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Líbano à beira de crise alimentar grave

Quem o diz é o primeiro-ministro num artigo no Washington Post. O preço dos alimentos duplicou desde março num país que importa mais de metade do que consome.
O primeiro-ministro libanês Hassan Diab. Foto de Elias zaghrini/wikimedia commons.
O primeiro-ministro libanês Hassan Diab. Foto de Elias zaghrini/wikimedia commons.

“Outrora o celeiro do Mediterrâneo leste, o Líbano enfrenta agora um desafio dramático que parecia inimaginável há uma década: o risco de uma crise alimentar grave”. É assim que Hassan Diab, primeiro-ministro do Líbano, descreve, num artigo no Washington Post, a situação que o seu país atravessa. As causas serão quer a crise financeira que o país atravessa há vários meses, quer os problemas acrescidos devidos à pandemia quer na produção doméstica, quer na capacidade de importação. A covid-19 e os confinamentos “pioraram dramaticamente a crise económico e desarranjaram profundamente as cadeias de abastecimento alimentar”.

Desde finais do ano passado, a moeda desvalorizou mais de metade do seu valor, a inflação tornou-se galopante, o desemprego é endémico, os serviços públicos altamente frágeis e falta acesso frequente a bens de primeira necessidade como água ou eletricidade. Em março, o governo declarou o incumprimento do pagamento da dívida.

O país tem atravessado também uma crise política e social grave. Agora, depois do confinamento, os protestos estão a voltar à rua. Numa coisa Diab concorda com eles: a incompetência e a corrupção estão também na origem da situação de falta de investimento na agricultura e de descalabro completo do país.

O governante pede ajuda aos EUA e à União Europeia, ao mesmo tempo que apela a que não se restrinjam as exportações de bens alimentares. Caso contrário, “a fome pode despoletar uma nova vaga migratória para a Europa e destabilizar ainda mais a região”

Estamos a falar de um país que importa mais de metade da comida que consome, “o que é uma grande vergonha e um sério perigo para a nossa soberania alimentar” segundo o chefe de governo libanês. Cerca de 80 por cento do trigo chega de países como a Ucrânia e a Rússia. Esta última já suspendeu as vendas. A primeira pondera fazer o mesmo.

Quase ao mesmo tempo que através do influente jornal norte-americano mandava esta mensagem externa, Hassan Diab anunciou domesticamente, numa intervenção feita pela televisão, que recebeu “uma promessa” do governador do Banco Central do país de que este vai “intervir no mercado, a partir de hoje, para proteger a libra libanesa e travar a subida da taxa de câmbio do dólar".

O primeiro-ministro acrescentou que a importação de bens alimentares básicos iria ser ajudada e os preços “monitorizados”.

Apesar das suas queixas sobre o sistema político, Diab, que é primeiro-ministro desde janeiro, não é um estreante nestes meandros. Depois de uma carreira académica como professor de engenharia, entre 2011 e 2014 foi ministro da Educação. Declarando-se independente, o seu governo é sobretudo composto de tecnocratas, contando com o apoio de uma coligação apoiada pelo Hezbollah. Ao contrário da sua comunidade de proveniência, a sunita, cujos deputados não apoiaram a formação de um governo que prometia a criação de uma nova lei eleitoral e a devolução dos fundos públicos pilhados ao longo dos anos.

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