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“Julgamento irá mostrar que Rui Pinto é um lançador de alerta excecional”

O autor das denúncias do ‘Football Leaks’ vai ser julgado em Portugal por 90 crimes. Para o seu advogado William Bourdon, ficou evidente que a justiça portuguesa prefere criminalizar Rui Pinto a perseguir “as redes criminosas portuguesas reveladas pelo Football Leaks”.
Foto Marco Verch/Flickr

O denunciante dos negócios ilegais do mundo do futebol europeu, envolvendo paraísos fiscais, fraude fiscal e branqueamento de capitais nos contratos de compra e venda de jogadores de futebol conheceu esta sexta-feira os crimes pelos quais irá em julgamento em Portugal. Rui Pinto fica acusado de 90 crimes: seis de acesso ilegítimo, um de sabotagem informática, 14 de violação de correspondência, 68 de acesso indevido e um de tentativa de extorsão.

“Das seis infrações citadas no mandato de detenção europeu, passamos a 93 [a informação foi depois corrigida para 90]. O princípio de especialidade ligado à extradição fica gravemente desfeito quando se multiplica por 15 as acusações proferidas”, acusou William Bourdon, advogado de Rui Pinto e especialista na defesa de lançadores de alerta como Julian Assange.

“Agora ninguém pode continuar a duvidar que as autoridades portuguesas são mais zelosas a criminalizar Pinto do que as redes criminosas portuguesas reveladas pelos Football Leaks. A assimetria é total”, declarou Bourdon ao jornal Le Monde, prometendo apresentar uma queixa junto da Comissão Europeia na próxima semana. Quanto ao julgamento de Rui Pinto, Bourdon prevê que seja "um grande processo com a presença de testemunhas de primeiro plano que permitirão demonstrar que ele é um lançador de alerta excecional".

Também citado pelo Le Monde, Phillipe Renz, um advogado suíço da empresa de gestão de jogadores Sport 7, que tem feito guerra ao mundo de opacidade dos agentes de futebol, afirma que no momento em que a justiça portuguesa fecha esta acusação “ela tem a obrigação de fazer uma operação de grande impacto contra os queixosos deste caso que estão mergulhados no crime organizado denunciado por Rui Pinto”. Enquanto isso não acontecer, prossegue Renz, “este deve ser libertado de imediato e só poderá ser verdadeiramente julgado quando as práticas ilícitas e criminais desses atores forem também investigadas e presentes à justiça”.

No despacho da juíza de instrução, Cláudia Pina defende que Rui Pinto “nunca poderia ser enquadrado na categoria de whistleblower“ para escapar ao julgamento, já que é acusado de tentar extorquir dinheiro a um fundo de investimento então ligado ao mundo do futebol, a Doyen, com a ajuda do seu advogado, também acusado neste processo. Rui Pinto diz que nunca chegou a concretizar essa tentativa, tendo instruído o seu advogado a contactar a Doyen para perceber o quanto valeria a informação na sua posse.

Com os muitos terabytes de informação recolhida nos servidores de clubes de futebol e empresas ligadas ao meio, incluindo algumas sociedades de advogados, Rui Pinto compilou e publicou alguma dessa informação na forma de emails trocados entre figuras do mundo futebolístico. E colaborou também com autoridades fiscais de vários países, permitindo recuperar milhões de euros em impostos não pagos por clubes, empresários, jogadores ou treinadores.

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