Em dezembro de 2015, o sociólogo Volodymyr Ishchenko publicou um estudo intitulado “A esquerda ucraniana durante e depois dos protestos de Maidan”. O documento de 128 páginas, encomendado pela delegação do partido Die Linke, da esquerda alemã, no grupo parlamentar europeu do GUE/NGL, analisava a forma como a esquerda daquele país se tinha posicionado nos acontecimentos de 2014 na encruzilhada dos interesses políticos e económicos dominantes, entre o nacionalismo russo e ucraniano e as posições liberais. O quadro que apresentava ajuda-nos a afastarmo-nos das narrativas mais simplistas sobre o que se passou nessa altura.
Segundo o autor, “os movimentos Maidan e Anti-Maidan eram ambos fenómenos altamente complexos nos quais não havia uma posição clara com que a esquerda pudesse obviamente simpatizar, alinhando-se com um ou com o outro nacionalismo e poder imperial rival”. Isto quer dizer que “ambos os movimentos combinavam elementos progressivos e reacionários” e que, por isso, as posições e intervenções da esquerda foram “complicadas e ambíguas, apesar de estarem fortemente enfatizadas e de serem apaixonadas devido à intensidade e violência dos acontecimentos”. E esta cisão entre os campos pró e contra Maidan na esquerda ucraniana teve também consequências na forma como a partir de fora se olhou para o conflito com um extremar de posições.
Os mitos de Maidan
Para Ishchenko, a revolta de 2014 contra o presidente Víktor Yanukóvytch, que teve como motivo imediato óbvio a sua súbita mudança de posição sobre a adesão da Ucrânia à União Europeia, “combinou reclamações sociais justas contra o governo corrupto de Yanukóvytch junto com ilusões europeias e um nacionalismo anti-russo”.
O sociólogo escrutina no seu estudo alguns dos mitos habituais sobre este movimento: que terá sido uma “revolução colorida” financiada pelos EUA; ou, por outro lado, que terá sido um movimento não-violento; ou ainda que terá sido hegemonizado pela extrema-direita e que terá dado lugar a um governo fascista (que para alguns até se confundiria com o governo que está hoje no poder).
De acordo com ele, “as elites dos EUA e da União Europeia apoiaram abertamente os protestos de Maidan e na verdade tinham financiado a “promoção democrática” na Ucrânia durante muitos anos. Contudo, a sua escala e consequências não devem ser exageradas.” Ou seja, os protestos foram “explorados pelos interesses dos EUA e da UE” ao invés de terem sido diretamente manipulados do estrangeiro”. Mas também os interesses políticos e económicos russos aí se manifestaram, assim como a luta entre “blocos concorrentes das elites política e dos negócios ucraniana”.
Outro dos aspetos analisados é o papel da violência no que então sucedeu. Para o autor, “Maidan não foi de todo um protesto pacífico como durante muito tempo foi descrito pela imprensa ocidental que o apoiou. Escalou a níveis de violência sem precedentes na história contemporânea ucraniana”. Mas salienta igualmente que “os pontos decisivos de viragem em termos de radicalização do protesto foram claramente em resposta à violência policial e repressão governamental”.
Sobre o momento mais dramático de Maidan, o massacre de 20 de fevereiro em que snipers dispararam contra manifestantes, a polémica continua. Ishchenko refere o “estudo mais sistemático” sobre estes acontecimentos, do investigador Ivan Katchanovski da Universidade de Ottawa, que conclui que “pelo menos alguns dos manifestantes podem ter sido mortos por uma operação de falsa bandeira feita por elementos do campo da oposição para provocar uma maior escalada de violência e impedir um acordo com Yanukovych”.
Os principais suspeitos são os elementos de extrema-direita presentes na manifestação (e que detinham controlo armado de vários dos prédios à volta da praça). A propósito deles rios de tinta têm corrido. Para este especialista houve “uma participação ativa e muito visível” nos protestos, especialmente do partido Svoboda e do Setor Direito e em particular nas ações violentas, mas “o seu papel foi fortemente exagerado pelos meios de comunicação social russos e pelas forças anti-Maidan”. Destaca-se ainda que “a ala liberal de Maidan não empreendeu quaisquer esforços sérios para se separar da extrema-direita, tentando na maior parte minimizar e silenciar a sua participação por razões estratégicas”.
Nada disto, contudo, “nos deve levar a concluir que a ameaça da extrema-direita” nestes movimentos e depois deles “foi inventada pelos meios de comunicação social russos”. A extrema-direita aproveitou a crise e a guerra subsequente para “aumentar influência e recursos, obter armas, formar grupos militares, alcançar postos nas polícias” aproveitando-se das “tentativas das autoridades de integrar voluntários de extrema-direita nas estruturas policiais e das forças armadas”.
Este processo de infiltração e de “integração” aconteceu mesmo ao nível governamental depois da fuga do presidente em exercício para a Rússia. Ishchenko lembra que membros do Svoboda participaram nesse governo, incluindo um dos vice-primeiros-ministros e o procurador-geral, e que o secretário de defesa e o ministro da Educação tinham tido “um passado político de extrema-direita”. Mas o governo não era fascista e mesmo esta influência política direta desapareceu depois das presidenciais de maio e das legislativas de outubro desse ano, com os resultados eleitorais baixos destas forças políticas.
E Anti-Maidan?
Como é conhecido, uma contra-vaga de protestos emergiu então. O sociólogo ucraniano considera que estes foram “principalmente organizados de forma vertical pelo Partido das Regiões”, de Yanukovych, para “simular apoio de massas” mas “subitamente ganharam uma dinâmica poderosa de base nas regiões do sudeste da Ucrânia no final de fevereiro”.
Entre as reivindicações constavam referendos sobre a auto-determinação destas regiões e o medo da extrema-direita e da discriminação contra russófonos também desempenhava um papel, o que era “agravado pela propaganda histérica dos meios de comunicação social russos”. Mas outras razões havia. Nomeadamente sociais: as de que uma integração europeia pudesse “ser danosa para as indústrias pesadas das regiões leste, orientadas para o mercado russo”; a desilusão com os governos “por se ter deixado degradar a indústria e a indústria”; e a esperança de maiores salários e pensões em caso de uma integração na Rússia.
Em abril, começaram as ocupações de edifícios governamentais em Donetsk, Lugansk e Kharkov e a proclamação de “repúblicas populares”. E, no dia 12 desse mês, Igor Strelkov (Girkin), um ex-agente de segurança russo e ativista monárquico, iniciou a insurreição armada em Slavyansk, uma cidade de Donetsk. “Foi seguido por vários voluntários russos – muitos motivados pela ideia nacionalista de unir todo o mundo russo”, outros defendendo explicitamente o regresso do império russo.
O investigador vinca que “tudo isto levantou questões acerca da aplicabilidade do conceito de “guerra civil” a este conflito ou se não se trata apenas de propaganda russo para encobrir uma intervenção militar”. O que é certo é que mais tarde “a Rússia apoiou os rebeldes com armas e dinheiro”. Em agosto desse ano, quando as forças ucranianas estiveram à beira de vencer, “é amplamente reconhecido (pelas forças pró-separatistas também) que unidades regulares do exército russo intervieram diretamente”.
Ressalva-se ainda que o conflito não estava “fortemente alinhado nas divisões étnicas e linguísticas” do país. Ou seja, “russófonos têm estado a lutar em massa de ambos os lados do conflito”.
A influência e apoio ocidental do lado da Ucrânia e russa do lado das repúblicas separatistas leva Ishchenko a classificar as duas entidades como “estados clientelares” e economicamente dependentes, apesar de, “obviamente”, a Ucrânia ter maior sustentabilidade económica e do controlo político da Rússia nas “repúblicas populares” ser “significativamente” mais apertado pelo que, mais do clientelares, até se lhe poderia chamar “estados fantoche”. Para além disso, ambos os regimes promovem o nacionalismo, usam repressão política e limitam direitos civis, mas “as oportunidades para uma oposição política ainda existem na Ucrânia enquanto que qualquer oposição política na República Popular de Donetks e na de Lugansk é efetivamente não existente”. Na Ucrânia, o conservadorismo tem de ser contraposto com os “valores europeus”.
Resumindo, lia-se o conflito nesta altura como envolvendo, para além das elites locais, “imperalismos rivais” e os nacionalismos russo e ucraniano “em competição e que se reforçam mutuamente”.
Nota: Este é o primeiro de uma série de três artigos sobre a análise de Volodymyr Ishchenko à situação na Ucrânia e a esquerda ucraniana após a revolta de 2014.