O espectro dos três grandes

02 de August 2020 - 18:02

Vanguard, BlackRock e State Street Global Advisor, são os três maiores fundos mútuos do mundo. Em conjunto, são os maiores acionistas em 88% das 500 empresas melhor situadas no índice S&P, da bolsa de Nova York. Por Glauco Benigni.

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 Créditos da foto: (Reprodução/wsimag.com)
Créditos da foto: (Reprodução/wsimag.com)

Eles são conhecidos pelo nome de Vanguard, BlackRock e State Street Global Advisor. São os três maiores fundos mútuos do mundo, e também são conhecidos como gestores de ativos ou fundos de investimento que, operados por especialistas profissionais, levantam “dinheiro novo” de um número imenso e variado de investidores e aforradores.

Usam esse “dinheiro fresco” para comprar nas várias bolsas de valores do planeta e redistribuir os lucros (quando as coisas vão bem) para aqueles que lhes confiaram o excedente do seu capital e/ou poupança. Os investidores podem ser de natureza comercial ou institucional, mas também indivíduos particulares que acedem aos vários planos de investimento atribuíveis e controlados pelos Três Grandes (ou “The Big Three”, assim conhecidos em inglês).

Os Três Grandes parecem estar intimamente interligados, graças a intersecções de propriedades e a laços extremamente confidenciais, e pessoais, entre os seus representantes no comando das operações e respetivos conselhos de administração.

Basicamente, quando falamos de “capitalismo financeiro”, de “imperialismo neoliberal”, ou quando evocamos o termo “setor financeiro”, eles aparecem como uma espécie de bússola para guiar os destinos do mundo de hoje, e do futuro do planeta, muitas vezes sem ser mencionados diretamente. Como qualquer verdadeiro poder, eles já se tornaram tabus.

os Três Grandes podem “condicionar” a direção de cada área de atividade: produção, distribuição de bens e serviços, transporte, assistência médica, investigação, etc

Os Três Grandes estão no centro de uma grande galáxia de siglas, com outros grandes fundos mútuos e entidades financeiras, como Fidelity, T-Rowe, Goldman Sachs, JPMorgan e Morgan Stanley. As massas financeiras administradas por eles agem como se estivessem dentro de um sistema gravitacional, causando atrações e repulsões por toda a constelação de bancos e seguros. Graças às posições estratégicas dos diversos acionistas, formadas pelos seus impressionantes investimentos, os Três Grandes podem “condicionar” a direção de cada área de atividade: produção, distribuição de bens e serviços, transporte, assistência médica, investigação, etc.

Imagine que, nos últimos 12 anos, três novos planetas tenham crescido dramaticamente num sistema planetário dinâmico, mas fundamentalmente equilibrado, e tenham assumido uma posição central no sistema, determinando novos equilíbrios e desequilíbrios, e novas órbitas para todos os planetas e satélites que já existiam nesse sistema. Estes três novos planetas obviamente gozam do maior respeito, mas, na realidade, assustam todos aqueles que temem (com razão) a verticalização do poder.

Já em 2017, os economistas Jan Fichtner, Eelke M. Heemskerk e Javier García, três investigadores da Universidade de Amsterdão, explicaram que “desde 2008, houve uma grande mudança nas estratégias de investimento de ativas para passivas. O setor passivo de fundos de índices passou a ser dominado (…) pelos Três Grandes. Mapeámos de forma abrangente as propriedades desses Três Grandes nos Estados Unidos e descobrimos que, no conjunto, eles são os maiores acionistas em 88% das 500 empresas melhor situadas no índice S&P, da consultora Standard & Poor´s”.

o índice S&P 500 acrescenta-os aos antigos gigantes da “velha economia” (como ExxonMobil, General Electric, Coca-Cola, Johnson & Johnson e JP Morgan) e a todos os novos gigantes da “era digital” (Google, Amazon, Facebook, Microsoft e Apple)

Em outras palavras, isso significa que os Três Grandes são os maiores acionistas em cerca de 90% das empresas nas quais a maioria das pessoas investe. Para se ter uma ideia, o índice S&P 500 acrescenta-os aos antigos gigantes da “velha economia” (como ExxonMobil, General Electric, Coca-Cola, Johnson & Johnson e JP Morgan) e a todos os novos gigantes da “era digital” (Google, Amazon, Facebook, Microsoft e Apple). Isto significa que a sua influência também se estende aos principais veículos de informação e comércio eletrónico.

Estas são descobertas excecionais. Se, ao que parece, correspondem à realidade, o cenário que se revela contradiz qualquer visão anterior de livre concorrência e descreve uma posição dominante nunca alcançada na história.

“Através de uma análise dos registos de votação por procuração”, continuam os professores de Amsterdão, “descobrimos que os Três Grandes usam um método de votação coordenado, e, portanto, seguem uma estratégia centralizada de governança corporativa. Além disso, eles podem exercer uma espécie de ‘poder oculto’, através de dois canais: primeiro, pelos compromissos privados com a administração das empresas nas quais investiram; e segundo, porque os executivos das empresas podem se inclinar para a apropriação dos três grandes objetivos”.

O fundo BlackRock afirmou recentemente que não é o “proprietário” legal das ações que possui. “Somos os guardiões do dinheiro em que os investidores confiam em nós”, afirmaram.

É um detalhe técnico a ser interpretado: o que é inegável é que os Três Grandes exercem os direitos de voto associados a estas ações. Portanto, eles devem ser percebidos pelos executivos corporativos como proprietários de facto. É fácil “sentir-se propenso” quando a sua posição e a sua liquidação milionária dependem do “custodiante” do pacote de ações que a empresa em que você trabalha controla.

Quando os europeus levantaram o dedo acusador, e apesar das preocupações da Comissão Antitruste da União Europeia, a cena nos Estados Unidos foi subestimada e os riscos associados foram subestimados. No entanto, os Departamentos de Justiça e Antimonopólio dos Estados Unidos despertaram no ano passado. As reais razões para o novo estado de alerta são obviamente políticas e atribuídas às estruturas de poder que existem dentro e ao redor da Casa Branca. Oficialmente, as autoridades expressaram preocupação de que a Faculdade de Direito de Harvard esteja entre aqueles que colocaram os Três Grandes sob o microscópio. Das suas prestigiadas salas de aula, figuras como Lucian Bebchulk e Scott Hirst, dois académicos considerados entre os mais importantes especialistas em governança corporativa do mundo, produziram um estudo alarmante com o título “O espectro dos Três Gigantes”.

Em essência, com os números em mãos, é possível verificar que só os Três Grandes gerem cerca de 16 biliões de dólares (segundo cifras de 2019). Portanto, controlam 4 de cada 10 ações das principais empresas estadunidenses.

Conforme explicado por Vincenzo Beltrami na revista Startmagazine, “o jornal de Harvard tem o mérito de fotografar o crescimento exponencial que especialmente BlackRock e Vanguard terão nos próximos anos, nas estruturas financeiras conhecidas até ao momento, desencadeando uma mudança de paradigma a nível global, e cujos efeitos é já possível prever atualmente. Os académicos de Harvard calcularam que as massas administradas por estes gigantes, com o poder de representação derivado deles, estão destinadas a aumentar, respetivamente, 34% nos próximos dez anos e 41% se for calculado um período de vinte anos”.

Agora vamos dar uma olhada em alguns “detalhes” publicados na Wikipedia:

O Vanguard Group está sediado em Malvern, um subúrbio da Filadélfia, Pensilvânia. Fundado em 1975 por John C. Bogle, administra 6,2 biliões de dólares em ativos e tem cerca de 17 mil funcionários. O atual CEO é Mortimer J. Buckley.

O BlackRock está sediado em Nova York. A empresa administra um total de 7,5 biliões de dólares em ativos, dos quais investiu um terço na Europa – 500 mil milhões só en Itália. Foi fundado em 1988 por Laurence D. Fink (CEO), Susan Wagner e Robert S. Kapito, possui cerca de 15 mil funcionários.

Já o State Street Global Advisors é a divisão de gestão de investimentos da State Street Corporation. Lida com cerca de 3 biliões de dólares e está baseado em Boston, Massachussets. O CEO é Cyrus Taraporevala. Possui 2.500 funcionários.

Estes dados confirmam que o total de ativos administrados pelos Três Grandes totalizaram 16 biliões de dólares em 2019. Agora, a questão é: se os fundos são iguais a quatro vezes o PIB alemão ou, se desejar, quatro vezes a dívida pública italiana… qual é a visão de futuro daqueles que os administram?

Mas, acima de tudo, voltando às projeções dos académicos de Harvard, se excederem 20 biliões em 2030 e passar a 30 biliões em 2040, então os fundos serão equivalentes a metade do PIB de todo o planeta Terra.

Se somarmos todos os funcionários dos Três Grandes, cerca de 35 mil pessoas, como é possível administrar uma massa financeira equivalente à produzida por metade da população mundial (ou seja, 3,5 mil milhões de seres humanos)? Algo sério está a acontecer. Portanto, as autoridades antimonopólio têm razões para investigar, mas podem intervir? Se houver uma armadilha, onde estará localizada?

O economista Enrico Marro dá-nos uma primeira resposta “técnica” numa das suas colunas de Sole 24 Ore: “deve-se esclarecer que o principal motor de crescimento é representado pela gestão passiva: isto é, pelos ETFs destinados a atingir 25 mil milhões de dólares em ativos sob gestão nos próximos sete anos, segundo as estimativas de Jim Ross, presidente da Atate Street”.

Os ETFs, ou fundos cotados em bolsa, são um tipo de fundo de investimento que pertence ao ETP (Exchange Traded Products) ou à macro família de produtos indexados, com o objetivo de replicar um índice de referência com intervenções mínimas. Diferentemente dos fundos mútuos de investimento e dos SICAVs (sociedades de investimento de capital variável), eles são geridos passivamente, são liberados da capacidade do administrador e cotam-se na bolsa de valores da mesma maneira que as ações e os títulos.

A “gestão passiva” significa que o desempenho está vinculado à cotação de um índice bolsista (que pode ser ações, matérias-primas, títulos, recursos monetários etc.) e não à capacidade do gestor do fundo para comprar e vender. O trabalho do gestor limita-se a verificar a consistência do fundo com o índice de referência (que pode variar dependendo das aquisições da empresa, falências, queda de preços etc), além de corrigir o seu valor em caso de desvios entre a cotização do fundo e do índice referência, que estão permitidos na ordem de alguns pontos percentuais (1% ou 2%).

A “gestão passiva” torna esses fundos muito económicos, com custos administrativos geralmente inferiores ao ponto percentual e, portanto, competitivos em relação aos fundos ativos. A sua ampla ou grande diversificação, combinada com a negociação na bolsa de valores, torna-os competitivos em relação ao investimento em ações individuais. E aí está!

Esses fundos nasceram nos Estados Unidos em 1993 e foram negociados na AMEX (American Express) para reproduzir a tendência do índice S&P 500 (na Itália estão listados desde 2002).

Os ETFs também podem ser chamados de “clones financeiros”, porque imitam fielmente o desempenho de um índice específico.

Enrico Marro continua: “agora, existem ‘clones’ de todos os tipos, desde os relacionados a cotas menos ortodoxas até os que seguem a Bíblia, desde os que investem ouvindo o Twitter aos guiados por inteligência artificial, ou que se concentram na marijuana terapêutica. Sem mencionar os ETFs com as suas sofisticadas estratégias “smart beta”, mais ou menos adequadas, às vezes ultrajantes. Tudo o que falta é um ‘clone’ em bitcoin, cortado pela raiz pelos reguladores dos Estados Unidos, por razões óbvias de estabilidade financeira e bom senso”.

Gostaria de acrescentar algumas considerações de política financeira macro a esta explicação técnica. Antes do boom do mercado de ações, e especificamente antes do início da Nasdaq – que substituiu a compra e venda “humanas” pela compra e venda digital orientada por algoritmos –, o valor de troca (capitalização financeira) estava fortemente correlacionado com o valor de uso (produzido pela economia real). Para simplificar, a riqueza material (PIB) possuía uma contrapartida razoável na riqueza negociada nas bolsas de valores. Com o advento da Nasdaq e a primeira lista de empresas “totalmente digitais” no mercado de ações, o setor financeiro inicia um caminho de virtualização numérica, favorecido pelas trocas digitais, que ocorrem num espaço-tempo em que a velocidade e os volumes tendem para o infinito, enquanto os tempos de acesso e troca tendem para zero.

Nesta nova “dimensão financeiro-numérica”, a produção de valor de troca é exaltada e o seu volume cresce exponencialmente, “desligando-se” da contrapartida material (a economia real). Isso permitiu que os especuladores tivessem acesso à produção e gestão de inúmeras massas financeiras, que são criadas continuamente graças simplesmente à multiplicação das “trocas” e que não têm nada a ver com a economia material real. Tanto é assim que já se sabe que, para cada dólar ou euro correspondente ao valor de uso (economia real), existe um valor equivalente ligeiramente mais alto em circulação nas bolsas de valores (de acordo com o FMI). No entanto, de acordo com outras fontes, o valor da capitalização de mercado pode ser de 4 a 8 vezes maior que o valor do PIB planetário.

Aqui está outra explicação, bastante desconcertante, de por que 35 mil funcionários lidam com um valor equivalente ao que produzem 3,5 mil milhões de seres humanos.

Vamos agora ver a cena do ponto de vista dos regulamentos:

Em 1933, nos Estados Unidos, a Lei Bancária foi incorporada noutra mais ampla, a Lei Glass-Steagall. Esta resposta à crise financeira de 1929 teve como objetivo introduzir medidas para conter a especulação dos intermediários financeiros e evitar situações de pânico bancário. As medidas incluíram a introdução de uma separação óbvia entre a banca tradicional e os bancos de investimento. Segundo a lei, as duas atividades não podiam mais ser realizadas pelo mesmo intermediário, criando assim a separação entre os bancos comerciais e os bancos de investimento.

De facto, foi possível evitar que a economia real estivesse diretamente exposta à influência das finanças. Devido à sua revogação subsequente em 1999, ocorreu exatamente o contrário na crise de 2007: a insolvência no mercado de hipotecas subprime, iniciada em 2006, desencadeou uma crise de liquidez que se espalhou imediatamente à banca tradicional, porque esta último estava envolvido na atividade de investimento.

alguns observadores acreditam que a marcha triunfal dos fundos mútuos foi possível precisamente pela revogação da Lei Glass-Steagall

Entre os efeitos da revogação, foi permitida a criação de grupos bancários que, embora com algumas limitações, permitem o exercício da atividade bancária tradicional juntamente com a atividade de seguros e investimentos. Após a nova Grande Recessão de 2008, durante a presidência de Obama, foram feitas tentativas para restaurar, pelo menos parcialmente, a Lei Glass-Steagall, com a promulgação da Lei Dodd-Frank. Na verdade, a porta dpo estábulo abriu-se e os cavalos fugiram a correr. Hoje, alguns observadores acreditam que a marcha triunfal dos fundos mútuos foi possível precisamente pela revogação da Lei Glass-Steagall.

E, de facto, o alcance da mudança é surpreendente: de 2007 a 2016, os fundos administrados ativamente registaram saídas de aproximadamente 1,2 biliões de dólares, enquanto os fundos indexados tiveram entradas de mais de 1,4 biliões de dólares.

Agora chegamos a considerações histórico-filosóficas ou conclusões sobre o comportamento coletivo da espécie humana. Após as grandes revoluções, a ideia da difusão da igualdade e dos direitos, em alguns períodos, parecia estar acima dos interesses. Assim, a distribuição da riqueza seria alcançada através de negociações entre a força de trabalho e o capital. Esta ideia foi proclamada a partir da hipótese de que os meios de produção deveriam pertencer àqueles que realmente produziram riqueza e não aos proprietários do capital. Apesar de múltiplas batalhas civis e políticas, com a rendição incondicional da União Soviética e o declínio das ideias socialistas e comunistas, o capitalismo e os seus substitutos venceram na luta com as massas trabalhadoras e camponesas e com a classe de intelectuais que os apoiaram. As elites impuseram um neoliberalismo que não se baseia apenas, ou deixa de se basear, na hegemonia derivada da acumulação de mais-valia obtida na produção de bens, mas uma série de novas fontes de renda, entre as quais, como se descreveu acima, está a produção descontrolada de valor de troca nas bolsas de valores.

Agora, este é o ponto em que a população mundial fez sua escolha nos últimos 30 anos: é melhor lutar pelos meios e infraestrutura de produção ou é melhor tentar participar dos benefícios que o sistema neoliberal produz na Bolsa de Valores? Dada a brecha desvantajosa entre os volumes da economia real e os das finanças digitais, levando em consideração as respectivas taxas tributárias que privilegiam as finanças, juntamente com a propaganda política, a sedução da publicidade e a indução de estilos de vida favoráveis ao liberalismo individualista, a escolha está cada vez mais voltada para a segunda opção. E assim, a visão de mundo neoliberal anglo-americana (weltanschaung), caraterizada pela aceitação da “aposta”, supera as visões caraterizadas pela busca de “certezas”.

Neste momento, dezenas (talvez centenas) de milhões de aforradores e milhões de pequenas e médias empresas não estão a reinvestir as suas poupanças e excedentes de capital em estruturas produtivas, e apenas uma pequena minoria se imagina gerando trabalho para si e para os seus “iguais”. Eles nem estão a pensar nisso! Assim que houver alguma economia, uma indemnização por despedimento, um legado hereditário ou capital imobilizado, a grande maioria procura “um caminho curto” para dar frutos, ou a melhor maneira de investi-lo para obter lucro e posição, sem se cansar ou se preocupar com o que vier em seguida.

Um número eloquente: de acordo com uma análise publicada também pelo Financial Times em 2018, os fundos BlackRock e Vanguard colheram cerca de 57% do que circulou em todo o mundo no panorama variado dos fundos de investimento.

Digamos que, no meio da eterna oscilação entre individualismo e a solidariedade coletiva, o polo que representa interesses pessoais imediatos e mensuráveis está a liderar o jogo num terreno que escapou completamente ao controle do humanismo solidário.

Voltando à questão dos fundos mútuos e concluindo: muitos acreditam que tudo é legítimo e que o seu sucesso é determinado por circunstâncias históricas e um conhecimento que é alto e acima da média das capacidades das massas. Mas sabemos que por trás desta imagem de eficiência escondem-se práticas muito opacas e ambíguas. Práticas que poderiam até permitir, dada a enorme quantidade de dinheiro envolvida, a compra não só dos gerentes das empresas, mas também dos governos e das oposições nas democracias. Tomemos isto em conta.

Artigo de Glauco Benigni, jornalista e escritor, publicado originalmente em 'Wall Street International'. Tradução de Victor Farinelli para Carta Maior. Revisão para português de Portugal de Carlos Santos, para esquerda.net