O sociólogo ucraniano Volodymyr Ishchenko, no seu relatório “A esquerda ucraniana durante e depois dos protestos de Maidan”, explica como a esquerda do seu país, que já estava dividida antes numa “velha esquerda” ligada ao período soviético e numa “nova esquerda” independente ou crítica de várias formas deste, se dividiu ainda mais durante o movimento da praça EuroMaidan em 2014. Enquanto uma parte participou neste movimento, a outra investiu nos protestos contra ele que ficaram conhecidos como o Anti-Maidan.
Pouco depois do derrube do presidente Yanukovych, a dinâmica do Anti-Maidan no Donbass acabou por ganhar contornos de uma insurreição armada separatista, o que “mudou dramaticamente as coisas”. Mas o que não mudou foi a divisão da esquerda e a sua fraqueza de ambos os lados.
A esquerda Anti-Maidan permaneceu marginal nesse processo até porque dificilmente “os senhores da guerra emergentes e os seus cuidadores do governo russo” a teriam deixado ocupar uma posição independente. Acabou assim por “continuar a sua degradação em direção a uma ala esquerda do nacionalismo russo e do governo imperialista russo” critica Ishchenko.
A esquerda pela paz desavinda
Sublinhe-se que, com a resposta do governo ucraniano ao separatismo armado a transformar esta situação numa guerra, a maior parte da esquerda ucraniana tentou assumir uma posição anti-guerra. Porém, para além de diferentes formas de defender a paz, existiam igualmente divergências inultrapassáveis sobre quem tinha sido responsável pelo início do conflito.
Na sequência das suas posições anteriores ao longo de toda a crise política criada pelas mobilizações do EuroMaidan, o Partido Comunista da Ucrânia e Partido Socialista Progressista da Ucrânia, ao tomarem posição contra a guerra, culpavam apenas o governo ucraniano, desenvolvendo a ideia de que o governo americano, a União Europeia, os oligarcas e os neo-nazis o tinham criado. O PSPU chegou a caracterizar o bloqueio económico das zonas separatistas como um “genocídio” que tornava o Donbass num “euro-campo de concentração” para quem se opunha a um processo de fascização. Paralelamente, estes dois partidos continuaram a não criticar o governo russo. Também as “atrocidades causadas pelos separatistas” não eram mencionadas, “focando-se ao invés nos crimes das forças ucranianas”. Oficialmente, os dois partidos mantinham que não apoiavam as repúblicas separatistas, apesar de irem manifestando claramente alguma simpatia para com elas.
O campo pró-Maidan não tomava igualmente partido aberto no conflito e também se pronunciava a favor da paz. Se criticava ambos os lados, era fácil perceber na maioria das suas intervenções que as críticas eram bastante mais fortes quando dirigidas aos separatistas pró-russos. Por exemplo, os anarquista do AWU, o Sindicato Autónomo dos Trabalhadores, apresentavam estes grupos como sendo “uma junta fascista-criminosa” e a Oposição de Esquerda estigmatiza os participantes na rebelião como “grupos lumpen-criminosos e pessoas mais velhas, apoiantes da nostalgia soviética”.
Por detrás da retórica anti-guerra, entrincheiravam-se, assim, acusações de “fascismo” dos dois lados. Do lado da esquerda pró-Maidan “reconhecia-se a ameaça da extrema-direita ucraniana mas enfatizava-se que isso estava a ser exagerado, ao contrário da ameaça da extrema-direita dos nacionalistas russos”.
A tragédia de 2 de maio de 2014 em Odessa tornava evidente para muitos no campo pró-Maidan que o lugar da esquerda não podia ser ao lado dos nacionalistas de qualquer um dos lados. Nesse dia, confrontos entre grupos de extrema-direita, que de um lado integravam, por exemplo, elementos do Setor Direito e do outro elementos da chamada “Primavera Russa”, acabaram com muitos dos manifestantes que estavam no acampamento anti-Maidan no centro da cidade a procurarem refúgio na Casa dos Sindicatos de Odessa. As versões dos acontecimentos diferem, nomeadamente sobre quem começou a disparar e quem lançou primeiro cocktails molotov. O que é indiscutível é que aquele edifício acabou por ser incendiado tendo morrido dezenas das pessoas que lá estavam dentro.
Quando a guerra estalou, uma das formas da “nova esquerda” tomar posição foi através da divulgação de declarações públicas pela paz. Em junho de 2014, ativistas da Ucrânia, Rússia e Bielorrússia, reuniram-se para construir uma posição conjunta anti-guerra que ficou conhecida como a declaração de Minsk. Os membros do jornal Commons e da revista online Liva foram alguns dos que participaram. A posição adotada culpava a Rússia, a União Europeia e os EUA por “explorarem o conflito para seu interesse próprio” e manifestava-se contra a repressão política e a violência massiva utilizada pelos dois lados do conflito. Exigia-se ainda uma nova constituição, eleições em Donetsk e em Lugansk e um “verdadeiro” direito à auto-determinação quer na região do Donbass quer em todas as partes da Ucrânia.
Com mais de uma centena de subscritores, o manifesto foi criticado por um lado por apoiar o governo e pelo lado contrário por apoiar Putin. Apesar das reservas enunciadas, conseguiu apesar que a Oposição de Esquerda na Ucrânia e o Movimento Social na Rússia expressassem solidariedade para com o documento. O Borotba foi mais crítico, objetando que não se podia ficar neutro face ao carácter “fascista” do regime de Kiev, que esta declaração exigia a rendição das milícias em Donbass e que era injusta para a Rússia, defendendo que esta não estaria a apoiar os separatistas.
E os anarquistas do AWU criticavam a mesma declaração pela razão inversa: seria “implicitamente pró-Putin”. Por isso, lançaram uma declaração própria que se manifestava contra as juntas separatistas das duas repúblicas separatistas e contra o governo, condenando os fascistas de ambos os lados mas enfatizando a crítica sobretudo dos do lado pró-russo.
Estes manifestos, o primeiro dos quais Ishchenko assinou aliás, continuaram a ser, concede ele próprio, “pouco mais do que palavras em páginas de internet que tinham ainda de ser convertidas em políticas práticas”. Mas nem um movimento massivo anti-guerra, nem as iniciativas de apoio humanitário, nem a rede de apoio aos militantes de esquerda perseguidos na Ucrânia, que estava prometida na declaração de Minsk, chegaram a conhecer a luz do dia.
Os dados apresentados pelo sociólogo são elucidativos desta debilidade. Entre agosto e dezembro de 2014, apenas aconteceram 72 protestos abertamente críticos da guerra, sendo estes só 7% do conjunto dos protestos acontecidos nessa altura e tendo sido as ações pró-governamentais 3 a 4 vezes mais. E apenas 21 destes tiveram mais de cem manifestantes. Ainda assim, até nestes “a presença da esquerda era marginal” sendo maioritária a participação de membros do Partido Comunista da Ucrânia. Este partido tentou organizar uma marcha pela paz em Kharkov, em 27 de setembro, mas a polícia prendeu os organizadores.
Por esta altura Borotba e PCU estavam a ser perseguidos e a “nova esquerda” concentrada noutras reivindicações sociais. As iniciativas de ajuda aos refugiados de guerra desenvolvidas pela esquerda eram poucas, com destaque para as empreendidas pelo centro social ocupado Avtonomiya de Kharkov que nasceu em junho desse ano mas baseado num pequeno edifício.
Em julho, o PCU votou no parlamento contra a decisão de mobilizar o exército ucraniano para a guerra. E, em março do ano seguinte, apresentou um plano de descentralização do país que apresentava como uma última oportunidade para manter a Ucrânia unida.
A esquerda que escolheu um dos lados
Para além dos apelos à paz e das declarações de condenação dos dois lados, houve quem tivesse decidido escolher um deles sem ainda assim pegar em armas. As justificações iam desde a ideia desta ser uma guerra defensiva até à de que um dos lados era menos mau comparado com um mal bem maior.
A já referida tragédia de 2 de maio em Odessa, se tinha reforçado a convicção em algumas pessoas na “nova esquerda” da absoluta perniciosidade de qualquer proximidade com qualquer um dos campos nacionalistas, também fez com que outras pessoas à esquerda no campo pró-separatista temessem a ameaça fascista contra a população de Donbass e radicalizassem a sua posição. O autor deste estudo vê um momento de sentido inverso na adesão ao lado contrário no envolvimento do exército russo em agosto que impediu a derrota do separatismo.
Um dos partidos da esquerda ucraniana, o Partido da Justiça, que se tinha chamado antes Esquerda Unida e Camponeses, anunciava como objetivo construir uma social democracia. Para isso, seria, acreditava-se, necessária a unidade da Ucrânia fora da esfera de influência russa. Por estas razões, o seu líder, Stanislav Nikolayenko, declarou no congresso do partido em agosto de 2014 que o Estado precisava de mobilizar todos os recursos possíveis para ultrapassar o conflito militar na Ucrânia do Leste, para lutar contra a agressão russa”. O partido chegou mesmo a recolher fundos para ajudar à operação militar do exército ucraniano. Nas eleições de outubro de 2014, propunha quer medidas para fortalecer o exército quer “soberania da informação” e “segurança informativa” para combater a zombificação da propaganda russa. Ishchenko considera que isto equivalia a pedir censura aos órgãos de comunicação social.
Quem também decidiu alinhar nesse lado foi a Resistência Autónoma. Porque tinha tido origens na extrema-direita, e apesar de se ter deslocado muito para a esquerda, este grupo sempre levantou muita desconfiança em grande parte da esquerda. Com o desencadear do conflito, a sua lógica foi “claramente nacionalista”, analisando o conflito como sendo a continuidade da luta de libertação ucraniana contra a Rússia. Assim, a guerra seria “justa” e “defensiva” e uma posição neutral entre os dois nacionalismos seria apenas “demagogia que legitima o apoio passivo à nação opressora mais forte”.
Para além disso, o grupo repetia “o mito nacionalista da alegada migração massiva de camponeses russos depois da Grande Fome de 1932-33” que teriam substituído a anterior população local. O investigador ressalva que nesses anos o nível de migração russa para o Donbass terá sido de menos de 20.000 pessoas.
Ainda assim, a RA manteve a sua crítica ao governo e reconhecia o perigo de um imperialismo ocidental tomar conta do país. Mas a sua tese era de que o imperialismo russo seria mais perigoso e destruiria o próprio país. Para eles, a burguesia ucraniana não seria capaz de defender a nação e seria preciso uma revolução social para travar as reformas neoliberais e restrições aos direitos civis.
Um outro coletivo anarquista, que alimentava o site Nihilist, próximo do AWU, apoiava o lado ucraniano alegando o seu carácter relativamente progressista. Volodymyr Zadyraka e Alexander Volodarsky analisavam a situação como opondo um campo revolucionário burguês que tinha derrubado uma burocracia corrupta a um lado nacionalista contra-revolucionário conservativo-clerical apoiado pela Rússia. As repúblicas separatistas apresentavam-se como um “fascismo sob uma capa anti-fascista” e o regime russo seria apenas “uma forma menos terrorista do mesmo ideal político fascista”. Considerava-se que os fascistas que apoiavam o governo ucraniano eram muito mais fracos, assumindo meramente posições secundárias nesse primeiro executivo pós-Maidan.
Apesar deste grupo dizer que no conflito entre capitalistas e fascistas os anarquistas não apoiam o capitalismo, Ishchenko coloca-o do lado dos que escolheram um lado. Isto, por exemplo, porque publicaram uma carta anónima de “um marxista” que justificava as suas razões para aderir ao exército ucraniano, porque criticavam o movimento anti-guerra como “incompetente, hipócrita e simplesmente estúpido”, porque menorizavam a repressão política no seu país. O investigador critica duramente a posição deste grupo por fazer referência a uma luta entre uma tendência contra-revolucionária e uma outra com algum teor revolucionário burguês, fazendo uso de um “marxismo vulgar”, quando se trataria de uma luta no interior da oligarquia, e por reduzir “o problema da subjugação da Ucrânia ao imperialismo ocidental” a uma “teoria da conspiração perigosa que serve os interesses da propaganda russa, juntando a extrema-direita pró-russa e a esquerda autoritária numa plataforma de anti-imperialismo”. A revista Nihilist respondeu recentemente a algumas das acusações que lhe são feitas, contra-atacando e acusando Ishchenko de fazer uma campanha de difamação.
Para o sociólogo, quem também escolheu um lado no conflito foi o Borotba, apesar do apoio crítico à declaração de Minsk e de uma retórica anti-guerra noutras iniciativas. Foi o único grupo à esquerda a apoiar as repúblicas separatistas no Donbass. Esse também era um apoio crítico que expressava desde início algumas reservas sobre “deficiências menores” nestes projetos políticos e considerando o inimigo principal o regime ucraniano “oligárquico e fascista apoiado pelo imperialismo”. Justificavam ainda a sua posição com uma análise de classe que encurralava Maidan num bloco oligárquico e pequeno-burguês e louvava a resistência a este como “mais proletária na sua composição de classe”.
Um ponto de partida que implicava que “a situação económico-social em deterioração, as políticas neoliberais, a repressão política, a dependência do novo governo dos EUA e das instituições financeiras internacionais, a ameaça da extrema-direita, as atrocidades causadas pelo exército ucraniano e pelos batalhões de voluntários na guerra do Donbass fossem alvo de críticas agudas e sistemáticas, enquanto problemas semelhantes ou por vezes maiores na República Popular de Donetks e na República Popular de Luganks fossem minimizados, silenciados, justificados ou legitimados”.
A esquerda que participou nos combates
Apesar de nenhum dos principais grupos de esquerda da Ucrânia terem participado diretamente na guerra, de ambos os lados que travaram a guerra houve combatentes de esquerda que aderiram a nível individual, “apoiados mais por redes informais de amizade do que por organizações ativistas”.
Os combatentes do lado “pró-ucraniano” foram “extremamente raros”, estavam “dispersos em diferentes unidades” e nunca chegaram a ter a capacidade de formar nenhum batalhão de voluntários ao contrário da extrema-direita. A maior parte terá vindo das redes anti-fascistas de adeptos de clubes de futebol como o Arsenal de Kiev. Viam a guerra como um começo de um possível movimento revolucionário e chegaram a chamar-se a “Guarda Negra da Ucrânia” apesar de não terem propriamente uma organização. A sua ação não teve nenhum impacto nas relações de forças no conflito.
Do lado separatista havia “números bem maiores” de combatentes de esquerda. O que se explica pela adesão de membros das células locais de Donetsk e Lugansk, particularmente da sua organização de juventude, o Komsomol. Registou-se ainda a participação de combatentes de outras organizações e até de países estrangeiros.
O caso com mais destaque é o do Destacamento de Voluntários Comunistas da brigada Prizrak da cidade de Alchevsk em Lugansk. Esta foi originalmente comandada por Mozgovoy, um populista monárquico com uma retórica anti-bolchevique que era, contudo, crítico das autoridades das repúblicas separatistas por não serem suficientemente democráticas. Apesar do conjunto da brigada Prizrak ser propagandeada por alguns como sendo uma força socialista, este investigador considera que o caráter comunista deste destacamento “não deve ser exagerado” porque “quase não há nenhuma menção ao marxismo” e dado que a adesão a este tipo de princípios políticos não era condição necessária para a adesão a ele.
Em geral, a esquerda que escolheu o lado separatista para combater, fê-lo sobretudo por motivações antifascistas e por uma “perceção muito exagerada de uma ameaça de genocídio” vinda do lado contrário. Com o 2 de maio a ser a referência. O autor do estudo considera que não tem possibilidade de radicalizar o processo de forma socialista “mesmo que fechemos os olhos a sua agenda política principalmente nacionalista em vez de centrada na classe”.
Ishchenko concluia que a situação da esquerda ucraniana face ao desencadear da guerra no Donbass foi de “impotência”. Para ele, a repressão na Ucrânia e a ausência de democracia nas repúblicas separatistas “apenas parcialmente explicam a ausência de atividades significativas anti-guerra”. E dizia ser importante defender uma posição socialista independente contra os imperialismos em competição de forma a contrariar as tendências dos pró-soviéticos para se reduzirem a uma “ala conservadora do imperialismo russo” e da esquerda libertária, liberal, pós-moderna de se tornar “uma ala liberal dos imperialismos dos EUA e da União Europeia”.