Medo da ascensão da China molda política externa dos EUA, diz Chomsky

10 de August 2022 - 12:16

A crescente influência da China nos assuntos internacionais é uma ameaça para a ordem mundial? Os Estados Unidos acreditam que sim, assim como a Grã-Bretanha, seu aliado mais próximo. Entrevista de Noam Chomsky a C. J. Polychroniou, publicada em Truthout.

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Noam Chomsky, 5 de maio de 2022 - screenshot pressenza.com
Noam Chomsky, 5 de maio de 2022 - screenshot pressenza.com

A rivalidade entre os Estados Unidos e a China provavelmente dominará os assuntos mundiais no século XXI. Nesse jogo geoestratégico, espera-se que determinados Estados externos à comunidade de segurança ocidental, como a Índia, desempenhem um papel fundamental no novo cenário do imperialismo.

Os Estados Unidos são uma potência em declínio que não pode mais empreender ditames unilaterais. No entanto, como aponta Noam Chomsky nesta entrevista exclusiva com o Truthout, a deterioração dos Estados Unidos “deve-se sobretudo a choques internos”.

Como poder imperial, os Estados Unidos são uma ameaça à paz mundial e aos seus próprios cidadãos.

A entrevista é de C. J. Polychroniou, foi publicada originalmente por Truthout e reproduzida por La Jornada e IHU Unisinos. A tradução é do Cepat.

C. J. Polychroniou: Noam, as potências ocidentais respondem à ascensão da China como potência com crescentes apelos à diplomacia bélica. Por que o Ocidente tem tanto medo da prosperidade da China e o que isso nos diz sobre o imperialismo no século XXI?

Noam Chomsky: Os temores são de longo alcance e, no caso da Rússia, remontam a 1917. O secretário de Estado Robert Lansing advertiu o então presidente Wilson de que os bolcheviques contavam com a simpatia “do proletariado de todos os países”.

Essas preocupações foram reiteradas em diferentes circunstâncias pelo secretário de Estado John Foster Dulles, 40 anos mais tarde, quando lamentou que os Estados Unidos fossem “um caso perdido, muito atrás dos soviéticos no que diz respeito ao desenvolvimento de meios para controlar a mente e as emoções dos povos sem sofisticação”.

Em 1917, o reconhecido decano da erudição da Guerra Fria, John Lewis Gaddis, afirmou que a revolução bolchevique era uma ameaça “à própria sobrevivência da ordem capitalista”.

Na fronteira ocidental da Eurásia, os Estados Unidos defendem-se ao expandir a NATO em direção à fronteira com a Rússia. No flanco oriental, os Estados Unidos defendem-se com a instalação de um círculo de “Estados sentinelas”, cuja tarefa será “cercar” a China. O resultado disso é que a China terá maiores incentivos para atacar Taiwan com a finalidade de romper esse cerco e ter acesso aberto aos oceanos.

A ideia de um “lar comum europeu”, de Lisboa a Vladivostok, foi promovida por Mikhail Gorbachev, que buscava a transição para a social-democracia na Rússia e nos seus antigos domínios, com a ideia de contar com a colaboração dos Estados Unidos na criação de uma ordem mundial baseada na cooperação e não no conflito. Previsivelmente, os Estados Unidos opuseram-se ferreamente a estas iniciativas.

A invasão da Ucrânia por Putin, após rejeitar as tentativas francesas e alemãs de impedir esse trágico crime, deixou o assunto claro, pelo menos por enquanto. A Europa sucumbiu à doutrina do Atlântico e inclusive adotou o objetivo formal dos Estados Unidos de “enfraquecer a Rússia” severamente... à custa da Ucrânia e seja de quem for.

Sem integração, a Europa que depende da Alemanha decairá e a Rússia, com os seus vastos recursos naturais, muito provavelmente gravitará em direção ao projeto de desenvolvimento euroasiático centrado na China e a Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative - BRI) e este poder-se-á expandir até a África e mesmo até a América Latina.

Abandonar tudo isto, assim como renunciar à expansão do sistema global BRI, seria um preço muito alto a pagar em troca de estar bem com os Estados Unidos. Estas considerações não estarão ausentes enquanto o sistema mundial se recompõe após a crise da Covid e a invasão russa à Ucrânia.

Existe algo mais nessa relação estratégica entre China e Rússia, duas nações autocráticas, além de limitar o poder e a influência dos Estados Unidos? Até que ponto Washington pode tirar proveito das potenciais tensões e diferenças nessa relação?

O expediente da Guerra Fria é muito revelador. Mesmo quando a Rússia e a China estiveram perto de entrar num conflito bélico, os Estados Unidos insistiam em que uma imaginada aliança “sino-soviética” era uma imensa ameaça.

Algo semelhante aconteceu no Vietname do Norte. Os seus líderes reconheceram que o seu inimigo real era a China. Os Estados Unidos podiam devastar o Vietname com violência, mas, no final, iriam embora. Pelo contrário, a China estaria sempre lá como uma ameaça permanente.

Os assessores norte-americanos não ouviram isso. A diplomacia de Kissinger reconheceu os factos tarde demais e tirou proveito dos conflitos entre Pequim e Moscovo. Não acredito que isso seja uma lição atual, porque as circunstâncias são muito diferentes.

Putin e os seus parceiros parecem ter a visão de uma esfera russa que ocupe um lugar independente entre a aliança do Atlântico e os sistemas globais que têm a China como centro. Isso não me parece muito provável, penso que é mais factível que a China aceite a Rússia como subordinada, que lhe forneça matérias-primas, armamento avançado, talento científico e talvez mais.

A Índia é cortejada pela China, Rússia e Estados Unidos. Deveria estar preocupada com uma possível aliança entre Pequim e Moscovo?

O sul da Ásia enfrenta uma grande catástrofe. O calor do verão já está num nível em que é quase impossível sobreviver. A sua população é muito pobre e o pior ainda está por vir. A Índia e o Paquistão devem cooperar nesta e em outras crises comuns, como a gestão de seus recursos aquíferos cada vez mais escassos. Em vez disso, cada nação dedica os seus exíguos orçamentos em guerras impossíveis de vencer, o que já é um peso intolerável para o Paquistão.

Os dois Estados têm graves problemas internos. Na Índia, o primeiro-ministro Modi avança no esforço de destruir a democracia laica indiana que, com todas as suas falhas, continua a ser uma grande conquista da era pós-colonial. O seu programa está focado em criar uma etnocracia hindu racista. É o parceiro natural numa crescente aliança de estados com caraterísticas semelhantes: Hungria, assim como Israel e os seus parceiros no acordo de Abraão, intimamente ligados aos setores duros dos republicanos norte-americanos.

Tudo isto é o pano de fundo para lidar com as questões referentes às relações internacionais da Índia. A nação está num difícil ato de equilibrismo. De longe, o seu principal fornecedor de armas é a Rússia. Está envolvida numa longa e cada vez pior disputa por fronteiras com a China, razão pela qual deve se preocupar com o aprofundamento da aliança entre Moscovo e Pequim. O QUAD (Diálogo de Segurança que inclui Japão, Austrália e Índia), comandado pelos Estados Unidos, tem a intenção de cercar a China, mas a Índia é um parceiro reticente, com pouca disposição para adotar um papel subimperial.

Em que medida o desgaste do imperialismo contribuiu para o declínio da sociedade e em que medida os políticos locais têm influência sobre as decisões de política externa? Até que ponto a decadência dos Estados Unidos representa uma ameaça para a paz e a segurança do mundo?

O declínio mais recente dos Estados Unidos deve-se sobretudo a choques internos, e é algo grave. Uma medida crucial dele é a mortalidade. O título de um estudo recente é "Os Estados Unidos estavam numa crise de morte prematura antes da Covid" nele se demonstra que “antes do início da pandemia, mais pessoas morriam em idade jovem do que noutras nações com riqueza comparável”. Os dados são alarmantes vão além das “mortes por desesperança” que é um fenómeno entre os norte-americanos brancos em idade produtiva, algo inédito.

O “plano radical” para acabar com os vestígios da democracia dos Estados Unidos foi anunciado alguns dias antes das eleições de novembro e foi esquecido na debacle que se seguiu. Recentemente, foi revelado numa investigação da Axios. A ideia fundamental era reverter os programas que existem desde o século XIX de criar um serviço público apolítico e que são uma base essencial para qualquer democracia funcional.

Trump emitiu uma ordem executiva que dava ao presidente (ou seja, a si mesmo) a autoridade para contratar os seus apoiantes para os cargos dirigentes do serviço público, o que seria um passo a mais rumo ao ideal fascista de ter um partido poderoso, com um líder máximo que controla a sociedade. Biden reverteu a ordem.

Os democratas no Congresso buscam aprovar uma lei que proíba esse ataque direto à democracia, mas com toda a probabilidade os republicanos não a aceitarão, porque muitas iniciativas atuais para se estabelecerem permanentemente no poder, apesar de serem minoria, podem dar frutos graças à aprovação do reacionário juiz Roberts.

Não me parece que a campanha conservadora para minar a democracia seja resultado do desgaste da sua posição imperialista, mas da sua natureza e das suas raízes afiançadas no desejo primário de se agarrar ao poder.


Entrevista a Noam Chomsky realizada por C. J. Polychroniou, publicada originalmente por Truthout, em 4 de agosto de 2022, reproduzida por La Jornada e por IHU Unisinos, com tradução do Cepat.