Chomsky: "Única forma de acabar com a tragédia é um acordo diplomático

01 de June 2022 - 12:08

Em entrevista ao Expresso, o intelectual norte-americano critica a "cultura totalitária" que se vive no seu país, onde quem propõe uma solução diplomática para a guerra "é condenado e caracterizado como um apoiante de Putin ou um gangster".

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Noam Chomsky. Imagem do canal de Guilherme Boulos no Youtube

O linguista e filósofo Noam Chomsky deu uma entrevista ao Expresso para falar da guerra da Ucrânia e da forma como está a ser debatida pelos políticos e media norte-americanos. "Qualquer pessoa que tenha um osso de moralidade no seu corpo procurará alguma forma de acabar com esta tragédia. E só há uma forma de o fazer: é através de um acordo diplomático", defende Chomsky, contrapondo que "qualquer pessoa que o proponha, nos Estados Unidos, é condenado e caracterizado como um apoiante de Putin ou um gangster", no que apelida de "cultura totalitária".

Chomsky sublinha que as mesmas pessoas que invocam "princípios morais" para apostar na escalada da guerra e assim enfraquecer a Rússia são as mesmas que apoiam "as atrocidades norte-americanas" nas guerras que protagonizam em vários pontos do mundo. Dá o exemplo da jornalista e escritora Anne Applebaum, que "apoiou intensamente a guerra no Iraque, que foi muito pior do que esta. Ou seja, critica crimes cometidos pelo outro lado, mas apoia os seus próprios crimes. É isso que tem vingado no Ocidente: uma lógica como a da antiga União Soviética".

A comparação com o tempo da União Soviética também é invocada no que diz respeito à informação a que os norte-americanos têm acesso acerca das posições russas. "Se os Estados Unidos querem saber o que a Rússia diz, temos internet, é possível descobrir, por exemplo, na televisão indiana. Mas isso é 100% abolido nos média norte-americanos", aponta. Questionado sobre se isso não é uma tentativa de neutralizar os efeitos da desinformação russa, Chomsky responde que "a propaganda russa é uma piada" e que já nos tempos da União Soviética a maioria das pessoas partiam do princípio de que estava a acontecer o contrário do que passava nos media oficiais.

Em vez de serem alvo de operações de contra-propaganda, prossegue Chomsky, o que os cidadãos norte-americanos devem estar informados é acerca do que o seu próprio país está a fazer: "Por exemplo, as declarações de Stoltenberg e Biden e a "confissão" do Departamento de Estado norte-americano, de que não levam em consideração as preocupações russas em matéria de segurança. Tente encontrá-las nos média norte-americanos. Mas pode encontrá-las na página da Casa Branca. É isso que os russos leem".

"A guerra na Ucrânia está a desligar o maior fluxo de exportações de comida no mundo"

A política de sanções levada a cabo pela Europa e Estados Unidos também merece críticas por parte do intelectual norte-americano. Para Chomsky, "não há um único líder político no mundo que seja a favor de sanções em caso de crimes terríveis e violação do Direito internacional", como ficou patente na ausência de sanções aos EUA após a invasão do Iraque ou a Israel pela anexação ilegal de territórios da Palestina. As sanções à Rússia "acabam por ser uma total exceção" neste contexto e criam um problema que extravasa em muito a área do conflito. "A guerra na Ucrânia está a desligar o maior fluxo de exportações de comida no mundo, a região do mar Negro", com consequências gravíssimas para países dependentes dessas importações para alimentarem a população. Mas nos EUA, prossegue Chomsky, a única perspetiva "de que ouvirão falar" é a do ataque militar à frota russa no Mar Negro para desbloquear os portos e não a perspetiva russa de alívio das sanções em troca desse desbloqueio. "Temos de censurar tudo aquilo que não queremos que as pessoas ouçam. Mas, se conhecermos os dois pontos de vista, podemos avaliar qual será o mais sensato para acabar com a fome... Estamos a falar de milhões de pessoas", sublinha.

A perspetiva de uma guerra longa, além da ameaça nuclear, tem outro impacto "totalmente devastador", que é visível na reversão dos poucos passos dados antes da guerra no combate às alterações climáticas. Quanto à perspetiva dos estados europeus receosos de ataques russos, Chomsky invoca o "duplipensar" de George Orwell. Para o veterano ativista, todos os comentadores tentam veicular duas ideias absolutamente contraditórias: a de que o desempenho militar russo é tão fraco que nem conseguiu capturar cidades defendidas quase apenas por civis a poucos quilómetros da sua fronteira e a de que "devemos preparar-nos para o terror antes de este 'monstro' atacar a NATO e conquistar o mundo". Para Chomsky, Orwell enganou-se ao definir essa forma de pensar no livro '1984' como característica de Estados ultratotalitários: "É uma característica das democracias liberais. É o que vemos hoje na Suécia, na Finlândia e no resto da Europa, que se quer armar até aos dentes", ou na Alemanha que se propõe ultrapassar as despesas militares da Rússia e "fá-lo para seguir as ordens dos EUA".

Apesar das perspetivas sombrias para o evoluir deste conflito, Chomsky diz esperar que seja possível no futuro "possibilidades como a 'casa europeia comum' de Gorbachev sem alianças militares, com interações comerciais e culturais", uma ideia que "seria benéfica para todos" mas cuja concretização parece uma hipótese cada vez mais longínqua. Mas também é verdade que "há cem anos, a União Europeia seria inimaginável", recorda.

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