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A Escola como campo de batalha cultural para a extrema-direita

A escola é um campo de lutas que deve ser reinvestido, não deixando o monopólio da contestação apenas às forças retrógradas. Entre as sereias reacionárias e a gestão tecnocrática do sistema educativo, o movimento social deve encontrar o caminho que conduz a uma escola de igualdade e de emancipação. Por Grégory Chambat.
Reconstituição de uma sala de aula francesa do início do século XX. Foto de patrick janicek/Flickr.
Reconstituição de uma sala de aula francesa do início do século XX. Foto de patrick janicek/Flickr.

Uso obrigatório de uniforme, regresso do estrado, seleção precoce (a partir do 5º ano…), limitação do ensino ao “básico”, romance nacional1, saudação à bandeira e restabelecimento da autoridade do professor... eis a que se reduziu o debate e é por vezes difícil distinguir qual dos dois candidatos à segunda volta das presidenciais francesas defendia esta ou aquela reforma no domínio da educação.

Uma retórica que disfarça políticas orçamentais de “baixo custo” e, sobretudo, desvia a atenção de outras questões: a luta contra as desigualdades sociais, o desafio de uma pedagogia crítica que nos permita compreender o mundo e mudá-lo, a emergência de uma escola verdadeiramente democrática, tanto nos seus objetivos como no seu funcionamento quotidiano.

No entanto, não nos encontramos entre aqueles que dizem que os dois candidatos são iguais. Sindicalistas, educadores, militantes antifascistas, feministas, defensoras dos imigrantes sem papéis, conhecemos demasiado bem as consequências imediatas e terríveis da ascensão da extrema-direita ao poder, com a polícia, o exército, o sistema judicial, a hierarquia da Educação Nacional, etc., nas suas garras. A fórmula utilizada durante a campanha de 2017 por um executivo da Frente Nacional para definir o projeto educativo do partido continua a ser relevante: "Corrigir os corpos, corrigir as mentes para corrigir a nação".

Para explicar como a escola se tornou um dos terrenos da batalha cultural destinado a estabelecer a hegemonia das teses reacionárias é necessário recordar a obsessão histórica da extrema-direita com a questão escolar; mas é também importante analisar a forma como este discurso se "banalizou" – sem desvanecer – indo além do quadro dos gabinetes em que foi forjado.

Como evidenciado por esta declaração de Marine Le Pen, em Dezembro de 2017, "o entusiasmo em torno do Sr. Blanquer2, que pode mesmo ser descrito como o 'fenómeno Blanquer', constitui uma notável vitória ideológica para a Frente Nacional e uma derrota esmagadora para os sociólogos e pedagogos que se tinham, contudo, apoderado metodicamente da instituição escolar".

Mas porquê educar o povo?

A instrução do povo foi durante muito tempo prerrogativa da Igreja que pretendia: "normalizar o comportamento social através da interiorização de uma moralidade prática com regras simples: respeitar os pais, obedecer aos professores, ter costumes puros, evitar o mal". (Conselho de Trento, 1563).

Para a Revolução Francesa, era menos uma questão de transformar esta educação religiosa e os seus métodos do que a de controlar e colocar as suas práticas pedagógicas ao serviço da nova ordem social e política. A partir de 1790, a educação passou a estar sob a tutela do Ministério do Interior antes de ser adstrita ao Ministério dos Assuntos Eclesiásticos (em 1824).

A instrução dos dominados é acima de tudo uma questão de ordem para a classe dominante. Numa carta aos diretores das escolas de formação de professores, François Guizot, Ministro da Educação Pública, declarou que "o grande problema das sociedades modernas é o governo das mentes, pois a ignorância torna as pessoas turbulentas e ferozes; a educação primária universal será uma das garantias de ordem e estabilidade social", desde que "se tenha o cuidado de não alargar demasiado a educação; [para] desenvolver o espírito da ordem".

O futuro carrasco da Comuna, Adolphe Thiers, encorajou a aprendizagem exclusiva dos 'fundamentos', uma ideia que ainda hoje é muito popular: “Ler, escrever, contar, isso é o que deve ser aprendido. O resto é supérfluo. Devemos ter o cuidado de não discutir doutrinas sociais na escola, as quais devem ser impostas às massas.”

Quanto a Jules Ferry, pretendia "fechar a era das revoluções" e a sua escola opunha-se tanto ao domínio da Igreja sobre a instrução quanto à educação integral e emancipatória levada a cabo pelo movimento operário e que tinha sido esboçada durante a Comuna de Paris que pretendia implementar uma educação livre, laica, pública e… integral!

Escola do povo ou escola para o povo?

Este desvio através da história da instituição escolar em França não é inútil para compreendermos dois aspetos fundamentais do discurso da extrema-direita:

- Não é o conhecimento em si que é emancipatório mas as condições em que é apropriado, ou seja, a questão pedagógica é também uma questão social e política… Assim, Paulo Freire opôs a sua "pedagogia do oprimido" à conceção "bancária" do ensino em que o aluno é um simples espetador-consumidor de saberes que lhe são "depositados" como se faz numa conta bancária…

- O outro elemento-chave é que a reação não se destina tanto a destruir a escola mas a combater quem – pedagogos, sociólogos, sindicalistas, historiadores críticos, etc. - milita, por palavras e atos, por uma outra escola. É uma das medidas do programa educativo da União Nacional: "Reforçar a exigência de neutralidade absoluta dos membros da profissão docente em matéria política, ideológica e religiosa em relação aos alunos que lhes são confiados. Aumentar o poder dos organismos de inspeção a este respeito, e tornar obrigatória a denúncia de casos problemáticos, sob pena de sanções contra os supervisores".

Ódio à igualdade, à democracia e à pedagogia

É por isso que, desde há 150 anos, se encontram as mesmas obsessões nas muitas batalhas travadas pela extrema-direita.

O ódio à igualdade entre os sexos, com Édouard Drumont, autor de La France juive e diretor de La Libre parole, a fustigar a co-educação entre sexos praticada por Paul Robin (pedagogo e militante da Primeira Internacional) no orfanato de Cempuis e que foi obrigado a demitir-se em 1894 por "conduta subversiva". A mesma violência, a mesma cólera, nas fileiras da “Manifestação por todos contra os estudos de género” ou em Farida Belghoul nas suas “Jornadas de Retirada da Escola” que conseguiram obter do então ministro Benoît Hamon a retirada do "ABCD da igualdade" (contra os estereótipos de género).

A "reeducação nacional" defendida pela Liga dos "professores patrióticos" no início do século XX, que se opôs aos primeiros sindicatos de professores, acusando-os de pregar a luta de classes e o internacionalismo em vez do amor ao país… Uma ideia que reaparece hoje com o “romance nacional” para o qual a missão ideológica e nacionalista da instituição tem precedência sobre o ensino de uma história crítica e científica.

A igualdade social, acima de tudo, está na primeira linha dos ódios da extrema-direita. O mesmo ódio e violência foi dirigido contra a escola única (que pôs fim à divisão entre os dois tipos de ensino da escola Ferry3) e contra o colégio4 único. Para a Action Française5, "o inimigo da educação é a democracia" e, desde o final dos anos 1970, a democratização da escola – mesmo com todas as limitações que lhe podem ser apontadas – continua a ser considerada como a causa do colapso do nível e da decadência da escola.

O regime de Vichy, liderado pelo Marechal Pétain, que era obcecado pelas escolas, implementou este programa: abolição das escolas de formação de professores ("aqueles maus seminários da democracia"), proibição dos sindicatos, paridade de subvenções entre os sectores público e privado, e exposição do crucifixo e do retrato do Marechal nas paredes de todas as salas de aula.

Durante a Libertação6, a extrema-direita baixou a cabeça e as forças progressistas imaginaram outra escola democrática e social com o Plano Langevin-Wallon que nunca foi realmente implementado.

Mas foi a partir dos gabinetes de intelectuais cansados da política da "vara de ferro" que a extrema-direita lançou uma nova estratégia, a de reconquistar a hegemonia cultural. Em 1968, foi fundada o Groupement de recherche et d'études pour la civilisation européenne, GRECE (a Nova Direita), cuja revista se intitulava Nouvelle école. Em 1976, este grupo também criou o "GENE" (Grupo de Estudo para a Nova Educação). Pretendia impor o seu vocabulário, a noção de "igualitarismo" por exemplo, do qual a instituição escolar seria o vetor. O Club de l'Horloge, por ocasião de um colóquio e da publicação de um livro, coloca "a escola em julgamento". A decadência da escola, com o seu igualitarismo e democratismo, seria o prelúdio para o colapso da civilização. Esta é uma mensagem que precisa de ser martelada nos meios de comunicação social, para as famílias, mas também para os docentes.

A primeira tentativa foi feita, em 1987, com o "Circulo nacional dos professores", rebatizado "Movimento pela educação nacional", quando Mégret tinha um sonho de criar os sindicatos da Frente Nacional.

Em 2013, Florian Philippot lançou o Collectif Racine dos "professores patriotas", um modelo para futuros coletivos com o objetivo de estabelecer a Frente Nacional no seio da sociedade civil. Em 2016, Marine Le Pen inaugurou as suas "convenções presidenciais" com a escolha do tema da escola. E em Béziers o programa educativo do Presidente da Câmara, Robert Ménard, baseia-se numa pergunta: "Quando é que começamos a limpar a escola de Maio de 68?” Uma obsessão inalterada, portanto, mas que não explica tudo...

A batalha das ideias

As pessoas falam frequentemente da "desdiabolização" da "nova" Frente Nacional, esquecendo que, desde a sua criação em 1972, foi concebida como um projeto para "tornar respeitável" a extrema-direita. Mas para tornar esta estratégia eficaz, ela deve tornar as suas ideias "comuns" e esperar que elas se espalhem para além das suas próprias fileiras. A educação oferece uma ilustração da forma como a FN agora tira partido das renúncias de uma certa esquerda. Como observa Jacques Rancière, "É, de facto, em torno da questão da educação que o significado de algumas palavras – república, democracia, igualdade, sociedade – oscilou".

1984... Ano decisivo

No outro extremo do espetro político, a escola é também um campo de experimentação e constitui, juntamente com a adesão à economia de mercado e à ideologia da segurança, um dos pilares do abandono de qualquer projeto de transformação social por parte da esquerda de governo.

No dia seguinte à retirada do projeto de unificação da educação sob pressão das manifestações em defesa das escolas privadas, Jean-Pierre Chevènement foi nomeado Ministro da Educação Nacional do governo Fabius7. O objetivo era encarnar um "modernismo" liberal. O novo ocupante da Rue de Grenelle tinha preparado a sua chegada, consultando, por exemplo, Jean-Claude Milner, autor de um panfleto sobre a escola e inventor do conceito vago de "pedagogismo". Para o ministro, o projeto era claro: "substituir o socialismo pela República": é a Marselhesa obrigatória, o regresso da educação cívica abandonada depois de 1968, sem esquecer a introdução de estágios nas empresas!

A luta contra as desigualdades cedeu lugar à exaltação dos valores normativos: lei, autoridade, hierarquia e liberdade económica… Segundo Bruno Théret, foi "a consagração republicana do neo-liberalismo". Um programa completo resumido no título do livro de Jean-Pierre Chevènement, publicado em 1985: “Aprender a empreender”. No final do seu tempo no ministério, declarou que "é necessário fazer pela economia, pelo emprego [...] o que ele fez na educação".

A onda "anti-pedagógica"

A nostalgia escolar volta então em força (mais de uma centena de livros foram publicados desde 1980). O modelo é a escola de antanho, cuja autoridade, gosto pelo esforço e – num completo contra-senso histórico – meritocracia são celebrados... Todas as vozes críticas devem ser também afastadas: as dos sociólogos com a sua "cultura da desculpa", historiadores da educação, pedagogos (os "pedabobos").

Constantemente martelado, este discurso tornou-se agora hegemónico, ou seja, surge como evidente não precisando (mais) de ser discutido.

Alguns dos autores destes panfletos "anti-pedagogistas" vêm da esquerda. Alguns deles juntaram-se agora à direita conservadora dura (Jean-Paul Brighelli, o autor de La Fabrique du crétin, foi conselheiro de educação do partido de Dupont-Aignan, Debout la France, e declara que apoia "80% das ideias da FN sobre a escola").

Nem todos estes "anti-pedagogos" são apoiantes da FN, longe disso. Mas é apropriado, sem amálgama, questionar a continuidade ideológica de um projeto educativo autoritário e do projeto social que lhe está subjacente. É possível educar para a liberdade, igualdade, democracia ou mesmo cooperação e o coletivo através da submissão, seleção, autoridade e competição permanente?

A Escola alvo consentido?

Se a escola é agora o alvo da extrema-direita (não há nem uma intervenção mediática de Zemmour sem referência à escola da ideologia anti-racista e LGBT) e um espaço de experimentação para os ultra-liberais (as escolas do projeto Espérance banlieues8 por exemplo), a instituição não é infelizmente imune à revolução conservadora.

É-lhe exigida a inculcação dos "valores da República", que se tornaram "indiscutíveis", e a transmissão do amor pela pátria, submetendo-se, num contexto de restrições orçamentais, à adaptação a um liberalismo cada vez mais autoritário, tanto nos seus objetivos como nos seus métodos. Também não hesita em reprimir professores e sindicalistas, como os nossos seis colégios da Escola Pasteur, em Saint-Denis.

A luta contra a extrema-direita e os republicanos reacionários é, portanto, também uma batalha pedagógica. A onda conservadora que nos submerge atualmente não parece encontrar muita resistência. A escola é um campo de lutas que deve ser reinvestido, apontando o perigo de deixar o monopólio da contestação da instituição apenas às forças retrógradas. Entre estas sereias reacionárias e a gestão tecnocrática do sistema educativo, o movimento social deve encontrar o caminho que conduz a uma escola de igualdade e de emancipação.


Grégory Chambat é professor e faz parte da equipa da revista Questions de Classe(s). É autor de vários livros sobre o ensino como L’école des réacs-publicains (Libertalia, 2016), L’école des barricades (Libertalia, 2014), Apprendre à désobéir, petite histoire de l’école qui résiste (com Laurence Biberfeld, Libertalia, 2013) e Pédagogie et révolution. Questions de classes et relecture pédagogique (Libertalia, nouvelle édition 2015).

Publicado originalmente na revista Contretemps. Traduzido por António José André para o Esquerda.net.


Notas:

1A expressão “romance nacional” em França designa a narrativa histórica patriótica oficiosa criada a partir do século XIX e divulgada nos programas escolares.

2 O ministro da Educação de Macron.

3Jules Ferry foi o ministro da Educação francês que implementou a reforma educativa que laicizou o ensino e tornou a escola primária gratuita e obrigatória. Para além deste papel, foi também um dos repressores da Comuna de Paris e um chefe do Conselho de Ministros apostado na expansão colonialista de França.

4Em França, “colégio” designa o primeiro ciclo dos estudos secundários com a duração de quatro anos.

5A Ação Francesa é um movimento reacionário e monárquico. Continua a existir apesar do seu período mais forte ter sido no início do século passado sob influência de Charles Maurras, um intelectual anti-semita e “nacionalista” que apoiou o regime colaboracionista de Vichy sob domínio nazi.

6A “Libertação” é o fim da invasão nazi da França.

7O governo socialista de Laurent Fabius durou dois dos anos (1984-6) da presidência de Mitterrand.

8Este projeto criou várias escolas privadas em bairros da periferia apresentados como “problemáticos”. Surge com o apoio de grandes empresas e foi impulsionado pelo lóbi das escolas privadas “Fundação para a Escola”.

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