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Concurso que deixou Grada Kilomba fora da Bienal de Veneza alvo de contestação

Curador Bruno Leitão vai recorrer do resultado e contesta metodologia, critérios de avaliação e justificações de um membro do júri. A filósofa e escritora Djamila Ribeiro repudia “a vergonhosa decisão”, bem como “a insistência de um país apegado ao romance da sua colonização violenta”.
Grada Kilomba. Foto de Nuno Fox/Lusa (Arquivo).

O curador Bruno Leitão participou no concurso para a representação de Portugal na 59.ª Bienal de Arte de Veneza, em 2022, com o projeto A Ferida, da artista Grada Kilomba, que ficou em segundo lugar. O projeto Vampires in Space, do artista Pedro Neves Marques, apresentado pela dupla de curadores João Mourão e Luís Silva, irá representar Portugal.

Após ter contestado os resultados provisórios, em audiência de interessados, Bruno Leitão irá agora apresentar recurso hierárquico à Direção-Geral das Artes (DGArtes) e ao Ministério da Cultura.

Em causa está a metodologia empregue, os critérios de avaliação e as justificações de um dos membros do júri, o colaborador e crítico de arte do Público Nuno Crespo, segundo escreve o próprio jornal.

“Quando foi divulgada a pontuação geral conjunta parece que foi tudo muito equilibrado, mas quando pedimos para ver o processo em detalhe, com atas e pontuações, percebemos que havia coisas muito difíceis de entender”, explica Bruno Leitão. E avança: “De um lado, tínhamos notas máximas e, do outro, notas baixíssimas. E depois existem coisas fora do normal, como a ata onde os membros do júri justificam as suas escolhas. O que é inédito”.

Nuno Crespo atribuiu 10 pontos (numa escala de 0 a 20) em dois dos três critérios - projeto artístico e equipa, e objetivos – o que contrasta com os 19 ou 20 pontos atribuídos pelos restantes jurados. Enquanto três elementos do júri atribuíram à candidatura de Bruno Leitão pontuações de 19 e 20 valores nos três critérios de apreciação, Nuno Crespo avaliou o projeto com 10 e 15 valores, e os outros três projetos com entre 16 e 20 valores.

Para Bruno Leitão este método permite que “a opinião de um dos membros passe por cima dos restantes três”.

Sobre a questão do método, a DGArtes refereque “as deliberações por unanimidade não se encontram estabelecidas no presente regime do Apoio às Artes, nem nos regimes supletivos, como é o caso do CPA [Código do Procedimento Administrativo]”.

A curadora Ana Cristina Cachola, que também integrou o júri, esclarece que “existiram pontuações dadas a cada um dos projetos e depois uma média das classificações. Ou seja, não houve uma posição nominal sobre cada uma das candidaturas. Lendo as atas percebe-se que houve claramente um dissenso entre os vários membros do júri. E como já é público, para mim, a melhor proposta para ir a Veneza era a de Grada Kilomba”.

De acordo com Ana Cristina Cachola, “o que este concurso mostra é que o método tem de ser revisto para que não seja a média que funcione como resultado, mas provavelmente uma maioria ou unanimidade tendo em conta a importância do concurso”. A curadora considera que “a partir desta metodologia pode haver alguma perversidade nas pontuações atribuídas: pode votar-se em quem se deseja que seja vencedor”.

Sobre os argumentos de Nuno Crespo, Bruno Leitão foi perentório: “As justificações são insuficientes e incoerentes com as notas dadas em alguns casos. Não se pode dizer num ponto que está tudo bem e depois dá-se apenas um 15. Não se aponta nenhuma falha e dá-se um 15? Grada Kilomba tinha o currículo com mais peso dos artistas a concurso e recebe um 10? E depois há afirmações lacónicas como: ‘Este projecto não representa, ou não está comprometido com a internacionalização da arte portuguesa’. Isto quer dizer o quê exactamente? Porque é que não representamos Portugal? Pedimos que fosse clarificado isso no recurso também. E não há resposta a isso”.

Excertos dos argumentos mobilizados por Nuno Crespo:

“(…) a ideia de racismo como ferida aberta foi já objeto de inúmeras outras abordagens; de modo que a proposta apresentada não deixa perceber como numa exposição poderá rever, criticar ou prolongar, essa ideia tão já discutida e mesmo exibida de múltiplas formas (…)”;

“(…) ainda que a equipa técnica e artística seja competente, o mérito artístico da artista Grada Kilomba (…) não é satisfatório.”;

“(…) o projeto apresentado não possuí o alcance artístico que, a meu ver, a representação oficial tem obrigatoriamente de possuir (…)”;

“(...) não está comprometido com a dinamização e internacionalização da “cena” artística e cultural portuguesa.”

Já a artista Leonor Antunes, que representou Portugal na última Bienal de Arte de Veneza, afirma que houve “um boicote” à candidatura de Grada Kilomba. “Nuno Crespo, ao dar-lhe aquele valor tão baixo, está automaticamente a retirar a possibilidade de a candidatura dela ganhar. As razões que ele aponta para o facto de ela não ser interessante no seu ponto de vista são claramente afirmações racistas. Ele aponta razões como a metáfora de ‘ferida aberta’, o nome do projecto, já ter sido muito discutida. Por quem? Esse é assunto de sempre, do passado e do futuro, que continua a ser importante discutir. Principalmente vindo de uma pessoa como ela, que não é um artista branco a falar sobre o pós-colonialismo”, frisa.

“Grada Kilomba é gigante, rompe fronteiras e seguirá o seu caminho pelo mundo”

Numa carta aberta publicada na Folha de São Paulo, a filósofa e escritora Djamila Ribeiro lembra que Grada Kilomba “tem apresentado trabalhos em museus importantes nos Estados Unidos, na França, no Japão, na Suécia, na Alemanha, entre outros” e assinala que, “dada a importância e a internacionalização da obra da artista portuguesa”, foi com “incredulidade” que tomou conhecimento da ata do júri que rejeitou a candidatura do projeto "The Wound - A Ferida".

“A incredulidade se deve aos argumentos apresentados por um membro do júri. Segundo a carta aberta enviada para a imprensa pelo curador Bruno Leitão, que trabalha com Grada Kilomba na candidatura, não houve somente incoerências, mas também irregularidades graves nos critérios de avaliação”.

Djamila Ribeiro considera as afirmações de Nuno Crespo “no mínimo bizarras”: “Sendo o racismo um problema sistémico e estrutural, não é um tema que se esgota. E dizer que o projeto apresentado não possui alcance artístico e não está comprometido com a internacionalização da cena artística portuguesa soa novamente como ressentimento. Primeiro porque não é verdade, pois a artista tem vindo a apresentar as suas obras em diversos países. Trata-se de uma fala desonesta e falaciosa, quando se afirma o que não se pode provar”, vinca.

A escritora repudia os “argumentos ridículos, bem como a insistência de um país apegado ao romance de sua colonização violenta”.

“Grada Kilomba é gigante, rompe fronteiras e seguirá o seu caminho pelo mundo. Que fique registado na história tanto a vergonhosa decisão, assim como o nosso repúdio”, remata.

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