Chomsky critica a “indignação moral seletiva” de Biden

31 de March 2022 - 20:17

Em entrevista sobre os últimos desenvolvimentos na Ucrânia, o intelectual norte-americano recorda alguns exemplos em que os EUA contribuíram para a resolução de conflitos por meios pacíficos, ao contrário do que acontece nesta guerra.

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Foto Adam Schultz/Casa Branca/Flickr

Em entrevista ao site Truthout, o linguista e ativista norte-americano comenta o desenrolar da guerra na Ucrânia e o papel dos EUA no conflito. Em particular o discurso de Joe Biden na Polónia a apelar à remoção de Putin do poder, que obrigou os seus próprios assessores na Casa Branca a virem suavizar as palavras presidenciais. Biden viria mais tarde dizer que não retirava nada do que dissera, justificando o apelo com a “indignação moral” ao ver a carnificina provocada por Putin e as mulheres e crianças refugiadas.

“A indignação moral sobre os crimes russos na Ucrânia é compreensível e justificada. A extrema seletividade na indignação moral também é compreensível, mas não é justificável. É compreensível, porque é tão comum”, afirmou Noam Chomsky, apontando outras situações que mereceriam a mesma indignação moral, como a fome que está a devastar o Afeganistão enquanto os EUA mantêm bloqueados os fundos que pertencem ao país, ou a invasão norte-americana do Iraque.

Em seguida, Chomsky dá o exemplo de alguns conflitos resolvidos por meios pacíficos com intervenção dos EUA, como os da recente cimeira do Negev que resultaram num acordo entre Israel e quatro ditaduras árabes, ou o papel de Jimmy Carter para os acordos de Camp David entre Israel e o Egito no final dos anos 1970.

Sobre a situação militar no terreno, Chomsky aponta que ambos os lados contam histórias diferentes para chegar à mesma conclusão: enquanto os militares ucranianos falam do fracasso das tropas russas que não conseguem derrubar o governo e se veem obrigadas a retirar para as zonas ocupadas no leste e no sul, os russos dizem que concluíram com sucesso o principal objetivo de desmilitarizar a Ucrânia e que irão agora acabar de libertar o Donbass.

Quanto à posição ocidental, contrapõe Chomsky que embora ela se alinhe no discurso com a versão ucraniana acerca da impreparação e incapacidade militar russa para travar a guerra, na prática está a dar razão a Moscovo e a admitir que a poderosa máquina de guerra russa atingiu os seus objetivos na Ucrânia e o próximo passo será invadir outros países, pelo que julga necessário reforçar a frente oriental da NATO “para prevenir a invasão iminente desta força monstruosa”.

Seguindo este raciocínio, Chomsky pergunta: “Será que Washington deseja consolidar mais firmemente o grande presente que Putin lhe concedeu, ao conduzir a Europa para o seu domínio, e pretende assim reforçar uma frente oriental que sabe não estar sob ameaça de invasão?” E referindo-se às notícias que dão conta da intenção ucraniana de declarar a sua neutralidade e abandonar a intenção de se juntar à NATO ou de ter armas nucleares caso a russa retire as suas tropas e ofereça garantias de segurança, Chomsky interroga-se se os EUA estarão dispostos a ceder, salvando a Ucrânia de ainda mais miséria. A resposta de Biden no discurso da Polónia vai no sentido contrário a esta expetativa.

Na conclusão da entrevista, Chomsky lembra que o “Relógio do Apocalipse”, criado pelos cientistas atómicos já marca 100 segundos para a meia-noite, devido à ameaça nuclear, as alterações climáticas e o colapso da democracia e do espaço público livre. E a guerra na Ucrânia veio agravar esses três fatores, acrescenta.

“Tudo isto faz lembrar demasiado o que se passou há 90 anos, embora os riscos sejam hoje muito mais elevados. Nessa altura, os Estados Unidos responderam à crise liderando o caminho para a democracia social, em grande parte impulsionados pela revitalização do movimento laboral. A Europa afundou-se na escuridão fascista”, recorda o veterano ativista, concluindo que “o que vai acontecer não se sabe, a única certeza é que depende de nós”.

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