40 anos, de 1977 a 2015, e pertenciam à empresa Mossack Fonseca & Co. A sua divulgação permite um olhar inédito sobre os regimes offshore e mostram a evolução da lavagem de dinheiro ao longo dos anos.

A Mossack Fonseca, com sede no Panamá, é a quarta maior empresa de advocacia do mundo especializada em paraísos fiscais, administra empresas offshore e faz gestão de fortunas. Entre os seus serviços está a incorporação de empresas em jurisdições de paraísos fiscais. A sua operação é mundial e envolve uma atuação junto de mais de 300 mil empresas, sendo que mais de metade destas estão registadas em paraísos fiscais com administração britânica, incluindo no Reino Unido. A BBC já adiantou, no entanto, que a empresa em questão opera há 40 anos sem nunca ter sido "acusada" de qualquer crime.

o esquema de corrupção começa no Panamá e atravessa a Rússia, Suíça e Chipre e demonstra como os poderosos exploram os regimes fiscais secretos

De acordo com estas revelações, o esquema de corrupção começa no Panamá e atravessa a Rússia, Suíça e Chipre e demonstra como os poderosos exploram os regimes fiscais secretos.

Recorrer a offshores é perfeitamente legal, lembra o The Guardian, que admite que há "razões legítimas" para o fazer. Pessoas de negócios em países como a Rússia ou a Ucrânia por norma colocam os seus bens em offshores para os proteger de mãos criminosas, mas a ideia também é proteger fortunas pessoais.

Putin e os amigos

De acordo com os documentos agora divulgados, os amigos de Vladimir Putin terão beneficiado de 1,5 mil milhões de euros. Apesar de o nome do presidente russo não aparecer nos registos divulgados, os dados revelam o enriquecimento ilícito de várias pessoas do círculo de amizades de Putin, como, por exemplo, Sergei Roldugin, responsável que é o padrinho de Maria, a sua filha mais velha.

De acordo com o jornal Guardian, Roldugin é um músico profissional e controla ações de empresas no valor de 87,7 milhões de euros. Os documentos revelam ainda que uma empresa de que é proprietário terá comprado os direitos de um empréstimo de 175,5 milhões de euros por 87 cêntimos.

Roldugin terá ainda uma participação de 12,5% na maior agência de propaganda televisiva da Rússia, Video International, 15% de uma empresa do Chipre chamada Raytar e também uma participação minoritária na fabricante de camiões russa Kamaz. Roldugin poderá ainda ser dono de 3,2% do Banco Rossiya.

Este banco, também é citado nos “Panama Papers”. A instituição é liderada por Yuri Kovalchuk, e terá feito uma transferência no valor de 877,6 mil milhões de euros a uma offshore chamada Sandalwood Continental. O dinheiro terá vindo de uma série de empréstimos não garantidos do Russian Commercial Bank, localizado no Chipre, para outros bancos. Parte deste dinheiro foi utilizada para conceder empréstimos com taxas de juro elevadas na Rússia, cujo lucro excedente terá sido desviado para contas secretas na Suíça.

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