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Equador: “Estão a calar os trabalhadores da saúde pública”

O sistema de saúde do Equador está próximo do colapso. O governo de Moreno cortou um terço do investimento em saúde e despediu 2500 trabalhadores do setor no ano passado. Agora impõe uma “cultura do silêncio” para abafar problemas. Por Romano Paganini.
Camas de hospital improvisadas no Parque Bicentenario do Centro de Convenções de Quito, abril de 2020. Foto de Jose Jacome/EPA/LUSA.
Camas de hospital improvisadas no Parque Bicentenario do Centro de Convenções de Quito, abril de 2020. Foto de Jose Jacome/EPA/LUSA.

Há anos que o sistema de saúde no Equador está próximo do colapso. Agora, pior com a pandemia da Covid-19. Por isso, hoje de manhã, saíram à rua médicas, enfermeiros e auxiliares para manifestar o seu descontentamento, a nível nacional. O que pedem é um mínimo de proteção contra o vírus e um máximo de respeito, por parte do governo e da sociedade civil.

Foi em inícios de março de 2019 que o governo de Lenín Moreno despediu mais de 2.500 trabalhadores da saúde em todo o país. Quase um terço afetou a província de Guayas e a sua capital, Guayaquil. Dias depois, os trabalhadores viajaram em autocarros até Quito, manifestando-se frente ao palácio presidencial e foram reprimidos pelas forças anti-motim.

Um ano e um par de dias depois, a força pública está outra vez na rua, mas desta vez, em Guayaquil. Face à pandemia da Covid-19, o sistema de saúde da cidade costeira colapsou e dezenas de pessoas morreram nas ruas. O Estado militarizou a zona. Os bairros e avenidas foram fumegados com amónio quaternário. Por detrás das imagens aterrorizadoras, há um sistema de saúde cujo orçamento foi reduzido, ano após ano. Só, entre 2017 e 2019, os investimentos em saúde pública baixaram um terço. Isso, não somente afetou os hospitais e centros de saúde de Guayaquil, mas de todo o Equador.

Por isso, médicas/os, enfermeiras/os e outros trabalhadores da saúde manifestaram-se várias vezes, sobretudo nas redes sociais. E não é de agora. Mas claro: agora, com o temor do contágio com o novo coronavírus, os velhos problemas potenciam-se. Pediram que as pessoas fiquem em casa, para que o colapso do sistema de saúde seja menos forte. Além disso, exigiram consumíveis, tais como máscaras, óculos ou batas. São elementos básicos para se proteger de um possível contágio, mas que são insuficientes em vários lugares, mesmo que o governo diga que não.

Também, por isso, o pessoal de saúde do hospital Teófilo Dávila, em Machala, província de El Oro, organizou em meados de março um plantão na rua exigindo mais segurança. E, como se isto fosse pouco, o vice-ministro de saúde pública, Ernesto Carrasco, dias depois, comunicou que 43,8% dos infetados com Covid-19 eram profissionais de saúde, incluindo pessoal administrativo. A atual situação caótica no país fica demonstrada pelo facto de o seu chefe, o novo ministro da saúde Juan Carlos Zevallos, horas depois, desmentir este dado. Já não falou de 1.600 contagiados no pessoal de saúde, mas de 417. Os outros eram “suspeitos”.

Entretanto, o Colégio de Médicos de Guayas refutou as declarações do ministro Zevallos que assegurou que os médicos não se contagiaram com o vírus no trabalho mas de forma comunitária e fora dos hospitais. As autoridades, diz o comunicado, estão a tratar de “descartar a responsabilidade do Estado pela negligência no abastecimento de consumíveis medicinais e equipamentos de bio-segurança para os profissionais de saúde”.

O medo de denunciar a saúde pública

Assim, os trabalhadores da saúde pública não somente têm que lidar com poucos consumíveis, longas jornadas e um trabalho complexo – sobretudo para os que estão na primeira linha – mas também com um aparelho administrativo que não abastece. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos, em 2018, havia 24.751 enfermeiras/os no país, mas atualmente – assim comunicou a Federação Equatoriana de Enfermeiras (FEDE) na revista digital "ojoaldato.ec" – só conta com 16.500 enfermeiras/os. Por outras palavras: 30% a menos do que há dois anos. “A pandemia chegou num momento em que os serviços de saúde não estavam bem equipados, porque nunca se esperou que se iria expandir desta maneira”, diz a presidenta da FEDE, Patricia Gavilanez. “Todos sabem dos baixos orçamentos para a Saúde que tem o Equador".

A enfermeira Natalia Guevara (nome alterado por questões de segurança) lembra-se da gripe H1N1, em 2010, quando não havia consumíveis suficientes. Ela trabalha no Hospital Carlos Andrade Marín (HCAM), no Centro de Quito, um dos 16 hospitais do Equador que recebe pacientes com Covid-19. “Claro que temos medo de nos contagiar”, diz a mãe de três filhos, que atualmente cumpre turnos de 24 horas. “Se me acontecer algo, talvez me substituam por outra enfermeira, mas quem me vai substituir como mãe?” O medo do contágio com Covid-19, que pode ter consequências graves, levou várias enfermeiras, a nível do país – inclusivamente efetivas – a renunciar aos seus trabalhos.

Também por isso Natalia Guevara se zanga quando a sua chefe – como se passou, nestes dias – a questiona na altura de colocar a bata de proteção. “Se nós colocamos a bata é porque há um paciente suspeito”. A razão da pressão, por parte da chefe, encontra-se também noutros hospitais: escassez de trajes de proteção e das máscaras N95 que, segundo o pessoal de saúde são as que melhor protegem de um possível contágio. “De momento dão-nos só quatro máscaras cirúrgicas por turno e sempre temos que justificar cada consumível que usamos, mesmo sendo básicos”, denuncia Natalia Guevara.

Originalmente, a enfermeira do HCAM ia expor os problemas de trabalho juntamente com as/os companheiras/os. Queria dar a cara e falar em nome de todo o pessoal de saúde pública, mas quando chegou a hora ficaram com medo: é outro tema latente dentro do sistema de saúde. A cultura do silêncio ficou clara também durante e depois da Greve Nacional do ano passado, onde especialmente os/as médicos/as, por medo de perderem os seus trabalhos, preferiam não falar. “Tratam de calar os trabalhadores da saúde pública”, diz Natalia Guevara. “Querem que tudo apareça bem e que não exista nenhuma falha, coisa que não é verdade”.

Tentamos conhecer a opinião da direção do HCAM face a estas queixas. Mas, até ao encerramento da redação, não tivemos resposta. O que sucedeu é que o HCAM pediu ajuda ao municipio de Quito, que respondeu com uma doação de 600 batas de proteção e 250 máscaras N95, repartida entre quatro hospitais da cidade.

Não há garantias para o pessoal de saúde

Nestas semanas em que se aplaude o pessoal de saúde em todo o mundo, apesar de lutarem com problemas similares aos do Equador, também médicas/os enfermeiras/os, auxiliares, técnicos de laboratório e de imagiologia, paramédicas/os e pessoal de limpeza do país sentem o vento a seu favor. Impulsionadas pelos cortes massivos do ano passado, vários médicos, através do Twitter e Facebook, denunciaram as condições de trabalho, a falta de consumíveis e a comunicação inapropriada da parte do governo. Inclusive vários médicos foram ameaçados pelas autoridades de perderem os seus títulos se não deixassem as denúncias dos problemas em torno do Covid-19 nas suas redes digitais.

Distribuição de ajuda em Guayaquil, uma das cidades do Equador mais afetadas pela pandemia. Foto da autarquia local/Fotos Públicas.

O Instituto Equatoriano de Segurança Social (IESSe) já exigiu, a 20 de março, que toda a informação relacionada com o Covid-19 se difunda exclusivamente pelos canais do Estado, “pela veracidade que exige a cidadania em geral”. E, se alguém difundir uma “opinião falsa através de redes sociais ou de outros meios de comunicação, será remetido para o Ministério Público”.

“É que o governo não quer que os cidadãos descubram o que está a acontecer nos hospitais”, destaca David González, presidente da Rede União de Enfermeiras e Enfermeiros do Equador (RUNEEE). “Num país democrático, deve haver liberdade de expressão. E, se alguém reivindica algo é porque as coisas estão realmente mal”.

O enfermeiro que trabalha num hospital público, em Quito, atende pacientes em terapia intensiva e tem contacto direto com pessoas com o Covid-19. As suas bochechas estão feridas devido à pressão da máscara que é obrigado a colocar durante quase toda a jornada de trabalho. “Os únicos que sabemos o que se está a passar atualmente nos hospitais somos as pessoas que estão dia a dia medindo a situação”.

Anteontem, González lançou um áudio no WhatsApp, pedindo que se escutasse a sua mensagem em qualquer canto do país. “Queremos convidar os deputados a permanecerem 12 ou 24 horas e verem como as máscaras marcam a nossa cara e nos deixam cicatrizes”. González está indignado pela decisão da Assembleia Nacional da semana passada na qual foi refutada uma resolução que procurava garantir mais estabilidade laboral ao pessoal de saúde.

Apesar de o governo ter decidido contratar 120 profissionais de saúde para Guayaquil e mais 700 médicos, enfermeiros e auxiliares para todo o país, o presidente da RUNEEE está cético e pergunta: “que estabilidade e garantia damos? Contratos por três meses, que venham, que se contagiem e também contagiem as suas famílias?”. E, aludindo aos cortes dos anos passados e ao fim dos convénios com centenas de médicos cubanos, González insiste: “Quanto pessoal foi despedido no ano passado?”.

“Onde estão as autoridades do Estado?”

A mesma preocupação tem o pessoal de saúde noutros países. Claro, os apitos, as caçarolas, os gritos e aplausos que soaram hoje de manhã e que voltaram a soar hoje à noite são um bálsamo para as almas dos trabalhadores da saúde. Mas querem um reconhecimento para além das declarações sobre os Heróis de branco. “Queremos um tratamento com respeito e que se revejam tanto os nossos salários como as nossas condições de trabalho”, diz David González. “Um futebolista ou um político não é mais importante do que um médico ou uma enfermeira”.

González destaca que os salários na área da saúde estão congelados, há dez anos, apesar da carga laboral. Antes, uma enfermeira atendia sete a dez pacientes, “hoje, são entre quinze e vinte”. Por isso, González não crê que se conseguirá abarcar a pandemia atual com a quantidade de pessoal que está atualmente a trabalhar. “Isso não deveria acontecer em pleno século XXI”.

Natalia Guevara, enfermeira do HCAM, partilha esta visão. Ela está indignada porque não existe apoio, por parte dos 137 deputados. Em fins de março, votaram contra oferecer 25% dos seus salários para comprar materiais médicos. Decidiram que seja só 15% do valor desse mês. Entretanto, o deputado pela província de Pichincha, Pabel Muñoz, apresentou esta quarta-feira o “Projeto de Lei Orgânica para enfrentar a crise humanitária causada pela Covid 19, perante o presidente da Assembleia Nacional, exigindo a “atenção imediata” pela emergência, já que o governo, desde fins de janeiro, “quando se apresentou a primeira suspeita de Covid-19 no país (…) não foi capaz de emitir nenhum projeto de lei ainda que na ocasião coubesse uma discussão legislativa urgente”.

O que acontecerá aos salários dos deputados, em abril e maio, fica por debater. Ontem, a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador exortou-os para que ofereçam três meses dos seus salários. “Estamos a exigir, porque vivemos um momento muito crítico”, disse o seu presidente, Jaime Vargas. Para a enfermeira, Natalia Guevara, é um indicio de que o único interessa dos políticos é encher os bolsos. “Pouco ou nada lhes importa a emergência sanitária”, diz ela, “enquanto nós estamos a arriscar as nossas vidas e a das nossas famílias”. E, como milhares de cidadãos do Equador, faz-se a mesma pergunta: “Onde estão as autoridades do Estado?”.

Romano Paganini é um jornalista independente do Equador que colabora com vários meios de comunicação social, nomeadamente com o Open Democracy. É autor de livros como Manos de la Transición - Relatos para empoderarnos de 2017.

Artigo escrito com a colaboração de Mayra Caiza, Vicky Novillo Rameix e Alejandro Ramirez Anderson. Publicado em "La Línea de Fuego" a nove de abril. Resultado de um trabalho colaborativo entre este site e a Acapana, Radio Periférik e mutantia.ch.

Tradução de António José André para o Esquerda.net.

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