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House of Cards, retrato da nossa época?

Ao revelar dramaticamente como a política se distanciou dos cidadãos, esta série retrata o tempo em que vivemos e assume um certo caráter shakespeariano. Artigo de Daniel D’Addario, publicado na Salon.
Frank Underwoodf, protagonista da série interpretado por Kevin Spacey.

“Apresentaram-nos isto assim, muito antes de ser escrito o 1º episódio da 1ª temporada: tu serás a Lady Macbeth do Ricardo III dele”.

Assim afirmou a estrela do “House of Cards” Robin Wright, utilizando grandes referências inglesas para descrever a série – e o seu relacionamento com a personagem de Kevin Spacey, numa recente mesa-redonda com jornalistas. Este tipo de comparações é tão antigo quanto a própria trajetória da série, que estreou como uma série de  TV britânica adaptada posteriormente para o canal Netflix. Spacey, que encenou como Ricardo III em 2011 e 2012, afirmou que o ponto central da série (não o originalparaa versão americana) está totalmente relacionado com a peça de Shakespeare.

Molly Parker, que interpreta um parlamentear recém-eleito, na segunda temporada, disse na mesa-redonda: “sinto que a série tem um quê shakespeariano, é um tipo de Ricardo III – e refere-se, na temática, a Macbeth”.

Isso parece, à primeira vista, caricato. House of Cards foi indicado para os Emmys e Globos de Ouro, mas compará-lo com a arte mais duradoura do cânone ocidental é um exagero — assim como comparar The Wire a um romance de Charles Dickens, o que também acontece com frequência.

House of Cards é de pequeno calibre, em certo sentido. Mostra-nos as maquinações políticas, mas ninguém percebe que a nação será significativamente diferente se tudo o que o pensamento de Frank Underwood maquina ocorrer, sobretudo porque as suas posições políticas parecem em grande parte destinadas a preservar o seu poder. As negociações com o sindicato dos professores e as tramas com os governos estaduais aparecem como enredos menores, o que revela o efeito do poder sobre a alma mas não, exatamente, o que o poder pode alcançar.

Mas isso não se encaixa no nosso tempo, de certa forma espiritual? Vista daqui a alguns anos, a série House of Cards podeparecer uma encenação histórica sobre a nossa época, prenunciando a completa desconexão entre os governos e os cidadãos. As suas falhas, - o grau em que, numa série sobre política, os políticos são bastante irreais – ilustra bem a baixíssima confiança nos governos. “Esse tipo de poder é muito transparente e é muito shakespeariano e está relacionado a ganância”, disse Wright sobre o poder político. Na verdade, a série não descreve o efeito corrosivo do poder sobre uma nação, mas sobre uma única pessoa. Talvez, como Shakespeare, os roteiristas de House of Cards tenham capturado o seu tempo de uma maneira que possa ser estudado pelas futuras gerações.

E a alma corroída no centro da série é, se não digna de Shakespeare, também não um mero derivativo dele. Há algo em jogo que o escritor reconheceria. A personagem Frank Underwood é um arquétipo que não muda, mas vai se tornando mais complexo no decorrer da série, relevando novas faces ao público. Mas Ricardo III, uma personagem maquiavélica, não é o único arquétipo na obra de Shakespeare. Portia, [a heroína de O Mercador de Veneza] é, no fundo, boa. Romeu é apaixonado e dramático. Hamlet, indeciso. Shakespeare foi um mestre das personalidades por ter sido o primeiro a pesquisá-las tão profundamente. Os tipos que ele usou parecem familiares quando comparamos a pureza manipuladora e a sede de poder de Frank Underwood, com o tipo bom e simples que ele aparenta ser.

No tempo de Shakespeare, o seu trabalho era tão popular quanto o jogo mais sofisticado da época. House of Cards não está a inventar a conceção moderna da humanidade, como Shakespeare fez. Isso só pode ser feito uma vez. Nessa obra de arte popular, à qual flores ou tomates serão lançados via Twitter, obtemos algumas verdades óbvias e elementares através de um enredo complexo, projetado para manter a audiência durante o maior tempo possível. A linguagem mudou, mas o método – tornar visível a realidade, por meio de personalidades específicas – nem tanto. Comparar House of Cards com Shakespeare não é pretensioso. Na verdade, deveríamos comparar mais coisas com Shakespeare. Se a obra do escritor é tão grandiosa, deveríamos procurar as suas digitais em todos os lugares, e nos alegrar quando entendemos por que uma série de TV é tão envolvente, a ponto de sacrificarmos um longo final de semana para nos empanturrarmos dela.

 


Artigo publicado em http://www.salon.com/2014/02/14/yes_house_of_cards_is_our_shakespeare/

Tradução de Cauê Seignemartin Ameni para o Outras Palavras

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